OS POSITIVOS

arte púbis

It seems a fitting end to a year in which the politics of public art have been everywhere.
in "Why I hate the Mary Wollstonecraft statue: would a man be 'honoured' with his schlong out?" 10 nov 2020

Depois do graffiti ilegal e efémero como arte de rua, agora na rua com estátuas, legais mas a caminho do efémero se 2020 é sinal de tendências. Retomando notas rápidas à cultura do cancelar via confederados EUA, demonstrações de apoio ao movimento Black Lives Matter que nos UK conseguiu o derrube mediático dum esclavagista local, a vandalização de um tributo ao conservador autoritário simpatizante declarado do fascismo italiano que se viu na incumbência de lutar contra o nazismo (Churchill), e ecos que nos chegaram cá: não se pode cancelar esta estátua? Por uma vez, não imaginamos ninguém à direita a levantar objecções.

« Was a tiny, silver, ripped nude really the correct way to honour ‘the mother of feminism’? »

I can’t see her feeling happy to be represented by this naked, perfectly formed wet dream of a woman. (...) Any passing teenage boy is not going to think, oh, that’s an icon of feminist education. They are going to think – tits!
in "'Insulting to her': Mary Wollstonecraft sculpture sparks backlash" 10 nov 2020

Duzentos anos e uma década a arrecadar fundos depois, revela-se por terras da rainha a primeira homenagem em pedestal a Mary Wollstonecraft 1759-1797, "writer, philosopher, and advocate of women's rights, Wollstonecraft is regarded as one of the founding feminist philosophers, and feminists often cite both her life and her works as important influences." in Wikipedia . Os mais pop-inclinados de vcs talvez lhe conheçam a filha que lhe custou a vida aos 38: Mary Shelley do "Frankenstein". Aqueles que inclinam noutras direções — OS POSITIVOS: we cater for ya'll! — saber-lhe-ão o marido por outras literaturas e parentalidades atribuídas: William Godwin.

Mas regressando ao Frankenstein em questão: defenderemos o vosso direito ao pós-modernismo com plena convicção onde democrático ou, no mínimo, descartável. Mas sabem-nos reacionários quando arte se mistura ao ordenamento do território em novos pontos de referência permanentes, num espaço que é de todos, se privilégio reservado a uns poucos. E se não o podemos pintar por cima e começar de novo, as nossas preferências "defaultam" no greco-romano, talvez neoclássico, o resto é caso-a-caso e entramos nisto já de pedras nas mãos. Esta estátua? Requer (re)apropriação urgente por tendências mais divergentes, talvez tão divergentes que possam tocar outros extremos. Mas não o tomem de nós, citamos do (um-dos-muitos?) outro(s) sexo(s):

It is a huge missed opportunity.
  • A nude female figure, echoing the way the female body has long been objectified and idealised by male artists (...) harking back to the idealised, objectified nudes of the past, those hollow symbols of femininity that for so long represented the containment and subjugation of women.
  • I call it the “It’s a naked lady, so it must be art” syndrome.
  • It is hard to imagine a male writer or thinker being “honoured” by a sculpture of a tiny naked man, schlong out for all to see, ripped like a Ken doll.
in "Why I hate the Mary Wollstonecraft statue: would a man be 'honoured' with his schlong out?" 10 nov 2020

Disclaimer: não nos crucifiquem ao altar — pun intended!— da alta cultura. Não temos planos para nos render aos argumentos iluminados dessas elites, e segue exemplo rápido daquele livrinho a retomar em próximas ocasiões. Diz-o-senhor:

A revolução sexual dos tempos modernos quebrou o encanto do ato sexual. Essa dessacralização do processo reprodutivo é a principal característica da cultura moderna.
Roger Scruton in "Cultura Moderna" 1998

Notemos a confusão entre encanto sexual e processo reprodutivo: uma outra memória colectiva de Mary Wollstonecraft precisa-se.

Já da "principal característica da cultura moderna", essa é toda uma outra foda.

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