OS POSITIVOS

sem consenso no (neo) futuro

batalha pela cultura

A ideia que proponho é controversa; a muitos parecerá absurda. Além disso não encontrei qualquer argumento decisivo a seu favor, apenas enveredei por caminhos especulativos e associação de pensamentos. O que me consola, ao contemplar a inadequação do que escrevi, é o facto de que qualquer outra tentativa com a qual me deparei ser igualmente má.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 2020

Temos livro! E temos que explicar que lhe devemos apelo provavelmente por reação à "SemConsenso. Banda Desenhada, Ilustração e Política" 2015-2016, antiga exposição no Museu do Neo-Realismo revisitada recentemente em limpezas às teses cujo manifesto envelheceu-nos mal (*) Fora a nossa habitual aversão à cultura popular museu-ó-ficada, mas pontos pelo panfleto e jornal: sabem-nos suckers por esses formatos..

Do manifesto 5 nov 2015. Sem dentes e muito pós-moderno. Talvez um produto da sua época, cuja principal inquietação civilizacional à data se devia à troika e crises (neo) liberais que, como todas as boas ideologias capitalistas, se confundem ao "real", não políticas. Ie, as inquietações ainda não previam o populismo por vir que a primeira eleição do Trumpas evidenciou. De então para cá, o "real" realmente politizou-se e revelou a realidade da guerra cultural em revolução (como em "rotação") permanente. Infelizmente a exposição termina justamente quando se fecha capítulo anterior e se abre o fuckfest que hoje atravessamos, relendo declarações por alturas do segundo sufrágio ao trumpo este manifesto é manifestamente insuficiente. Genericamente compromete-se com "mais democracia" e a insubmissão a "caminhos únicos", declarações que podemos encaixar nas reações naturais à TINA mas que falham em assumir um objectivo democrático — sabemos dos américas e populismos diversos esta tem muitos significados diferentes para muita gente — ou que caminho para a alcançar. Um manifesto de uma exposição politizada sem programa. Ie, de época.

E pós-moderno até doer:

Não há respostas certas. Há perguntas pertinentes.
  • A ideia de política que aqui se propõem não tem nada a ver com os esforços de lutas partidárias, nem com desejos de tomadas de poder. Tem a ver com uma possibilidade de tornar visível e exprimível certas experiências que muitas vezes estão arreigadas dos usuais canais de comunicação da política usual.
  • Não encontrarão os trabalhos numa só sala, apenas emoldurados. Eles estão espalhados na fachada do museu, no foyer, no hall de entrada (...) Estão mesmo nas casas de banho.
  • Cabe a cada um dos visitantes criar as possibilidades de diálogo entre estes trabalhos e aqueles já existentes no espaço: as pinturas, esculturas, filmes, músicas, documentos, etc.
  • Os visitantes não procurarão aqui imagens que depois identificarão como tendo associações à realidade que conhecem. Colocarão umas e outra em diálogo e, se tudo correr bem, alterarão ambas.
in "semConsenso: um manifesto." 5 nov 2015

Fun: "poderão identificar essas participações pelas legendas num verde vivo" não fossem os visitantes confundir bidés com urinóis.

Obviamente não podemos (*) Mas devemos senhores, devemos! julgar algo que falhou em adivinhar do seu presente o futuro imediato, concordamos mesmo com partes substanciais das bases pressupostas, como a intemporal relação arte e $$$:

Décadas produção e inventabilidade, mesmo que isso não se tenha traduzido pelas moedas mais correntes, a fama e a recompensa financeira. Não é que elas não sejam importantes, mas pela sua usual ausência, não são o motor destes trabalhos, o que reforça ainda mais a sua eficácia e poder.
in "semConsenso: um manifesto." 5 nov 2015

...mas chocamos frontalmente nas modas dominantes de pós-modernização política. Encontrem-nos no contrário do contrário:

Querer o contrário é como se se desejasse reinstituir classes ou castas, diferenciando entre patrícios e plebeus, isto é, aqueles que podem debater a política, que podem pertencer às mesas de diálogo que lhe estão alocadas, e aqueles que ficam de fora. Seria mais simples para gerir, sem dúvida: a democracia é uma chatice.
in "semConsenso: um manifesto." 5 nov 2015

Classes e castas são "reais", patrícios e plebeus continuam diferenciados, mais que reconhecê-lo é necessário evidenciá-lo, não diluí-lo. Assumindo-o, todos fazem parte do diálogo, ninguém fica de fora. O que são as guerras culturais hoje se não dores de parto de uma democracia onde tantos "tão poucos" exigem o seu lugar à mesa? O contrário da chatice, o caos necessário. O comissário da dita concordará connosco: "são novas regras, novos jogos", "expandindo, sempre, um entendimento do campo da política".

Azar nosso, o manifesto remete definições para "a leitura do filósofo contemporâneo francês Jacques Rancière" que não pensamos ler tão cedo. Em seu lugar, escolhemos seguir com o "Cultura Moderna" 2020 org.1998/2000 de Roger Scruton. Conservador reacionário! e intransigente pela alta cultura, desprezista de coisas-que-fazem-pop:

A primeira edição deste livro foi criticada por fazer pouca menção à fotografia, ao cinema e à televisão. Como pude escrever sobre a cultura moderna, questionam, sem dizer absolutamente nada sobre a mais marcante invenção cultural dos nossos tempos? Adicionei, pois, um pequeno capítulo. (...) Descobri até o que dizer (...) e se tivesse prosseguido por essa via, seria capaz de discorrer com erudição sobre comida de plástico, bonés de basebol e Cadillacs platinados. Não faltam obras (...) celebrando indiscriminadamente qualquer moda ou capricho aos quais seja plausível atribuir as credenciais de “cultura”. Mas o meu propósito não é esse.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 2020

Adiante, foi a sua definição inicial de cultura que nos conseguiu "re-eletrificar a matéria conceptual e política" — aqui citando o comissário... — e humores combinados. Porque um livro pequeno, tentados até a comentá-lo capítulo-a-capítulo como anteriormente castigamos outros, e vocês que nos leem a ler.