OS POSITIVOS

é ciência, estúpido

« a principal característica da cultura moderna »

A ciência, através do tecido saturado de tecnologia da vida humana, demonstra diariamente seus milagres ao mundo de fins do século XX. É discutível quando essa capacidade de certas atividades humanas produzirem resultados sobre-humanos se tornou parte da consciência comum.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994

outra vez do "Sapiens A Origem da Humanidade"

“A consolação das coisas imaginárias não é uma consolação imaginária”. Certíssimo, no entanto do mesmo Roger Scruton discordamos da sua dessacralização do acto reprodutivo como central ao modernismo-moderno que a todos nos moderniza: tão só um sintoma de um outro processo, esse verdadeiramente “a principal característica da cultura moderna”, e para lhe traçar contornos temos que dar a volta maior: estão connosco?

A disparidade de significados sobre a mesma realidade é outro sintoma-tornado-axioma nos últimos anos, mais directamente relacionável a ditames culturais sobre a condição que nos aflige do que a frigidez ou fogosidade na prática do coito. E nenhum é mais evidente do que os inbred cousins das guerras culturais, as teorias da conspiração. Dessas começamos descida down tha rabbit hole para lhe encontrar rasto.

...a feeling that friends and relatives are inhabiting a different reality.

Same services have enabled the creation of what one professional factchecker calls a “perfect storm for misinformation”: the end of consensus reality as we know it. It became clear, very quickly, that there would be different approaches to how people would talk about, debate and discuss the issues. What happens when your basic understanding of the world is no longer the same as your neighbour’s?
in "Facebook, QAnon and the World's Slackening Grip on Reality" 11 nov 2020

Resposta: uma “collective delusion” na intersecção do aparato comunicacional muitos-para-muitos com as disposições de individuos atomatizados numa sociedade ávida de ficções não submetida à imposição de uma narrativa concordante. "The consensus reality has broken down." E, primeira pista, graças ao aparato tecnológico que o permitiu. Mas antes de culparmos as redes sociais por gerar esse monstro, primeira bandeirinha vermelha: "we have been here before".

We are discussing a mass of people who subscribe to a shared set of values and debunked ideas, which inform their beliefs and actions.
in "Facebook, QAnon and the World's Slackening Grip on Reality" 11 nov 2020

Ie, toda a história humana como a conhecemos e se repete de tempos a tempos — estivemos aqui há exactamente um ano, voltaremos a estar no próximo. Talvez mesmo de regresso ao "normal" depois do século de monopólio em narrativas públicas que igual monopólio das tecnologias de comunicação garantiu aos seus detentores:

If you look in the longer history – back to the 16th century – you see something that looks like now. Then, as now, the elites had access to fairly accurate information about the state of the world, but normal people were probably not communicating much beyond their village. And, in an era when people primarily get their news from social networks then all that has happened is the village has moved online. [...] In that long view, the artificial world isn’t the one the internet and lockdown have created, but the temporary “blip” in time when broadcast media was able to forge one shared reality for a nation. “I wonder if it’s kind of come full circle in a way, the more information we have access to, the less ability we have to tell what is authentic or not.
in "Facebook, QAnon and the World's Slackening Grip on Reality" 11 nov 2020

Pista dois: devemos a interrupção interrompida novamente à tecnologia. E segunda bandeirinha vermelha: elites. Quer agora quer então, das massas na rua a deitar mãos ao aparelho de comunicação — pun! — que era reserva de instituições e poderosos, traçamos a mesma origem aos sobressaltos da sociedade.

E aqui o nosso maior pedido de desculpa antecipados a quem nos segue por diatribes culturais ou militâncias ideológicas: a origem dos desassossegos culturais-pop e manifestações de rua que se seguirão em vinte-vinte-e-um? Demasiado extenso para manifesto de 5 minutos, mas encontram-no no espectro frio e desapaixonado das ciências naturais e das ciências puras, da física e da matemática. Surpresa que não o é: as ciências foram, pela maior parte da nossa História, companheiras inseparáveis da Filosofia, a mais antiga das demandas pela razão de tudo e explicação do resto. Quando se separaram fizeram-no justamente no impacto de cada qual: a filosofia encolheu-se ao canto da sala de aula da estética e ética, a ciência explode do laboratório para conquistar o mundo moderno: de facto, o mundo moderno é um produto da ciência, nota que raramente sobressai nos acessos debates em arte e cultura, alguns dos quais regados em terminologia remanescente da religião e outros mitos, antítese total da ciência e derivados que permitem quer o objecto de estudo como o próprio estudo.

Para explicarmos a pós-modernidade por via científica, recuperamos mais uma vez o Eric Hobsbawm (*) Excertos de edição brasileira: querem ler pt_PT procurem livro. ainda fresco em memória porque, como o Scruton, ambos fecharam literatura antes do advento das redes sociais e assim impolutos nos seus dizeres por tais mesquinhices, permitindo-nos reter desses o intemporal a registar. Senhores,

Nenhum período da história foi mais penetrado pelas ciências naturais nem mais dependente delas do que o século XX. Contudo, nenhum período, desde a retratação de Galileu, se sentiu menos à vontade com elas.

Devíamos esperar que as ideologias do século XX se regozijassem com os triunfos da ciência, que são os triunfos da mente humana, como fizeram as ideologias seculares do século XIX. Na verdade, devíamos ter esperado até mesmo que enfraquecesse a oposição das ideologias religiosas tradicionais, grandes redutos de resistência à ciência do século XIX. (...) E no entanto, o século XX não se sentia à vontade com a ciência que fora a sua mais extraordinária realização, e da qual dependia. O progresso das ciências naturais se deu contra um fulgor, ao fundo, de desconfiança e medo, de vez em quando explodindo em chamas de ódio e rejeição da razão e de todos os seus produtos. (...) A desconfiança e o medo da ciência eram alimentados por quatro sentimentos: o de que a ciência era incompreensível; o de que suas consequências tanto práticas quanto morais eram imprevisíveis e provavelmente catastróficas; o de que ela acentuava o desamparo do indivíduo, e solapava a autoridade. Os leigos só podiam reagir contra seu senso de impotência buscando coisas que “a ciência não pode explicar”, na linha do hamletiano “Há mais coisas entre o céu e a terra... do que sonha a tua vã filosofia”, recusando-se a acreditar que elas pudessem algum dia ser explicadas pela “ciência oficial”, e ansiando por acreditar no inexplicável porque parecia absurdo. Pelo menos num mundo desconhecido e incognoscível todos estariam igualmente impotentes. Quanto maiores os triunfos palpáveis da ciência, maior a fome de buscar o inexplicável. (...) O fosso entre os especialistas, que tinham algum critério para julgar, e os leigos, que só tinham esperança ou medo, foi alargado pela diferença entre a avaliação desapaixonada, que bem poderia achar um pequeno grau de risco um preço a pagar por um grande grau de benefício, e indivíduos que, compreensivelmente, desejavam risco zero. (...) Esses eram os temores da desconhecida ameaça da ciência de homens e mulheres que só sabiam que viviam sob o domínio dela; temores cuja intensidade e foco diferiam segundo a natureza das suas opiniões, e temores sobre a sociedade contemporânea.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994

Para sermos óbvios, exemplo américas:

Esse medo também foi espalhado pela inata hipocondria da cultura americana, à medida que a vida era cada vez mais submersa pela tecnologia moderna (...) Eram uma rejeição das afirmações e do domínio da ciência, às vezes de maneira consciente, como na extraordinária rebelião (mais uma vez centrada nos EUA) de grupos periféricos.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994

Long read para contexto completo.

O fato de que o século XX dependeu da ciência dificilmente precisa de prova. A ciência “avançada”, quer dizer, aquele conhecimento que não pode nem ser adquirido pela experiência diária, nem praticado ou mesmo compreendido sem muitos anos de escola, culminando numa formação de pós-graduação esotérica, tinha apenas uma gama relativamente estreita de aplicações práticas até o fim do século XIX. (...) Embora a grande ciência do Breve Século XX já fosse visível em 1914, e embora a alta tecnologia posterior já estivesse implícita nela, a grande ciência ainda não era uma coisa sem a qual a vida diária em toda a parte do globo seria inconcebível. (...) A tecnologia com base na ciência já se achava no âmago do mundo burguês do século XIX, embora as pessoas práticas não soubessem exatamente o que fazer com os triunfos da teoria científica, a não ser, nos casos adequados, transformá-las em ideologias: como o século XVIII fizera com Newton e o final do século XIX com Darwin. Apesar disso, vastas áreas da vida humana continuaram sendo governadas, em sua maioria, pela experiência, experimentação, habilidade, bom senso treinado e, na melhor das hipóteses, difusão sistemática de conhecimento sobre as melhores práticas e técnicas existentes.

Num determinado momento, no último terço do século, isso começou a mudar.

É o que ocorre quando o milênio chega ao seu final. A tecnologia com base em avançadas teoria e pesquisa científicas dominou o boom econômico da segunda metade do século XX, e não mais apenas no mundo desenvolvido. (...) Num mundo democrático e populista, os cientistas eram uma elite (...). Com o passar do tempo, essas atividades foram se tornando cada vez mais incompreensíveis para os não-cientistas, embora os leigos tentassem desesperadamente entendê-las, com a ajuda de uma vasta literatura de popularização, às vezes escrita pessoalmente pelos melhores cientistas. Na verdade, à medida que aumentava a especialização, mesmo os cientistas precisavam de cada vez mais publicações para explicar uns aos outros o que se passava fora de seus respectivos campos. (...) O problema dessas tecnologias é que se baseavam em descobertas e teorias tão distantes do mundo do cidadão comum, mesmo dos países desenvolvidos mais sofisticados, que só algumas dezenas ou, no máximo, algumas centenas de pessoas no mundo podiam captar inicialmente que elas tinham implicações práticas. (...) Novos avanços científicos foram se traduzindo, em espaços de tempo cada vez menores, numa tecnologia que não exigia qualquer compreensão dos usuários finais. O resultado ideal era um conjunto de botões ou teclado inteiramente à prova de erro, que requeria apenas apertar-se no lugar certo para ativar um procedimento que se movimentava, se corrigia e, até onde possível, tomava decisões, sem exigir maiores contribuições das qualificações e inteligência limitadas e inconfiáveis do ser humano médio. Na verdade, idealmente, podia-se programar o procedimento para dispensar de todo a intervenção humana, a não ser quando alguma coisa dava errado. Para fins práticos, a situação do operador de check-out do supermercado representava a norma humana de fins do século XX; os milagres da tecnologia científica de vanguarda, que não precisamos entender nem modificar, mesmo que saibamos, ou julguemos saber, o que está acontecendo. Outra pessoa o fará ou já fez por nós. Pois, mesmo que nos suponhamos especialistas num ou noutro campo determinado — ou seja, o tipo de pessoa que pode consertar o aparelho se der problema, ou projetá-lo, ou construí-lo —, diante da maioria dos outros produtos diários da ciência e tecnologia somos leigos ignorantes sem compreender nada. E mesmo que não fôssemos, nossa compreensão do que é que faz a coisa que usamos funcionar, e dos princípios por trás dela, é em grande parte conhecimento irrelevante.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994

Percorre a segunda parte do século uma aura a pós-qualquer coisa. Dão-lhe nome?

E porque nos importa cultura aplicada, ie inferência / interferência em relações de poder e $$$, parêntesis para espaço às ciências no realm da política.

A verdade é que a “ciência” estava demasiado grande, demasiado poderosa, demasiado indispensável à sociedade em geral e a seus pagadores em particular para ser deixada entregue a seus próprios cuidados. O paradoxo de sua situação era que, em última análise, a imensa casa de força que era a tecnologia do século XX, e a economia que ela tornava possível, dependiam cada vez mais de uma comunidade relativamente minúscula de pessoas para as quais essas consequências tirânicas de suas atividades eram secundárias, e muitas vezes triviais. (...) Contudo, elas sabiam que viviam e ajudavam a moldar um mundo que não podia entender nem ligava para o que faziam. Só os poderes transformadores do mundo, dos quais elas tinham a chave, as protegiam, pois esses pareciam depender de que se deixasse uma elite, fora isso incompreensível e privilegiada seguir seu caminho em paz. Todos os Estados do século XX que haviam agido de outro modo tinham motivo para lamentá-lo. Todos os Estados portanto apoiavam a ciência, que, ao contrário das artes e da maioria das humanidades, não podia funcionar de fato sem esse apoio, ao mesmo tempo evitando interferir até onde possível.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994

Wink-wink: "ao contrário das artes e da maioria das humanidades" — mais desses noutro dia. E para sermos óbvios, exemplo presente-futuro:

The three remaining world powers — the EU, China, and the United States — are today struggling for world market supremacy. The battles will be fought in the field of digital technology. (...) European Commission president Ursula von der Leyen announced that we have ahead of us nothing less than a “digital decade,” and demanded clear-cut goals for a digital Europe by 2030. (...) Technology, it would seem, is a matter of power politics. (...) With US hegemony in decline, China and the European Union are each vying to impose their own leadership over the next wave of digitalization.
in "How Digitalization Is Preparing a Fight for World Market Supremacy" 14 nov 2020

Nada menos que a "década digital".

...Mas continuemos da Cultura. Retomando Scruton, onde concordamos e discordamos numa só frase:

Não pode existir uma cultura científica, da mesma forma que não pode haver uma religião científica; a cultura, como a religião, trata a questão que a ciência deixa sem resposta: a questão de o que sentir. O saber que nos outorga não é um saber dos factos ou dos meios, mas dos fins: o mais precioso saber que possuímos.
Roger Scruton in “A Cultura Moderna” 1998

É-nos óbvio que 1) pode haver uma cultura científica e aquela outra mencionada, esta última talvez muito próxima dos dois projectos históricos que misturaram ideologia e ciência — nazismo e estalinismo. Da cultura científica e "o que sentir" consideramos demonstrado, mas 2) concordamos dos fins: é deles que se ocupa a cultura-como-a-cultivam. Porém, e se alguma tecla martelamos neste espaço desde há anos, é que 3) não a podemos separar dos instrumentos de que depende. Voltaremos a esses, crendo que definitivamente nos despedimos do Eric, última citação ao adeus:

Essas eram as bases nas quais as triunfantes estruturas da pesquisa e da teoria científicas se erguiam, e pelas quais o século XX será lembrado como uma era de progresso humano, e não, basicamente, de tragédia humana.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994

A tragédia estava reservada ao século XXI.