OS POSITIVOS

são as trevas

« o dilema das pessoas comuns »

"Sapiens A Origem da Humanidade"

O dilema segue em dois sentidos: o que podem as pessoas comuns fazer, mas também o que fazer delas? O título rippámos da frase exacta com que Eric Hobsbawm fecha a sua trilogia e prometemos matar hoje as citações ao homem (*) Mais uma quantas e teríamos abusado mais dos seus dizeres que do "Da Alvorada à Decadência - De 1500 à Actualidade 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente" do Jacques Barzun, ainda o detentor de mais cites recontextualizados entre os P+. Para compreenderem porquê, encontram pistas no título da obra..., mas... os américas vão a votos, a nossa deixa.

Se o voto por sufrágio universal ia continuar a ser a regra, parecia haver duas opções principais. i) Onde a tomada de decisões não estava de facto fora da política, iria contornar cada vez mais o processo eleitoral, ou antes o constante acompanhamento do governo que lhe era inseparável. As autoridades que tinham elas próprias de ser eleitas iriam também, cada vez mais, ocultar-se, como um polvo, por detrás de nuvens de tinta para confundir os seus eleitorados. ii) A outra opção era recriar o tipo de consenso que dava às autoridades substancial liberdade de acção. Um modelo político há muito estabelecido para isso já existia desde Napoleão III: a eleição democrática de um salvador do povo ou um regime salvador da nação.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994 (orig.)

No enxerto acima as opções a voto por terras-de-Sam, mas o qual-é-qual não é imediato. As nossas críticas à disfunção eleições/poder são antigas e nem muito originais, sendo “conhecidas dos cientistas políticos e dos satiristas políticos desde que a política do sufrágio universal se tornara mais do que uma peculiaridade dos EUA”. Hobsbawm resume xuxu “o dilema de um mundo comprometido com um determinado tipo de democracia política. Em termos gerais, era o dilema das pessoas comuns”:

O dilema de uma época em que o governo podia — alguns diriam: “devia” — ser “do povo” e para o “povo”, mas não podia em qualquer sentido operacional ser “pelo povo”.

As autoridades públicas tinham de tomar muito mais decisões para as quais a opinião pública não constituía qualquer tipo de guia. (...) Eleitores e parlamentos viam-se constantemente diante de decisões sobre questões para as quais os não especialistas — ou seja, a vasta maioria tanto dos eleitores como dos eleitos — não tinham qualificações para expressar uma opinião.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994 (orig.)

Com o hiato que se conhece de outro século. Do povo:

No fim do século, um grande número de cidadãos retirava-se da política, deixando as questões do Estado à «classe política» que lia os discursos e editoriais uns dos outros; um grupo de interesse especial de políticos profissionais, jornalistas, gente dos lobbies e outros cuja ocupação ficava por último na escala de fiabilidade nas pesquisas sociológicas.

Para muita gente, o processo político era irrelevante. Por um lado, a riqueza, a privatização da vida e da diversão e o egoísmo do consumo tornavam os políticos menos importantes e menos atraentes. Por outro, os que achavam que pouco obtinham com as eleições viravam-lhes as costas. O declínio dos partidos de massa organizados com base em classes, ideologias, ou as duas coisas juntas, eliminou a grande máquina social para transformar homens e mulheres em cidadãos politicamente activos.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994 (orig.)

Não atirem só pedras às massas egoístas partidas, a própria classe política assinou o divórcio:

Cada vez mais, porém, os governos procuraram contornar tanto o eleitorado como as suas assembleias representativas, se possível, ou pelo menos tomar decisões primeiro e depois desafiar ambos a reverterem um fait accompli, confiando na volatilidade, divisões ou inércia da opinião pública. A política tornou-se cada vez mais um exercício de evasão, pois os políticos temiam dizer aos eleitores o que eles não queriam ouvir. 
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994 (orig.)

E de atirar pedras, sabem onde fazemos pontaria:

A tendência cada vez mais sistemática dos governos de contornarem o processo eleitoral ampliou a função política dos meios de comunicação, que agora chegavam a todas as casas, proporcionando de longe o mais poderoso meio de comunicação da esfera pública à privada incluindo homens, mulheres e crianças. A sua capacidade de descobrir e publicar o que as autoridades desejavam manter na sombra, e de dar expressão a sentimentos públicos que não eram, nem podiam mais ser, articulados pelos mecanismos formais da democracia, transformavam esses meios de comunicação em grandes actores do cenário público. Os políticos usavam-nos e temiam-nos. O progresso técnico tornava-os cada vez mais difíceis de controlar, mesmo em países altamente autoritários. O declínio do poder do Estado tornava-os mais difíceis de monopolizar nos Estados não autoritários. À medida que se aproximava o fim do século, tornou-se evidente que os meios de comunicação eram um componente mais importante do processo político do que os partidos e sistemas eleitorais, e provavelmente assim continuariam — a menos que os políticos se afastassem drasticamente da democracia (*) Afastamentos dramáticos aqui..
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994 (orig.)

Anterior às redes sociais, depois o caos. E podemos ainda encontrar no EH um enunciado ao nosso presente, um cujo tecido social é literalmente enredado pelas tecnologias que em ‘91 não existiam:

Poder-se-ia supor que a despolitização deixaria as autoridades mais livres para tomar decisões. Na verdade, teve o efeito oposto. As minorias que faziam campanha, às vezes por questões específicas de interesse público, com mais frequência por algum interesse seccional, podiam interferir nos tranquilos processos de governo tão eficazmente, e às vezes mais até, do que os partidos políticos de propósitos abrangentes, pois, ao contrário destes, cada grupo de pressão podia concentrar a sua energia na busca de um objectivo único.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" 1994 (orig.)

Século XXI: nunca fomos tão poucos.

com senso