OS POSITIVOS

a polícia do fanzine

será

Geraldes Lino corrigiu-nos tantas vezes o sexo do “fanzine” que acabou por nos vencer vontades, e convenceu-nos em partes iguais pela gramática mas também pela aparente reserva de uma paciência quase infinita não lhe conseguimos tentar — embora o tenhamos por diversas vezes (*).

*) Éramos teens, boa sorte com isso da lógica e da razão. Lino seguiu connosco a linha que eras mais tarde tornar-se-ia aforismo web (“don’t feed tha trolls”), mas sabemos que com outros podia fazer uma argumentação bastante mais enérgica. Talvez tenham eventualmente esgotado a sua paciência, se o fizeram já foi depois do nosso tempo. Obviamente continuamos casmurros, mas agora não podem culpar as hormonas, é mais uma deliberação cultivada.

Sem Lino para os corrigir, as próximas gerações começam a retornar ao zine feminino, uma tendência que lhe parece ser natural. Segue-se amostra recente:

#1
João Oliveira e Guilherme Ferrugento

A primeira edição da zine foi publicada em Janeiro de 2020.
"Cultura do Fanzine em Portugal 01- Spooky Action At a Distance I" 24 ago 2020

#2
Matilde Horta

Rainhas de Portugal foi a primeira fanzine que fiz com a minha irmã de 15 anos.
"Cultura do Fanzine em Portugal 02- Rainhas de Portugal" 27 ago 2020

#3
Eduardo Cardoso

Tenho vindo a fazer diversas publicações de fanzines há 10 anos, entre elas Perseus, Neo Cosmos ou Atmosfera Explosiva.
"Cultura do Fanzine em Portugal 03 — Eduardo Cardoso" 28 ago 2020

#4
Rodolfo Mariano

O meu zine/livro de BD mais recente foi publicado em Julho de 2020, 36 páginas, capa a cores, impresso numa gráfica.
"Cultura do Fanzine em Portugal 04 — Rodolfo Mariano" 29 ago 2020
(consultados na primeira semana de out 2020)

Contamos duas zines para uma preposição e um masculino. Talvez a seu tempo a cultura do fanzine passe à cultura da fanzine, com um meio termo politicamente correcto no cultura de fanzine? Indiferentes se a indeterminação de género tenha chegado à impressão amadora, aborrece-nos mais o travestismo dessa impressão em impressão profissional pelo Rodolfo Mariano — a ler na tradução divulgada para inglês ver:

My first comic book/zine was self-published in 2012 while I was in art school, 12 pages of cheap drawing A4 paper, xerox printed. My latest comic zine was printed and published last July, 36 pages, colour covers, professionally printed.
in "the short list – Rodolfo Mariano – Portuguese zinester" 29 set 2020

Outra comichão que nos pede coça em todas-as-coisas-zine continua a ser a cegueira sobre o óbvio. Do mesmo sítio onde fomos buscar amostra inicial:

Este projeto leva-nos até à era pré-digital, uma época em que os fanzines eram o meio preferencial de divulgação para artistas, bandas musicais, fotógrafos, escritores e ilustradores. Uma época em que a informação era escassa e a melhor forma de afirmar uma ideologia ou convicção seria através deste tipo de publicações. Caracterizadas por serem produzidas com meios simples, pois eram sobretudo auto-publicadas, recorria-se a um processo criativo de mixed-media, usando diversas técnicas como fotografia, recortes, desenho, colagens e, também, fazendo uso da icónica expressividade dos fotocopiadores xerox e da risografia. Tudo isto era usado como forma de criação de um novo meio de divulgação artística, um meio que as pessoas podiam partilhar e através do qual podiam afirmar e debater opiniões.
in "Sobre o Fanzine"2020

Saltamos o saudosismo por eras de “informação escassa”, esse relógio não vai andar para trás. Saltamos a apologia pelo “very handmade”, é deixá-los ter hobbies. É mesmo o pacífico do “um novo meio de divulgação artística” com “processos criativos de mixed-media” e diversas técnicas supramencionadas para “partilhar” e “debater opiniões” com “convicção” que nos desespera, sobretudo considerando as ocupações profissionais declaradas de boa parte dos seus intervenientes. Afinal, encontrámos este excerto justamente no seu sítio online, conseguido qb e competente nas escolhas feitas entre as soluções técnicas disponíveis. E sobre esse canal onde cantam das alegrias do papel começam com uma nota de aleluia pelo pré-digital? Senhor@s, odes a meios de comunicação por comparação a meios de comunicação através desses mesmos meios de comunicação capazes do mesmo dos outros meios de comunicação, talvez mais eficazes (*) Conditions apply. já que recorrem a estes meios de comunicação para divulgar os outros meios de comunicação? Algo se perdeu a meio desta comunicação, e não é a comparação, preferências ou uma putativa hierarquia que nos choca, mas como tomam os canais digitais por adquiridos: isso também é ideologia, e uma derrota para uma das piores mentiras do capitalismo em digital: mais uma TINA. Quando dizem "zines" à frente dum ecrã e suspiram pelo papel recordam-nos dizeres antigos do nosso velho Mark Fisher, e como nos apanharam a pôr em dia o homem, segue:

The old struggle between detrournement and recuperation, between subversion and incorporation, seens to have been played out. What we are dealing with now is not the incorporation of materials that previously seemed to possess subversive potentials, but instead, their precorporation: the pre-emptive formatting and shaping of desires, aspirations and hopes by capitalist culture. [...] The establishment of settled ‘alternative’ or ‘independent’ cultural zones, which endlessly repeat old gestures of rebellion and contestation as if for the first time. ‘Alternative’ and ‘independent’ don’t designate something outside mainstream culture; rather, they are styles, in fact the dominant styles within the mainstream.
in Mark as read by P+ 2017

OS POSITIVOS: não perguntamos se é menino ou menina, mas ao que vem.

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