a darker web

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Se não leste, lê primeiro a primeira parte. Avançando, comics e media, que nos ocupou tão longamente antes, resumido:

Fusing images with text, comics can convey far more than traditional news stories to a readership hungry for voice and meaning.

Comics, or graphic, journalism is turning up in daily newspapers, where its inherent subjectivity contrasts sharply with the newsroom’s dispassionate prose — another round in the debate over what journalism should be in the 21st century.
in "The Case for Comics" 16 março 2005

Escrito em 2005 (*)unFun fact: verificado 5 anos mais tarde e offline. e guess what? O debate "over what journalism should be in the 21st century" está na ordem do dia, e os comics along for tha ride por razão do digital. Continuando:

Such code-switching, the ability to alternate between the realistic and the symbolic, is a major strength of comics journalism.

E se estamos a ligar com conversas passadas, este:

The effect relies on a disruption of the ordinary mechanics of the medium. Comics do freeze time with the still image; but by placing these images in sequence, they also provide a sense of motion, of change. Comics are not merely a collection of images, but a collection of images placed in deliberate — though not necessarily chronological — order. Unlike much of photojournalism, the images are not intended to stand alone, each seeming to capture the whole story in a single moment. And unlike video and film, with comics the entire series is available to view simultaneously

— então aplicados a uma reportagem ficionada em feature film. Continuando na não-ficção:

Because several sets of text-image blocks can appear side by side on the same page, comics are well suited to represent the fragmentation of experience during crisis, or the incommensurable views of opposing sides in the midst of conflict.

The independence of the words and the pictures allows for an overlay of subjective and objective storytelling. Tensions between the written word and the image can be used to highlight uncertainties, ambiguities, and ironies that other media might inadvertently play down or deliberately ignore.

When it comes to the front page, newspapers favor plain language, in part to protect the readers from the seductions of rhetoric, of art. And comics are irreducibly artistic.

Apenas apontamos o exemplo do graphic journalism a propósito de um propósito maior. Um último obrigado por no mesmo artigo também terminarem com citações úteis à causa:

And perhaps more importantly, they add to the options available to readers, who have lately demonstrated a hunger for voice and meaning in news coverage. Witness the proliferation of blogs and the continued popularity of zines. Like zines and blogs, comics drop the pretense of detachment and emphasize perspective.

Esse é o um bom ponto a guardar como alicerce das nossas teorias: opções, visões alternativas, seriamente divergentes mesmo. Que podem ser agora massificadas como nunca antes poderam ser, e esse seria um segundo ponto a reter. E no seguimento do mesmo excerto, ponto três: sobre um meio de comunicação já de si demasiado bom para não o querer usar:

Furthermore, comics are visually engaging and famously easy to understand. They are, as Sacco says, “inviting. It looks like an easy read.” After all, as everyone knows, even kids read comic books.

A relação comics e jornalismo por via das reportagens gráficas é apenas um exemplo, o mais relevante às nossas teses é a evidência da banda desenhada e os media têm uma relação de proximidade e uma longa história juntos — separados por um hiato que podemos atribuir ao spandex. Os comics, por seu lado, no auge da popularidade dos spandex revoltaram-se e desde então são capazes de uma comunicação pessoal e alternativa que nOS POSITIVOS resumimos numa ética: o punk.

Não é um exercício tão simples ou linear relacionar os comics ao punk — ainda que já o tenhamos feito no passado — quer entre os que leem comics ou os que se acham sem futuro. Esse caminho, para nós, começa na passagem de testemunho dos hippies com o comix underground norte-americanos.

Não escusa a leitura do nosso resumo já citado mas dá cor ao início de conversa: alguma história, punk & comics:

The Underground Comix scene, like the hippie counterculture with which it was associated, had peaked a few years earlier and badly needed a new direction. Then, in 1978, came the first issue of Anarchy Comics. Thank god for punk rock. Anarchy Comics (…) represented a unique collision of Underground Comix sensibility, punk aesthetics and utopian politics. (…) Art and pulp, fiction and nonfiction, idealism and cynicism didn't merely appear alongside one another but often intermingled, and even blended together.
in "The Legacy of Anarchy Comics" 5 março 2013

Tudo reunido numa só citação para ficar bonitinho na fotografia: media, comics e punk:

In their passion, tenacity, democratic idealism and scrappy spirit, comics journalists are trying to illustrate a more optimistic path for the Fourth Estate; an independent journalism that speaks truth not just to the elite, but to the public in general — as comics always have.
in "Warning: This Article Contains Graphic Journalism" 10 agosto 2011



Hiato esse interrompido pela crise existencial dos media no digital — a grande oportunidade que se apresenta.

The Information Age is the third Industrial Revolution, marked by digital and personal manufacturing.
Chris Anderson in "Makers: The New Industrial Revolution"

De repente, os comics voltam a ter uma visibilidade e assunção de maioridade intelectual de que não dispunham desde que se tornaram sinónimo exclusivo de géneros infantis. O digital representa um choque de hábitos e processos, e se mexe com a industria livreira, lançou os media numa espiral descontrolada de incertezas.



A incerteza do futuro dos media obriga-os a reinventarem-se, e apesar de falarmos dessa incerteza desde o advento da web, o mobile torno-a inevitável e urgente. Segue-se o exemplo da CNN, retirado de um artigo publicado esta semana com o sugestivo nome de "How CNN is ‘future-proofing’ itself" 13 out 2016. Em três partes, como manda a regra:

Boom in business no digital:

Both developments—the creation of a digital product and addition of digital talent—point to a broader change that has come into clearer focus over the past year (…) taken together, show an organization pushing ahead with one of the most ambitious digital expansions in media today. (...) The additions comprise journalists, techies, and distribution experts, among others.

A incerteza persiste:

The company’s ramp-up comes at a particularly tricky moment for digital media. The Guardian is paring down after making a bad bet on digital advertising. Startups like Mashable and the International Business Times have experienced bloodbaths this year, with cost-cutting centered on expensive news operations. There has also been rampant speculation that BuzzFeed, which has built out a particularly high-caliber newsroom, could eventually require restructuring. With so many players crowding in and doing somewhat similar things, there’s going to be some losers.

Onde nos importa — land of opportunities:

A very fortunate thing, from my point of view, is that I think editorial quality as a business asset is making a big return.

Os media, depois de alguns maus anos, de volta em força ao digital com o embalo das novas tecnologias que permitem a web no bolso do leitor — por algum motivo se redesenhou a pirâmide das necessidade básicas para incluir na sua base o battery life e o wifi. Se punks há que ainda se dobram em esforços para evitar o digital (*)Sempre um dia triste quando os punx se escusam às revoluções., os powers that be não conseguem acelerar o suficiente para estarem à frente nessa revolução:

The confluence of factors may create some daylight for established outlets that still have the resources for substantial investment in new media. Backed by a deep-pocketed and deeply digitally focused new owner, The Washington Post has been reinvigorated online. The New York Times is moving forward with global expansion plans aimed at paying customers. And Wall Street Journal publisher Dow Jones has similarly made public its goal of reaching 3 million subscribers by the end of 2017.

“The mobile culture is rapidly taking over our lives and we must ensure that our news is attuned to that culture,” Baker wrote. “We also need to work harder as a news organization to think about how content works best on digital and especially mobile platforms, and what engages our readers, including better graphics, photos, video and other features. The digital desk will be a launching point for rethinking how we present our content digitally and how our digital storytelling needs to change as our readers do.”

Onde nos importa? O abraçar das alternativas é abraçar os nichos. Terra das oportunidades.

Cultivating a massive digital audience does not necessarily translate into a sustainable digital business. (...) The strategic aim is to organize this audience into thematic verticals, such as CNN Money or CNN Tech. The hope is that doing so will both allow for more targeted advertising and bring new, engaged readers and viewers under the CNN umbrella.

Não queremos convencer-vos a mandarem o cv à CNN ou afins, apenas, como no jornalismo gráfico, queremos convencer-vos que estamos no limiar de novos modelos de media, com vantagens sobre estes:

This bet has obvious potential downsides. Publishers no longer control their own means of publication.

Hold that thought sobre o controlo das publicações.

Antes, a recordar que o advento de novos media trás consigo um lado mais obscuro, um que apenas é exacerbado quando aqueles que deviam contrabalançar o discurso se calam. Pior que uma web corporativista, é a web nazi — e se o perigo está na opção entre corporações ou nazis, caminha para as corporações de nazis.


Dark web tha wrong way

4chan.org has emerged as one of the most impactful generators of online culture.

Over the past few years, the web has evolved from providing the means to communicate and exchange information, to playing a key role in several aspects of our society. For instance, today, we use the Internet for entrainment, work, politics, social interactions, finding romantic relationships, and so on. Moreover, it is also a source for new culture—whether this is considered good or bad.

Among the most worrying threats, harassment and hate speech have become increasingly prevalent. The web’s global communication capabilities, as well as a number of platforms built on top of them, often enable previously isolated, and possibly ostracized, members of fringe political groups and ideologies to gather, converse, organize, execute, and spread their culture of hate.

in "A Longitudinal Measurement Study of 4chan’s Politically Incorrect Forum and its Effect on the Web” outubro 2016

A visibilidade do hate speech online deve-se à militância do nazi impelido à acção incessante que na web encontra um canal de comunicação abrangente. E, como sabemos do sapo verde desapropriado e outros memes, começam a compreender o humor como ferramenta de arremesso — uma novidade entre grunhos que se orgulham duma intensa seriedade auto imposta por via das suas fantasias de prepotência fascista. Essa evolução não se enquadra na sua tradição de caricaturas grotescas e demonstra uma adaptação/adequação a meios e audiências típicas das novas tecnologias.

Ao contrário de alguns punk que escolhem remover-se de cena por ortodoxia ao dogma, o movimento racista opta por ocupar todo o palco que lhes derem, e fazem-no com sucesso. Já falámos aqui da sua mais recente metamorfose, o “alt-right”, novo termo para um apanhado de "xenophobia, social conservatism, racism, and, generally speaking, hate”; a necessidade de uma nova designação apenas se justifica quando há uma ruptura com o passado.

É relevante que esse humor tome a forma de memes web: imagens isoladas, elementares, combinadas com pequenos textos ainda mais breves, gerando subtextos de interpretação. O sentido destes implica uma bagagem contextual comum que sugere a pertença a um código partilhado sem que se sacrifique a imediaticidade da sua leitura. Finalmente, apesar de só o texto lhe completar o sentido enquanto legenda, a imagem é francamente predominante ao todo.

E a predominância da imagem sobre texto é o que nos importa ao caso. O caso do 4chan:

4chan is an imageboard site, built around a typical bulletin-board model where users can create posts and others can reply in kind. On 4chan, an “original poster” (OP) creates a new thread by making a post, with one single image attached, to a particular board with a particular interest focus. Other users can reply, with or without images, and possibly add references to previous posts, quote text, etc.

By looking at meta data associated with posted images we learned that most content on 4chan is reasonably unique: 70% of the 1M unique images in our dataset were posted only once and 95% were posted less than 5 times. [4chan] ability to find and/or produce original content is likely one of the reasons it is thought to be at the center of hate on the Internet.

As a whole, each of the boards in our dataset produce a surprising amount of “original” content.

A literatura racista não é nova — novidade é a capacidade de olharmos para a humanidade enquanto iguais: ainda nem chegámos lá, só começámos. Mas a massividade de textos extensos resiste à leitura, pelo que não devemos exclusivamente à contagem de parágrafos acumulados uma maior visibilidade dos discursos de ódio. Por outro lado, uma imagem isolada vale mil palavras, e ninguém tem o vagar mental para alinhar mais essa milénia em informação útil. Mas a correlação texto-imagem no rácio certo é santo graal da comunicação na web, e apesar dos memes serem um exemplo extremo de comunicação em esteroides não deixam de ser um caso de sucesso, como se depreende — uhhhh — do seu sucesso ("a meme is only a meme if it is seen many times”).

Mas o meme não é a única solução gráfica que reúne texto e imagem em unidades de comunicação adequadas às novas tecnologias. E o ódio não tem o monopólio da livre expressão: devemos criar quantidades surpreendentes de conteúdos originais no espectro oposto da web.

Controlo das nossas publicações e! conteúdos originais? Hold that thought.


Banda Desenhada

Igualmente não imunes à revolução do digital, —

Griepp drew on his 40 years in the business to identify four previous disruptions: the advent of the direct sales market (comics shops) in the 1970s; the turn to online sales in the 1990s; the rise of bookstore graphic novel sales led by manga in the late 1990s; and the rise of digital comics sales in the last decade.
in "New York Comic Con: 2016 Sales Creep Up, ICv2 Surveys Retail Disruption" 7 outubro 2016

— a banda desenhada é um meio de comunicação por excelência. Não estamos particularmente preocupados com sub-géneros de comics que não vêm ao caso, estamos focados na banda desenhada como meio para um fim que ostentamos sem melindre desde o início desta série de artigos — e sem queremos restringir a criatividade de ninguém descartando as opções pessoais de cada um — é-nos evidente que há formas fáceis e difíceis de o fazer. Ao colocarmos a urgência no fazer, temos que incentivar aquele que te é mais imediato.



Punk rock is an anti-authoritarian movement that is structured around rock music but involves do-it-yourself (DIY) activities, such as creating zines (informal, self-published magazines), and other media that contribute to a non-mainstream means of knowledge production and building mutual aid networks (...) relied on inexpensive recording, distribution, and publication strategies that circumvented mass media outlets.
in "Punk, DIY, and Anarchy in Archaeological Thought and Practice" janeiro 2015

A estética do feio e mal feito tem duas tradições: a impossibilidade técnica de fazer melhor porque os meios de produção eram inacessíveis, e consequentemente o abraçar dessa crueza como marca de autenticidade por oposição ao elitismo dos primeiros.

This is precisely what the old punks thought. (...) In fact, something particular happened to punk and indie as a result of this effect. Rather than simply rejecting standards of taste in the name of greater imagination, its most notorious strands became the very "bad music" it felt others saw it as being. It flaunted its tastelessness; it dramatized the decline of culture, trolling it. It wore its message in its medium, howling, "Well, with things the way they are, we may as well sound like this."

Old punks pensam assim. O feio e mal feito não é mais um determinismo técnico, apenas uma escolha. Não há razões para, online, não competires com um estúdio de hollywood ou uma redação de jornal, em qualidade. Mais, com uma extraordinária vantagem sobre eles: a web adapta-se bem a empreendimentos apontados ao small scale: nichos, sejam locais ou globais. Mas, e esta é também a beleza das novas tecnologias, é uma escolha: podes ir nessa direcção, ou podes acolher a estética dos velhos punks — se os memes provaram já alguma coisa, é que o entry-level funcional à comunicação web é por demais acessível.

Saber desenhar, não é um requerimento.

I was bored with most of the comics I had a chance to read at that time and then I said to myself, “If professionals create so much predictable and boring stuff maybe we should give a chance in fresh forces embodied in absolute beginners, amateurs, and other outsiders which didn’t have skills but also weren’t brainwashed with training!”
in "The Only Sensible Response" 7 outubro 2016

Desconfiamos mesmo que não há mais requerimento algum que se prove incontornável, o único handicap para o qual alertamos é mesmo a falta de humor: tens que o ter. O humor como arma tem muito que se lhe diga e fica para outra instalação.