OS POSITIVOS

princesa irresponsável

Caso em maus exemplos pelos filhos dos outros na propriedade alheia: "Jovens de férias vandalizam ruas, casas e carros em Vila Nova de Milfontes" 23 jul 2021.

Mil Fontes, princesa do alentejo

Diz a notícia que a desgraça se abate sobre a pequena vila todos os julhos de há 15 anos para cá, despertando-nos aquela curiosidade analítica por tudo o que passa entre rachas nas falhas da segurança pública.(*) Parece que putos reguilas são um blind spot no aparato policial – anotado, talvez devêssemos começar um zine do contra para chegar a esse público?, tlz umas bds pelo meio...? Mas é a reação da minha mais velha às imagens da GNR em cena que mais intriga: reprova-os instintivamente como fim de festa, totalmente alheia aos clamores das gentes locais, alinhando-se de imediato com os miúdos que toda a peça nos pede para condenar. O seu interesse não é clínico-cínico como o meu, recolhido às sombras do cálculo do barril de pólvora social-humano e que pavio queimar. Ela reflete-se –pun intended!– entre a turba.

O nosso mais novo nem levanta os olhos, absorto no seu próprio mundo de fantasia, ainda tão real como qualquer outro que os ecrãs lhes tragam. Oposto de crédulo, são tudo histórias, media inclusive. A idade dar-lhe-á a razão um dia. A minha mais-que-tudo escorrega um "palermas", mais lamento da energia desaproveitada em piços de parede que podia seguir a outros usos do que um julgamento convicto dos picos de palermice daquela massa púbere – recordo-lhe o que ela andava a fazer nessa mesma vila uns outros 15 anos antes? Não, acabo-lhe o copo e esvaziamos a garrafa de vinho, seguirá aos seus fins.

Mas a reação da miúda..., fora quaisquer alinhamentos que nos queiram impingir – negamos, educamos os nossos wee-ones para que façam às suas próprias experiências do mundo que os rodeia; como o vegetarianismo e outras militâncias, mantemos em neutro para que trilhem o seu próprio caminho – e! uma multa malparida nessa mesma vila outros tantos anos volvidos, nunca nos ouviu programa além da advertência repetida de todas as autoridades, inclusive dos seus próprios pais: sem razão não há respeito (i).

i) Secundada com outra importante lição de vida: a autoridade dispensa argumentos quando possui o monopólio das forças de repressão.

Esta nem é uma história exclusiva desta vila, nem nova. Conhecemo-la de mil outras fontes, desde as peculiaridades da educação dos teens da Esparta antiga aos queixumes da violência juvenil por todas as eras da humanidade ("rapazes casadoiros incapazes de se controlarem [e os] muitos pecados cometidos nessa idade perigosa e obscura [:] orgulho, busca do prazer sensual, troça das pessoas e das coisas santas, temeridade irreflectida e pudor") (*)in "Uma História da Violência, do Final da Idade Média aos Nossos Dias" 2008: que se rebelem apenas pelas férias parece-nos cumprir "mecanismos tradicionais de violência ritual juvenil" por serviços mínimos.

O seu desdém pela propriedade alheia e alhear das ruínas de noites de paródia não são fruto de nenhuma doutrinação ideológica que ameace revolução, antes um desejo de liberdade em choque com os limites da sua idade e a infinidade de proibições que os desespera. Será tão estranho que demonstrem um desapego quase cruel na destruição do património dos outros? Não lhes admitimos agência própria, arrumados em escolas todo o dia contra vontade, empurrados de sala em sala, tarefa em tarefa, nenhuma com sentido, encaixotados no horário dos crescidos, justamente quando despertam para a realidade dum universo inteiro por descobrir e ganham manias de autonomia; tudo parece fácil, tudo é novo, e tudo lhes é proibido. Paradoxos pós-capitalistas, a abundância & incentivo ao consumo tornam as interdições que os apartam do realizar desses desejos ainda mais penosas. São temporários com o tempo contado, documentação cassada, a viver do leasing de terceiros obrigados num futuro incerto a custear admissão numa sociedade que os precede. Até lá este não é o seu mundo, ainda não foram cooptados e assim o sentem: sujeitam-se contra vontade num jogo cujas regras lhes foram impostas e todas injustas.

Não é a aparente impunidade do seu vandalismo que mais revolta os crescidos, mas a sua irresponsabilidade, admitida por todos, e por uns dias aproveitada pelos próprios. Não os estranhem, os putos começam alright. Falta-lhes fazer o caminho, e a desadequação não é sem as suas fricções. Por fim, serão quebrados. Talvez alguns se escapem.

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