OS POSITIVOS

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Tentámos. Uma pesquisa pelo "de melhor e mais interessante publicado online no último ano" em outras cenas redonda em nada ou devolve-nos às nossas próprias páginas. Seja então. Vrum vruuum.


tales of modern classic

Como prometido, um best-of dos últimos anos. Investidos em revisões e recomendações fora exemplos próprios — as nossas babes já não se fazem —, a maior surpresa de tempos recentes foi-nos a Royal Enfield Interceptor 650 e a sua irmã Continental GT 650 apresentadas em 2018 e rollin’ strong. A RE é considerada a mais antiga fabricante de motos em produção contínua (houve soluços...), e embora possam-lhe recuar origens mais distantes aos 1890 ela é formalmente fundada cinco anos depois do primeiro Yellow Kid do Outcault, um ano depois do Little Nemo do Winsor McCay fazer a sua primeira aparição nos jornais de Hearst. Será já na metade de cima do último século que a história toca à cultura que vos importa. Segue-se copy do marketing, a cruzar leituras com um Dick Hebdige por exemplo para maior amplitudes:

the cultural phenomenon that refuses to fade away

England, 1960s. Young men and women flock around cafes on their stripped down motorcycles, creating a culture high on style. The #ContinentalGT is a nod to that time. The machine with a story takes one back to the time when motorcycling was all about making a statement.
in "Continental GT: welcome back ,rock 'n'roll" 2021

Declarações então. Badamerda ao marketing e da conversa da herança da marca e modelos: quando começámos nisto diziam-nos "naked", passaram a "street", agora chamam-lhe corredores-do-café, mas os nossos gostos não mudaram e a designação raia o depreciativo,

[The term café racer was used to describe] someone who owned a racy machine but merely parked it near his table at the local outdoor cafe.
in "Café racer" wikipedia

— bastardização de origens mais interessantes (não é sempre?), sempre no cruzamento de culturas definidas pela negação — e o cinismo é todo nosso:

By the early 1960s the café racer's significance was that a bike had come to represent speed, status and rebellion, rather than mere inability to afford a car.
in "Café racer" wikipedia

A ser óbvios, acelerámos às metáforas. Conhecem-nos, gostamos das nossas motos como gostamos de outras cenas: cheap e produzidas em massa, práticas e consequentes, com atitude, sem receios de ser um bocado diferente das demais, e sempre como meio para um fim. E como essas outras cenas que nos escapam memória mas cremos já ter postado umas milhares de linhas nos últimos 20 anos, é por alturas dos 60s e 70s que lhe apontamos o rasgo ao meio — pun! — que as tornam interessantes, ao caso culminando nas superbikes dos 70s revisitadas em força com a craze de modern classics, neo-retros, yadda, recuperadas ao novo século. Recuperadas, mas nem por isso muito melhoradas em binário e potência, ie. Ligeiramente abaixo dos 50cv nuns esforçados 7,250rpm e um torque máximo de 53Nm a 5250rpm acessíveis a partir das 2500 rotações, são especificações que não irão mover montanhas nem lhe fazem justiça à condução confiável na cidade, campo e tudo no meio. Não é uma máquina de high performance e não precisamos que seja. Detestamos os spandex no extremo do espectro e o seu crowd de fanboys, vestidos a rigor para irem a lado nenhum depressa no circuito do fim-de-semana, cosplay da ponta das botas ao capacete, luvas, equipamentos de proteção, quase tão caros como o guito (*) Conhecem-nos também a nossa aversão a todas as coisas $$$? 'tão vão ver o preço da Interceptor. que torram em qualquer novidade que o mercado cuspa para quitar a máquina numa oficina especializada autorizada para uma performance de milésimos de segundos imaginados e outras fantasias de poder & potência. Não nos ajuda à empatia que todo o imaginário desta tribo dependa de gaijas em roupas mínimas e curvas exageradas em pose erótica sobre a maquinaria. Infelizmente, quem pensa "moto" pensa estes clichês e torna-se necessário repetir incessantemente aos gentios "as motos não são só para crianças" ou algo assim. Outro público, estas Royal prometem um smooth throttle instantâneo, previsível, sem necessidade de correr mudanças como um maníaco (seis, uma primeira na sua longa história, dizem), o engine break é competente qb com o seu parallel twin descomplicado refrigerado a ar/óleo de 648cc. Encontrámos reclamações nos intervalos entre serviços, mas também quem defenda que a RE apostou no facilitar da manutenção própria, publicando ajudas online, manuais, vídeos, até no design / engenharia da peças. Nesse ponto uma prenda ao gang a quem se destina, o grupinho mais DIY que também encarna o estereótipo clássico motard no extremo oposto aos atrás, e com quem também não vamos a passeio apesar de parecenças: os artsy cruisers. Old school, barba ZZ Top, colete cabedal sobre tronco nu, barriga redonda de cerveja, rudes, tímidos, franzinos sobre o seu cavalete, mil canetas e parafernália de desenho, música pop de bandas que não vamos querer saber ao fundo, opinados politicamente correctos, normalmente formados em humanidades ou qualquer outra ciência sem utilidade real, muito mais afincos ao very hand made e à mecânica do que nós, mas tão vítimas do status quo como os anteriores quando professam uma intransigência cega por puro dogma e snobismo militante contra as tecnologias e tempos modernos. Felizmente, obrigados a adaptar-se. Infelizmente, o fartsy persiste: adotam a moto como modo de vida tornado adereço que curto-circuita loops a ponto de dispensarem a própria moto ao viverem o lifestyle esquecidos da sua razão de ser. OS POSITIVOS: não é a moto, é onde vão nela. E o conforto é o que se espera nesta gama, os materiais não serão luxuosos (travões ByBre, marca genérica da Brembo, literalmente "By Brembo"), descarnada de qualquer mariquice ou eletrónica além do ABS (contamos essa simplicidade à coluna dos plus), todas opções destinadas a manter os modelos baratos e a sua condução divertida a condutores de qualquer experiência.

O depósito (13,7l) não vos levará longe, mas ficam com vontade do fazer; os amortecedores castigam, mas o uso recompensa. As gémeas não são extraordinárias por qualquer padrão mas fazem o que se propõem. Barebones quase minimalista, funcional mas podia ser melhor, se estivéssemos à procura tínhamos achado — double pun. Mas não estamos, felizes com as nossas.

mah own twins 'r none alike

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