OS POSITIVOS

«fulano x tem muito dinheiro»

Casal de velhotes plus one. Aparentam-se confortáveis na vida, talvez demais porque se estendem pela minha mesa, empoderados de imunidades adquiridas de que este vosso escriba ainda espera segundo chuto. Reflexo pavloviano de comportamentos anti-sociais aperfeiçoado a uma arte — é da época —, damos a nossa estadia por concluída, demorando-nos apenas o suficiente no arrumar da tralha para o jogo de bingo mental que fazemos dos sopros das suas conversas.

Enchemos cartão em poucos instantes.

Obviamente o país vai de mal a pior, carregam nos ingleses que vêm fazer o que querem, mas é no desprezo que reservam ao governo que se revelam. O desdém ao curvar de espinha para agradar a quem é de fora é um daqueles tiques que disparam alertas, abominar tudo-o-que-é António o verdadeiro bolo que lhes enche a boca. Os estrangeiros vêm à nossa terra e trazem as suas doenças, mas o criminoso maior é o Costa que os deixa, que não se impõe (*) Adiante vilipendiado como ditador tenaz que suprime todas as liberdades., que os ingleses construiram um Império à volta do mundo porque souberam sempre levar a sua adiante — a admiração do poder pela força quase dá coro. E o covid da India que é o pior, e eles têm as portas abertas a esses, e os portugueses que também tiveram “pé em Goa” e num ápice os ingleses já nem são tão maus como outros afinal bem piores, e no outro dia estavam a ouvir no Observador não-sei-o-quê.

Não sabemos o que ouviram, mas picávamos número atrás de número quando chegámos ao prémio maior, um que liga a conversa anterior: o “fulano X tem muito dinheiro”. É a mudança de tom que os trai.

Disclaimer: em teoria, admitimos a possibilidade de riqueza sem recurso ao crime. Já se moralmente intocável (**), há reverso de ónus de prova e só devemos admitir inocências depois de entrevistar todos os "seus" "colaboradores" de longa duração. Dizemos longa porque, se é uma riqueza à base de temporários, precisamos júri?

**) Disclaimer 2 com a respectiva taxa de câmbio: OS POSITIVOS, culturalmente repreensíveis.

Ao contrário do rol de queixumes anteriores, ao fulano reserva-se admiração. Aqui encontram alguém que reverenciam como um seu melhor, aparentemente única-e-exclusivamente porque “tem muito dinheiro” — e que respeitinho que esse vale, senhores! Nunca se terá rebaixado a ninguém, certamente possui um vasto império de bolso conseguido à lei da força maior, saltará de país em país com o à-vontade de quem não se sujeita a repreensões pelo horizonte, se faz negócios com o Costa não será seu cúmplice porque se esquivará com inteligência e determinação a todas as artimanhas do socialismo parasitário opressivo — ie, responsabilidades sociais aka impostos.

Já sem vagares vagamos o espaço, vazio às ilusões em artimanhas & parasitas. A conversa segue, agora na eterna partida de xadrez, igualmente fácil de prever no preto e branco das peças. O velhote que entrara em cena ao telefone, intentando a impingir algo a alguém não muito receptivo que lhe exigiu insistência e pedinchice quase vexatória, termina a chamada esclarecendo a presente companhia que falava com um jornalista “muito bom”, que escreve umas "boas crónicas" que “valem o seu peso” [estranha expressão para textos, se desprovida de ironia] sobretudo “em temas do ambiente”.

Nesses temas conhecem-nos outros impulsos anti-sociais adquiridos de outras eras: vamos a jogo, só não jogamos nesse tabuleiro.


Mesa ao lado dois teenagers acabados de desmamar discutiam os seus planos de verão, obviamente lá fora, e pela conversa metade da turma já estava a caminho ou marcava encontro. Not a care in tha world--- OS POSITIVOS: pedagogia aplicada.

(a totally random photo)

por hipótese