OS POSITIVOS

à margem

Conhecedores da tradição dos comics, uma que escolhem ignorar na sua componente comercial ou industrial, igualmente conhecedores das práticas das belas artes e devotados à sua experimentação pelo exercício puro da execução ou sentido, e aliados de um estágio tecnológico que lhes permite materializar o objecto como visionado, a relatividade do $$$ alcança entre os art comics graus de similitude aos conseguidos entre os zines punx.

Os art comics, por todas as razões erradas pretendem o que OS POSITIVOS em algumas das suas encarnações também desejam: manter o circuito reduzido.

Outras similitudes nos ligam, uma confusão que por vezes nos obriga a vir a terreiro declarar que não nos devem comparar em intenções. Como nos P+, os fanzines são canal de distribuição privilegiado – quando não razão de ser em si mesma -, e com esses surge a liberdade de criação descomprometida com os seus pares, o passado, algum presente, e um piscar de olhos ao futuro.

Mas a liberdade total da auto-publicação não se esquiva à criação de um mercado. Se a comercialização das obras não é o seu objectivo declarado, subsiste à sua prática uma rede de valorização e troca comercial que abordaremos adiante: algo ainda separa o experimentalismo artsy dos vândalos em missão.

O corte com a tradição comercial e popular da banda desenhada surge do lado desta minoria mais à margem dos comics do que da arte, que em momento algum podemos simplesmente equiparar a uma negação de um mercado: os art comics respeitam a praxis dos mercados artísticos.

Se arriscam serem mais experimentais, fazem-no à custa de um público mais alargado movendo-se no sentido inverso à apetência das massas. A sobreposição é evidente: ao privilegiar o raro ou limitado, disponível apenas num poucos locais especializados, a edição de autor de livros trabalhados enquanto peças circunscreve-os à lógica comercial das galerias e outros circuitos do mundo da arte: os art comics dispensam (demasiados) leitores, os (demais) leitores dispensam-nos por igual.

Esta é uma novidade à tradição da banda desenhada em todas as suas incarnações paralelas. Da sua origem e fases pioneiras de descoberta, épocas de ouro, e mesmo –ou sobretudo- no seu contrário por alturas do underground e alternativos posteriores, a banda desenhada sempre almejou implicitamente o máximo de leitores que pudesse aliciar, ou, pelo menos, nunca pretendeu explicitamente limitar o seu acesso.

Por enquanto notamos que a banda desenhada consegue neste ponto uma transmutação a ser considerada no estudo da cultura popular: de mercadoria cultural à sua negação – mercadoria, e cultura de massas- na frente comercial os art comics conseguem pertencer a quatro mundos: bd, arte, à negação do mercado e ao mais selecto dos mercados.

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