OS POSITIVOS

but is it art?

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Insuspeitos por que lado batalhamos na relação da banda desenhada à arte: contra ela.

A bd e arte contemporânea partilham de inquietações similares, autores na primeira aproximam-se de preocupações conceptuais dos segundos, estes informam-se das tradições dos anteriores. De um estado da arte permanentemente aterrado em contemporaneidades e avant-garde  – competente como manda a regra nas dúvidas que se perpetuam sem resposta cabal –, a desconfiança persiste e a diferença que os separa o que valorizamos nos comics. Se a banda desenhada acumula capital cultural suficiente para requerer uma legitimidade maior entre as restantes artes, importa-nos que a) não se importe muito com isso b) o mereça porque os usos que dessa se faz e com ela o façam aconteça por açambarcação de baixo para cima, não rarefação de cima para baixo. A cultura popular possui uma longa tradição, particularmente importante em princípios de identidade, uma que também resulta da partilha de referências e códigos estéticos além dos costumes e práticas. Perdoem-nos a insolência, mas é a reivindicação de uma autonomia própria à bd que propomos. O seu reconhecimento artístico tem pressuposto a dissolução dos comics em tradições e estilos que devem mais à história da arte que às práticas próprias ao meio, e quando estas chocam com a apetência à desconstrução de convenções e mecânicas na bd  – ou à bajulação de académicos e críticos que lhe omitem a sua própria tradição no seio da cultura popular e produto de uma indústria de massas  –, optamos por negar subserviência à pretensão feita. Não fazemos posição pelo purismo da banda desenhada, inexistente, nem nos confundam em fanboyismo  – podemos atirar pedras a esses também  –, mas tratemos por agora do artista wannabe: a banda desenhada não pode ser dissociada da cultura que a origina e sustenta, comprometida com uma indústria de comunicação e entretenimento e respectivo aparato tecnológico que a assenta. A arte da banda desenhada consiste em navegar estas águas: qualquer exercício que atente destilar as suas partes e artificialmente eleger uma sobre as demais ignora a sua essência. Queremos – queremos?  – a sacralização dos comics pelas suas mundanidades, não pela sua assunção no reforço de hierarquias culturais prevalecentes e a pouco subtil sugestão da sua ilegitimidade a tais espaços quando apenas aqueles que renegarem o meio podem aceder ao panteão – a inclusão da bd entre as artes-de-à-grande deve ocorrer pela reformulação dessas, nunca pela conciliação a condições prévias. A sua vulgaridade é-lhes parte integrante, e utilizamos o termo ocupados com a sua produção, disponibilidade e acessibilidade, desprovido de conotações a jusante à leitura. É igualmente o seu principal impedimento enquanto arte legítima: esta valoriza sobretudo a unicidade da obra. Preferencialmente, produzida em moldes opostos à lógica industrial, cuja importância aumenta com a indisponibilidade da obra e a sua inacessibilidade aos demais. Qualquer esforço pelo reconhecimento do valor artístico da banda desenhada parece exigir a negação da sua origem popular ou, pelo contrário, do abaixamento da alta cultura à esfera do entretenimento e diversão – um debate que não nos ocupará nestas páginas. Já os art comics poupam-se ao latim: na produção, disponibilidade e acessibilidade propõem-se acatar cânones homologados pela academia.

Também esta, para obras.

A aproximação entre banda desenhada e práticas artsy ocorre com a intermitência que se adivinha num período de incerteza e timidez à valorização dos comics por instituições culturais. Esporádica e excecional, justificada com um discurso de comparação às demais artes com um decalque de linguajar que se compreende pela estranheza do exercício e insuficiência de argumentos próprios, sente-se o desconforto da legitimidade ao meio. Enquanto prática texto-gráfica, a banda desenhada continua a ser uma subtração das suas partes. Aos críticos e académicos que pintam os comics a novas cores e lhes desenham outras linhas de percepção devemos a legitimidade almejada, e como espécime recorrente nOS POSITIVOS devemos-lhe igualmente duas notas de apreciação. Academia: apontamos-lhe a mesma ambivalência na relação aos cómicos e suas formas. Estes não procuraram encurtar distância aos primeiros, terão sido os académicos a aproximar-se da bd pela carência de novas fontes, artefactos e tópicos a totalizar ao corpo de literatura necessária na submissão a seus pares por exigência do grau, paupérrima de originalidades entre uma comunidade cada vez mais populosa, mas desabitada. Igual sinal dos tempos, a velha distinção de alta e baixa cultura prossegue a sua erosão, hierarquias desmoronam-se, quadradinhos tornam-se referências culturais e artísticas de extrema gravidade: criada a necessidade surge o mercado, a banda desenhada inflete natureza e função, a pouca distância de ambas as perturbações tropeçamos no crítico. A crítica não é estranha aos comics: este é um meio emocional capaz de arrebatar dos seus leitores as reações mais sentidas, ciosos por vocalizar as mais ínfimas particularidades da ofensa e exaltação imaginada – como, por exemplo, todo um zine só para chatear. Mas esta não é crítica indiferente ao corpo teórico das restantes artes, tal qual a academia, a banda desenhada lhe não buscou validação, acedeu à dança pelo convite estendido. A invasão da nova crítica que decompõe a bd dotada de ferramentas emprestadas a domínios aproximados exige-lhe uma concordância a tradições históricas que não são as suas, com os próprios críticos ainda por adquirir as competências necessárias à sua razão de ser.

Regressemos um breve momento ao debate a que nos escusamos fora da intersecção à bd: será a arte, Arte? Ela própria objecto de um constante revisionismo ditado pela percepção social de cada época, costumes e valores, a sua mutabilidade é garante da renovação necessária aos gostos, capaz de, em extremo, reconhecer os comics entre os seus pares se revoluções suficientes demolirem atitudes. Podemos até supor que não seria necessário à banda desenhada trair as suas origens ou abdicar da sua essência para ingressar nas boas graças das elites culturais, bastar-lhe-ia uma renovação dos seus quadros – o exacto motivo que inicia a mudança da percepção da bd entre adultos e, hélas, um processo que sabemos coagi-la numa reciprocidade que a arrisca descaracterizar. A alta cultura prossegue o seu calvário de decadência, a academia renova tendências, novos artistas produzem obras decadentes à luz das novas tendências. Podemos então equiparar banda desenhada e Arte quando já nenhuma o é fora dessa relação e compreender a presença da primeira em espaços institucionalmente comprometidos com a segunda: galerias, museus, exposições e eventos que se esquivam ao fandom habitual sem cosplay à vista. Podemos igualmente compreender porque autores contemporâneos descomprometidos com a tradição histórica das histórias aos quadradinhos desta se servem com o mesmo à-vontade que no passado os predispunha à pintura ou escultura, fotografia ou vídeo, eventualmente o digital, os videojogos, afins. À estranha metamorfose conseguida nos art-comics – não exactamente comics, não exactamente arte – não atribuímos mera capitulação à hegemonia de uma alta cultura em processo de apropriação de artefacto alheio, ainda aqui o mérito deve ser pendurado pelo lado da banda desenhada. Uma arte rasteira munida de um arsenal mais eficiente, qual horda de bárbaros com os olhos postos em novas glórias, invade instituições que se dão a ares de respeitabilidade, mas incapazes de deflectir o assalto. Como tal, abrem-lhes os portões a contragosto.

E por eles passam dois tipos de vândalos diferentes.

Conhecedores da tradição dos comics, uma que escolhem ignorar na sua componente comercial ou industrial, igualmente doutos das práticas das belas artes e devotados à sua experimentação pelo exercício puro da execução ou sentido, e munidos da tech que lhes permite materializar o objecto visionado, a relatividade ao $$$ alcançado entre os art comics possui graus de similitude aos conseguidos entre punx. Por todas as razões erradas, pretendem o mesmo que OS POSITIVOS em algumas das suas encar(de)nações também desejam: manter o circuito próximo, mas por isso, fechado. Outras similitudes nos ligam, uma confusão que por vezes nos obriga a vir a terreiro declarar que as comparações devem ser cuidadas. Como nos P+, os fanzines são canal de distribuição privilegiado quando não razão de ser em si mesma, e com esses surge a liberdade de criação descomprometida com as suas gentes, o passado, algum presente, e um piscar de olhos ao futuro. Mas a liberdade da auto-publicação não se esquiva à criação de um mercado especializado: mesmo onde a comercialização das obras não é o seu objectivo declarado, subsiste à sua prática uma rede de valor acrescentado pela troca comercial, algo que separa o experimentalismo artsy dos hooligans em missão. O corte com a tradição comercial e popular da banda desenhada surge do lado desta minoria mais à margem dos comics do que da arte, e em momento algum devemos equiparar esse à negação do comércio: os artistas respeitam, valorizam, promovem a praxis dos mercados. Se arriscam serem mais experimentais, fazem-no à custa de um público mais alargado movendo-se no sentido inverso à apetência das massas – os art comics dispensam (demasiados) leitores, os (demais) leitores dispensam-nos igual – mas a sobreposição é evidente: ao privilegiar o raro ou limitado, disponível apenas nuns poucos locais especializados, a edição de autor de livros trabalhados à peça circunscreve-os na lógica comercial das galerias e outros circuitos do mundo da arte. Esta é uma novidade ao percurso da banda desenhada em todas as suas incarnações paralelas. Da sua origem e fases pioneiras de descoberta, épocas de ouro, e mesmo – ou sobretudo – no seu contrário por alturas do underground e alternativos posteriores, a bd sempre almejou implicitamente o máximo de leitores que pudesse aliciar, ou, pelo menos, nunca pretendeu explicitamente impedir-lhes o acesso. Atingem neste ponto uma transmutação a merecer nota no estudo da cultura popular: de mercadoria à sua negação, os art comics têm pé em quatro mundos, bd, arte, negação do mercado e o mais selecto destes. Versus um passado de fundações firmemente assentes num intuito mercantil, na mais ampla das audiências possíveis e indissociável das inovações tecnológicas que o permitem, os novos artistas conseguem-lhes destas últimas um uso que lhes permite alcançar o mais estrito dos públicos capazes em alcance e entendimento (fun intented). Podemos acusar ao sucesso dos graphic novels a oportunidade de colocar bonecos frente a adultos que de outra forma teriam ficado pela desconstrução da fotografia ou outros vídeo-ais. Até certo ponto uma derrota moral da banda desenhada perante os gostos culturais de uma elite: a necessidade de embrulhar pulp descartável entre capas duras. Razão evidente, a respeitabilidade fomenta todo um mercado de mais-valias. Artistas, editores e distribuidores todos ganham com o valor acrescentado à obra, académicos e críticos idem. Se a leitura final ganha ou perde nesse processo, depende mesmo da sujeição que os anteriores consignam à autenticidade da peça no seu final, tendo esta saltados por todos os hoops exigidos em status. Menos evidente, o esforço do autor individual que utiliza o meio como forma de expressão, uma distinção difícil de conseguir. Arte e art comics aparentam-se, art comics e punks também, confundem-se, partilham-se maneirismos mas fazem-no com cálculo – ainda que só alguns estejam a fazer as contas. Impossível de não assinalar que em torno destas comunidades arsty existe sempre um mercado editorial profissionalizado, com coleções, editores, critérios de selecção, eventos, exposições… Os excessos de abundância editorial que os anteriores critérios visam cercar apenas se tornam excessivos onde alguém algures os pretende mercantilizar: o punk e o artista são ambos críticos à sua maneira, mas quando tentam capitalizar essa crítica uma linha é ultrapassada.

O avant-garde quer-se rebelde, sabemos, mas i) não sabemos se necessariamente como revolta social, talvez mais perto de ii) uma rebelião que vise apenas renovar as próprias artes – ie, arsty fartsy  –, e cujo impacto teremos de questionar quando iii) atestam confortavelmente as próprias instituições que visavam criticar. Assimilados por causa perdida ou ganho a dita e esvaziados de razão, iv) importam-nos implicações no estender à cultura de massas, e dentro dessa, v) especificamente onde se cruza aos meios que a massificam. Obviamente a menos óbvia das interjeições a ouvir entre polémicas “artesianas”, mas como sugere a sua etimologia, arte, artistas e seus artefactos não se exaustam em teorias conceptuais e exigem ainda a sua consubstanciação por artifício dos seus artesãos. Da nossa parte, porque demasiadas vezes é esquecido ao debate, recordamos a importância da sua relação à tecnologia. Compreendam-nos, fala-vos o anarcho-primitivista. Numa sociedade inteiramente pastoral não nos apanhavam a rabiscar doodles. Ignoremos o óbvio – os comics como os conhecemos hoje não teriam progredido numa realidade estranha à comunicação de massas – e consideremos o provável: mesmo de regresso à pastorícia num planeta pós-apocalíptico e dotados do conhecimento prévio da possibilidade de desenhos-em-sequência, estes seriam um péssimo empreendimento que a ruína do esforço renderia inútil, abandonado logo na própria geração ainda recordada dos Patinhas que liam em puto antes do Trumpas puxar do botão. Todos aqueles que hoje divagam em desenhos (des)alinhados regressavam à pintura ou à literatura, exercícios solitários mais favoráveis à introspeção removida a pressuposição por terceiros. E, claro, aqueles que hoje desenham por $$$ seriam os primeiros a mandar a bonecada pastar – desses estamos conversados. Circa séc. XXI , webs-et-dígitos e canais de distribuição audiovisuais e textuais que rodam várias vezes o mundo num só dia, a banda desenhada é parte integrante de um arsenal contra-a-cultura. Podemos – devemos! – questionar que formas tomam os gibis, manga, funnies, fumetti enquanto meio de expressão e comunicação numa sociedade pós-industrial. Uma maior qualidade e consciência das artes circundantes contribui para uma maior inovação estética e narrativa, mas igualmente relevante, uma maior inovação tecnológica contribui para uma maior oferta das anteriores. A importância que atribuímos à tecnologia nesse processo é fundamental: da sua génese e contínua evolução, em todos os seus estágios a banda desenhada associa-se aos progressos técnicos que a assentam no cruzamento à indústria de massas, e mesmo se agora as negam só o podem pelo novo patamar de evolução tech alcançado, com particular menção honrosa às tecnologias de acesso online. Ao engrandecimento abismal de art comics e autores/artistas não será estranho duplo papel da Internet na propagação de ideias, i) capaz de criar uma comunidade autorreferenciada que favoreça a troca de experiências e consolide novos preceitos, e ii) fonte de inspiração à miscigenação de meios e referências no qual o digital é supremo e através da qual se alimenta a nova contemporaneidade dos comics. Não vos conseguimos melhor ilustração da relação que a leitura cáustica que vos convidamos a fazer a propósito dos primórdios deste meio, com o bónus de igual incursão aos media, imprensa, jornalismo, tecnologia, e as massas populares que tanto nos apraz, no sítio de sempre. A bd começara a ganhar a sua popularidade na viragem do século XIX quando surge nos suplementos de jornais norte-americanos, cuja impressão litográfica de baixa qualidade favoreceu um estilo gráfico dominado por contornos pretos bem definidos e áreas sólidas de cor. Originalmente, Joseph Pulitzer pretendia publicar uma secção de “arte” onde reproduziria pinturas famosas, mas o processo de impressão não o permitiu e assim optou por uma seção de tiras humoristas. Imaginemos o estado da arte em Arte se a imprensa tivesse conseguido levar às massas iletradas das suas metrópoles o melhor de Kandinsky, Picasso, Matisse, Duchamp, em vez de cartoons. Nessa fantasia, onde re-imaginar a banda desenhada tivesse esta nascido em tal companhia ou de outra casa que não a imprensa amarela?

Impressão e distribuição prosseguem o seu desenvolvimento no sentido de uma maior democratização de acesso e uso, novos estilos e formatos são condicionados por via destes, seja na adequação ou reacção aos mesmos. Gradualmente novas tecnologias analógicas e digitais viabilizam tiragens reduzidas de qualidade contra a lógica de mercado precedente, liberto desses constrangimentos de volume e estilo os autores regenerados artistas improvisam uma nova linguagem apenas possível pelo duplo despreendimento ao circuito comercial e limitações à destreza gráfica. Infelizmente, alguma timidez ainda atrapalha a adoção plena do digital, e aqueles que o abraçam em nome da bd pouco se importam com essa.

A principal novidade do artista (pun intended) advém da sua erudição em história da arte: podemos reconhecer nas suas obras as influências das mais diversas tradições artísticas, encostando para canto qualquer preocupação com a sua acessibilidade ao público em geral. Perder-se a dimensão de banda desenhada como entretenimento de massas: ao invés do apurar de fórmulas consagradas a uma maior imediatez e reconhecimento, os seus criadores pretendem explorar novas soluções e expandir as capacidades do meio enquanto expressão. Estilos e convenções do passado tornam-se mecanismos estéticos a desconstruir, a clareza da leitura conseguida por anos de apuramento são devolvidos ao abstracto de fases pioneiras dos comics quando estes não estavam ainda demasiado comprometidos com o peso das suas convenções. In short, os novos autores não são verdadeiros fans de banda desenhada. Fora casos isolados que parecem existir justamente para demonstrar o seu carácter exceptional à regra, os art comics são produto de uma geração que não cresceu a ler o Asterix ou a tentar emular os seus heróis de infância, o seu contacto com os comics ocorre já no âmbito das suas sensibilidades estéticas enquanto material visual passível de possibilidades plásticas por desenvolver. Sem lealdades ou reverência a obras passadas, sem uma consciência descomedidamente apurada à evolução da banda desenhada como apenas o fandom dedicado detém sobre autores, estilos, influências, editoras, cronologias narrativas e universos paralelos alternativos, sem o conhecimento enciclopédico das tradições cómicas antes reservadas a estudiosos amadores do formato – querem reler sff? –, encontram-se soltos de restrições para explorar o meio de forma aleatória, retirando da sua história apenas o subserviente ao próprio empreendimento em mãos, uma ferramenta entre possíveis de uma multiplicidade de expressões estéticas.

Continuemos debate da historieta & vanguardas para rippar admissão. Na sua variante adulta os comics são principalmente validados e discutidos enquanto texto , ie, no oposto da sua apreciação puramente estética. Contra os literários novos criadores formados em belas artes – intencionalmente alvoroçando na sua dimensão gráfica e experimentando com a sua estrutura, minus o texto – reposicionam a ênfase na arte. Sem intenções dramaturgas negligenciam a narrativa ou quaisquer outros mecanismos habituais à banda desenhada que lhe permitam uma sugestão de “estória” entendida nos seus moldes clássicos, qualquer sentido meta-literário resultante assemelha-se à contemplação passiva de um quadro, mais próximo da experiência sensorial típica de um museu ou galeria do que à imersão cinematográfica de uma bd. Executam-se propriedades visuais pela apropriação de elementos reconhecíveis do domínio dos comics, a sua prática depende do aproveitamento da dessa linguagem como material base de trabalho, mas não necessariamente como finalidade última. Esta variante artsy explora fronteiras ao meio, limites para lá dos quais devíamos procurar uma nova nomenclatura para descrever o objecto formalmente parecido com os quadradinhos mas a não ser confundido com esses. Abandonada a conformidade narrativa rapidamente se tornam desnecessários personagens e cenários identificáveis enquanto tal e reina o abstracionismo. No seu lugar, “coisas”, se não mesmo “espaços”, tornam-se os verdadeiros protagonistas simbólicos destas não-narrativas não-representativas. Qualquer informação, o sentido mais próximo que poderemos esperar de uma comunicação efetiva, resultará da deduzida ante as sugestões feitas, nenhuma imagem ou sua sequência poderá ocorrer na sujeição que resulta da simples funcionalidade dos seus elementos visuais como suporte de uma narrativa literal. Em nenhum outro aspecto é mais visível a falência do valor literário – e literal – dos art comics que na ausência de personagens reconhecíveis como tal, com atributos físicos que se lhe possa associar uma função, traços psicológicos que lhe possam atribuir uma motivação, entidades vivas que reajam previsivelmente às casualidades que os rodeiam. O traço adquire um novo protagonismo, o texto perde o seu, tempo e espaço alternam funções porque o seu humano, eterna referência, torna-se estranhamente desumano. A narrativa clássica confronta-nos com o espaço, o tempo discorre invisível das acções que neste se sucedem; o pós-narrativo obriga-nos a pesar o tempo pela perceção de objectos, cores, formas, disposições, tamanhos – e a sequencialidade não é um must. Ou a naturalidade: a física de Newton segue the way of the dodo com a poética aristotélica, a relação texto e imagem uma coincidência acidental se sentimentos similares os sobrepõem no momento, rapidamente separados para trajetórias díspares. A estória subsiste retoricamente longe da representação literal: onde duas imagens poderem ser comparadas lado-a-lado, surge uma (diz-que-espécie-de) narrativa.

À nossa significação em autenticidade vemos-mos assim na obrigatoriedade de discutir esta arte com “a” pequeno sem bolinha ante uma Arte dita maior, um debate difícil que nos obriga à desambiguação implicada mais premente: serão os comics dessa arte?

Obrigados então.

De nada.


O rant anterior é um condensado de vários artigos que se dividiram online janeiro 2018 nos "but is it art?" + "art comic" + "Art. Et Comics?" + "Art, not comics." + "Ar-too?" + "Ar-not." + "anti-literários" + "contemporaneidades" + "inovações" + "à margem" + "marginais" + "art$$$y", e deve lido como um comentário opinado de diversas leituras seguindo o "Historieta y vanguardia, un debate" de Horacio Muñoz Fernández e Gerardo Vilches para roteiro de vilanias. Não separámos cites do original como de habitual porque seriam demasiados, demasiado longos, mas seguimos de perto várias partes desse texto: sugerimos leitura.

  • museus
  • $$$

No tópico de apropriação cultural no TCJ:

Out of more than 77,000 works in MoMA's permanent collection, not one of them is by Mike Sekowsky. One hundred forty-six are by Lichtenstein. What is it that Lichtenstein does that's so superior? Let's pretend it isn't about money.

Museums prestige rests, in some part, on a perceived notion that they possess some sort of intelligence that the world at large can access within their halls. If so, why can they only process this kind of imagery when it's really, really big and has a history of being exchanged for lots of money. A well-made image, blown up to gargantuan size, seems to be how the art world can process (if we're being charitable) or use (if we're being fair) cartooning.

Let's make no mistake though: cartooning, artistically speaking, is doing fine without the validation of museums or influential art writers.

in "At the Mountains of Madness" 23 mar 2017

Com mais cites generosos aqui.

amarela depressa e desfaz-se