OS POSITIVOS

priced out of comix

Calor. Espreitamos, semicerrados, entre frestas. O céu é um longo vasto de nada, celestial-infernal. Tudo se dobra ao peso do sol, tudo esmaga, absolutamente. Formas, cores, distâncias serpenteiam difusas. Nada se mexe, ninguém, nenhures, o planeta desistiu. Os cães dos outros desapareceram, e estavam acorrentados. Silêncio. Madeira a rachar de sede, pequenos estalidos metálicos aleatórios, o crepitar rasteiro do que foi vegetação. Se um fósforo chegar ao chão, combustão instantânea. Não é um incêndio, uma explosão, piscar de olhos. Piscamos involuntariamente, demasiada luz. Corremos cortinas, pesadas, devolvem-nos à escuridão do nosso recôndito. Ficaremos por aqui até entardecer. No cair da noite fazem-se incursões aos espólios do dia. Por agora, queixinhas.

Porque não passamos muito idle time na urbe vai para tanto tempo, não acompanhamos lançamentos com especial atenção. Picando o ponto, encontrámos diversos livros que noutras eras teriam feito o habitual "do escaparate à estante" – e alguns até leríamos. Sem surpresa, trouxemos nenhum. Conhecem-nos a distância que nos separa, parece que voltamos aqui a cada feira do livro e já vos aborrecemos nesta vezes sem conta: o formato quer-se descartável e preço à mesma escala de importâncias. Porém, tudo capa dura, tudo luxo, trinta paus o pop parece ser o novo normal. Façamos as contas: uns 150 euros desviados dos quadradinhos e atirados em material & equipamento à terra todos os meses tiram-nos um castigo imensurável das costas, compram-nos anos de vida e ganham-nos resultados substanciais. Frutos literais, senhores. Sobretudo, pesa-nos à comparação que a alfaia agrícola do humilde rural de fds que empobrece alegremente ainda se paga ao preço dos comics de banca circa '80. Cada vez mais, e como bom rural (de "bom" e "humilde" não temos muito, admitimos), viveremos das feiras. Comix, see ya daqui a 20 anos na caixa dos descartados & descontados, diz-que-não.


Extra. Porque somos hipócritas, ignorando diatribe acima passeamos um “A História do Mundo” 2024 de Peter Frankopan (693 pag.) pelo twist prometido: “como as mudanças climáticas moldaram dramaticamente o desenvolvimento e o desaparecimento das civilizações ao longo dos tempos”. Já chegados ao capítulo 5, “Sobre os riscos de se viver acima dos nossos meios (c.2500 – c.2200 a.C.)”, terrivelmente desiludido com os primeiros milhões de anos, milhares de história, mais do mesmo. Ofensa maior reservada aos editores que inovaram cortando o que não nos custa:

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Remetem para o que nunca estará à mão quando o preciso, mais que sempre por curiosidade fugaz. Se pago a porra do livro é porque quero o offline, sempre on, sem humores de bateria, sem luminosidades de ecrã a afinar nos settings, yadda yadda yadda: quero carregar esse peso.

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