OS POSITIVOS

as formas instituídas da política como happenings

Antes, manchete no P: "Maioria diz que democracia é 'preferível', mas 47% apoiariam 'um líder forte' sem eleições" 18 abr 2024. Forçam-nos ao disclaimer já que não temos sido meigos de democracia e eleições e nada nos cerra mais os dentes em desdém que nos acercarem de maiorias: a) queremos mais, não menos democracia, e quanto mais próximos dela, e democrática, melhor; b) dispensamos os lideres. E de minorias, senhores,

Não vivemos nós num tal terreno político que a expressão da dissidência já está inscrita no sistema e portanto é já, de certa forma, programada por ele? Se quisermos provocar uma crise no Estado, não devemos antes forjar modos de protesto que surpreendam o Estado e que não sejam prescritos, legal ou sociologicamente, pelo sistema?
in "Sair da Nossa Impotência Política" 22 abr 2024

...a propósito do papel que cabe ao cidadão desagradado, os "modos de contestação que nos precedem", "aos quais nos remetemos para nos instituirmos enquanto sujeito em luta". Mashup do (excerto ao) livro de Geoffroy de Lagasnerie, filosofo e sociólogo, abreviado ao tempo que vos temos e nossa agenda de endoutrinação.

É preciso operar uma viragem táctica no nosso pensamento político. Essa tarefa pode exigir que se construa um outro imaginário da luta e das nossas formas de nos pormos em movimento. Quando decidimos intervir, não nos devemos remeter às formas tradicionais que muitas vezes nos dão um sentimento puramente fictício do que é agir.

O espaço da contestação é um dos mais codificados da vida social. Existir politicamente resume-se em larga medida em voltar a empregar instrumentos pré-constituídos, de nos apresentarmos como sujeitos-em-luta ao pé dos outros, recorrendo a esse tipo de práticas. Reagimos à conjuntura ou tentamos combater as forças às quais nos opomos recorrendo sistematicamente às mesmas armas, mesmo quando estas demonstraram a sua ineficácia, ao ponto de a política se transformar no cenário da repetição.
in "Sair da Nossa Impotência Política" 22 abr 2024

Chegados às nossas diatribes anteriores a estratégias climáximas e afins que dependem do telejornal para o que se devia conseguir pela calada:

A questão política é a questão da efectividade prática, que deve primar sobre qualquer outra consideração: muitos parecem (...) confundir ser-se um sujeito político com conformar-se a modos de acção que não produzem nada a não ser o sentimento de se inscrever num modo de vida gratificante, do lado daqueles que lutam, e que lutam de maneira justa.
in "Sair da Nossa Impotência Política" 22 abr 2024

Mas, voltando à História:

As forças profundas da política parecem fora de alcance, não temos influência sobre elas. Há várias décadas que, no momento em que nos situamos no terreno do progresso e da emancipação, no campo da radicalidade, perdemos os combates. O que é específico, ou o que está a crescer, é a nossa incapacidade para influenciar o curso das coisas. Quando intervimos, quando protestamos, quando nos manifestamos, tudo isso resulta cada vez menos em transformações efectivas. Se queremos sair da nossa situação de impotência e ansiedade, devemos proceder a um reexame da nossa relação com a política. Por vezes, pergunto-me se não estaremos de tal modo habituados a perder que já não questionamos sequer essa situação. Não é porque não agimos, ou porque não agimos tanto como devíamos, ou por não sermos em número suficiente que perdemos… é ao agir que perdemos. São as nossas maneiras de agir que nos condenam à estagnação e, por conseguinte, à regressão.

Devemos perguntarmo-nos se aquilo a que chamamos os nossos «modos de acção» não se inscreve, na verdade, numa lógica da derrota. Seríamos, hoje, prisioneiros de uma economia política da derrota, o que significaria que os nossos modos de acção são, na verdade, maneiras de fracassar.
in "Sair da Nossa Impotência Política" 22 abr 2024

Conclui-se com "Violência, Sim ou Não?" 1987, Günther Anders:

A contestação contemporânea assume, na maior parte do tempo, duas formas: ora formas alegres, como a manifestação, onde cantamos e sorrimos, ora formas auto-sacrificiais, de que a greve de fome é a modalidade mais extrema e a greve laboral a modalidade mais comum, onde nos fazemos sofrer a nós próprios. Mas, nos dois casos, Anders interroga-se: como é que estas modalidades poderiam fazer vergar os governantes e aqueles que nos ameaçam? Estes métodos, que definem aquilo a que chamamos as «práticas da luta», não lhe parecem susceptíveis de modificar os comportamentos dos dominantes.
in "Sair da Nossa Impotência Política" 22 abr 2024

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