OS POSITIVOS

fumaça de bandido

Que este processo seja ilusoriamente apoiado pelos explorados, nada retira ao facto real que prevalece: o modo de produção não é alterado, apenas a sua forma. Com esta mudança, os assalariados apenas mudam de patrão.
in "A revolução impossível (ponto de interrogação)" 11 abr 2024

Da newsletter do Fumaça, citando-se Phil Mailer nos anos do PREC a propósito das primeiras eleições democráticas em PT e do esforço para "combater as burocracias sindicais", esses inimigos do povo trabalhador, conspiração do patronato com aquele partido centrista que vos vem à cabeça, o PCP. Na mesma newsletter anuncia-se uma conversa com José Tavares, anarquista '74, e "organização popular, o uso da violência em democracia e a luta pelas próprias mãos para construir hoje o mundo que se ambiciona ter amanhã". Uma reportagem que não vamos ouvir porque nos pedem guito por ela. Porém sabemos onde o amanhã vai, e do ontem ao presente não é mistério o sucedido às massas: terão rogado ao bom deus que os livrasse desse inferno, desde então ardem em lume brando, porém mostram-se ainda bons devotos da ortodoxia dominante.

Porém porém, estamos de saída e espreitemos o que se passa para lá dos portões das fábricas, voltemos atenção ao campo. Recuperamos um primeiro excerto do "Bandidos" 2024 (1969) do Eric Hobsbawm, leitura rápida comparado ao seus tomos mais badalados, alguns já revistos entre nós, para espreitar pelas rachas dessa sociedade por épocas idas e discernir tendências.

Contexto: bandido social de comunidades rurais, sem afinidades urbanas óbvias (os rurais partilhariam da concepção tradicional da ordem vigente e não a querem derrubar, só se vêm do lado errado dessa, ora temporariamente ou empurrados contra sua vontade, enquanto os urbanos de inclinações subversivas-imorais não partilham dos valores da sociedade que o envolve — os primeiros pedem que deus os perdoe, os segundos renegam-no). Muito anterior à ascensão dos populismos de espécie nefasta, lançam alguma luz sobre comportamentos recentes nesta europa fora, metafora-wise:

Fazer com que o opressor pague na mesma moeda a humilhação infligida à vítima é impossível, porque o opressor actua num quadro em que a sua riqueza, o seu poder e a sua superioridade social são reconhecidos, quadro este que a vítima não pode utilizar, a menos que tenha havido uma revolução social que tenha destituído os poderosos enquanto classe e elevado os humildes. A vítima dispõe apenas dos seus recursos particulares e, entre eles, a violência e a crueldade são os mais claramente eficazes.
in "Bandidos" 2024(1969)

No seu seguimento, e justificação às nossas despedidas desta semana, moral da História quando essa humilhação (se) vinga:

Mas mesmo quando esses rebeldes triunfam, a vitória traz consigo a tentação de destruir, pois (...) não têm um programa positivo, apenas o programa negativo de se livrarem da superestrutura que impede os homens de viverem bem e de se relacionarem de forma justa, como nos bons velhos tempos. Matar, esfaquear, queimar tudo o que não é necessário e útil (...) significa abolir a corrupção e deixar apenas o que é bom, puro e natural. (...) Uma retaliação selvagem e indiscriminada: sim, mas talvez também, e sobretudo, entre os fracos - as vítimas permanentes que não têm esperança de uma vitória real nem mesmo em sonhos -, uma «revolução de destruição», mais geral, que faz cair o mundo inteiro em ruínas, pois nenhum mundo «bom» parece possível.
in "Bandidos" 2024(1969)

Recordemos sempre os teens da importância de acreditar num mundo melhor, eventualmente. Sejam fortes em convicções e não se toquem demasiado com o exemplo dado, os campos onde plantamos as nossas sementes são o urbano anti-social. Hail Satan.

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