OS POSITIVOS

como aprendi não me preocupar e a amar o dia de reflexão

No que nos respeita, o dia da reflexão não nos diz respeito, é algo que acontece aos outros. Ironia: nós não votamos, eles não reflectem. Mas diante das acusações de anacronismo numa era de redes sociais sempre on, quanto mais esse artefacto dos pós-25 de abril choca com 24 horas de pós-capitalismo e a sua total dissonância aos ritmos do $$$, mais o queremos preservar e valorizamos em crescendo a peculiaridade da lei: tem-nos resquícios dos aspectos positivo-saudosos (à classe média/alta) que ninguém previu da quarentena: contra a evidência que o mundo não podia parar, o mundo parou, e todos (vide atrás quem englobamos nesses “todos”) estivemos melhor por isso. Parámos o relógio, esticámos o tecido do tempo e do espaço, respirámos fora da máquina. Preservemos por isso, senhores, o dia da reflexão, celebremos o token que nos recorda que somos humanos, não estamos impotentes contra as inevitabilidades do complexo industrial-mediático.

contra-evidências