OS POSITIVOS

a-pagar a propaganda

Quando [se anunciou a] marcação da primeira greve geral de jornalistas para 14 de março, os comentários dos leitores não foram de solidariedade. Uns lidam mal com o pluralismo, outros queixam-se, com razão, da falta dele. Uns não aguentam o escrutínio, outros lamentam a decadência (real) do jornalismo livre e independente. Poucos, quase nenhuns, perceberão que a crise do jornalismo não resulta da incompetência dos jornalistas, apesar de ela existir, como em qualquer profissão.
in "Greve do “jornalismo mil euros”: em nome da democracia" 6 mar 2024

Declaração de voto: encontram-nos sempre na minoria, entre os poucos somos os nenhuns. Queixamos-nos da decadência (real) do jornalismo livre e independente, e, com razão, da falta de pluralismo (no Le Monde Diplomatique Edição Portuguesa concordam: "Neoliberais e media contra Abril" mar 2024). Também sabemos que a crise não é da sua exclusiva competência, no entanto parte abismal pactua com os interesses que lhes definha profissão.

Porém, apenas metade do problema: a que deles depende. Depois, há a outra metade, que nada lhes pede ou quer. Esse jornalismo foi finalmente, totalmente, capturado pelo $$$. Um equilíbrio que sempre lhe foi difícil desde que se tentou elevar a padrões que não lhe estavam na génese, e derrubado de vez pelo actual estágio de desenvolvimento tecnológico. Não só esse espreme a profissão pela corrida ao bottom, como as melhores condições de trabalho que o autor acima alerta e a greve pretende não vão reverter o progresso feito em redes e canais de produção, comunicação, divulgação, interação. It's out there senhores, a relação ao vosso público não voltará a ser a mesma de quando só tinham dois canais. E não é só o público a percebê-lo. Exemplo desse divórcio no "During elections, campaigns and the press no longer depend on each other like they used to" 7 mar 2024:

A fundamental schism seems to be forming between partisan politics and journalistic institutions. Journalists assess what timely issues are of interest to the public and decide how to cover them. At the same time, campaigns want to get their message out. So naturally, a symbiotic relationship has historically existed, as the press were the gatekeepers to the public’s hunger for information. This increased exposure helps campaigns compete for public attention and better influence the discourse or narrative of the election. But the digitalization of social life means campaigns across the political spectrum can now communicate with voters more directly. The campaign-journalist relationship is on the decline and there is a simple reason why: Campaigns do not need the press as much to reach voters.
in "During elections, campaigns and the press no longer depend on each other like they used to" 7 mar 2024

O exemplo acima reporta ao américas de trumpas. Exemplo nacional complementar em espectro oposto nas tendências do Jornal Mapa ("jornal trimestral de informação crítica", "feito por uma equipa de base voluntária", que "não está contido na zona de influência de grupos económicos ou partidos políticos de qualquer côr ou sabor"): "A internet está capturada" 6 mar 2024 a propósito do Indymedia, "um jornalismo não profissional, feito pelas pessoas e pelos movimentos em luta" ainda mais descentralizado:

Torna-se cada vez mais evidente que as notícias são controladas com base em práticas economicistas. Isto é uma situação paradoxal, porque, nas últimas décadas, desenvolveram-se precisamente as ferramentas digitais de produção de conteúdo que levaram a que todos os dias as pessoas do mundo inteiro publicassem quantidades imensas de informação na internet. Com o surgimento destas ferramentas digitais, podemos apropriar-nos delas coletivamente para informar e divulgar informação regional e internacional [...], para que qualquer pessoa possa partilhar o que se passa no seu bairro, de forma a amplificar essa voz e quebrar a barreira informativa imposta pelos média corporativos, a partir duma perspetiva de autonomia popular.
in "A internet está capturada" 6 mar 2024

Da nossa perspectiva, impopular, desejamos sorte à nova encarnação do Indy. Experimentamos o workflow de publicação e continua simples e acessível, igual ao original. Como o original, peca dos problemas que a entrevista enuncia e longe ainda de um modelo que nos sirva de paradigma acima de qualquer repreensão – para outro dia: porquê implicar com um projecto de amor quando temos profissionais-comerciais para enxovalhar?

Do enxoval: o jornalismo continua em mutação, aqueles que lamentam o hoje esquecem-se do amanhã, outras formas, outros modelos. Muitos caminhos possíveis, não sabemos qual tomará. Sabemos apenas que as velhas fórmulas não se aplicam mais, embora possamos tirar uma página do ontem para inspiração. Então a imprensa devia mais a projectos como os supra que se desprezam por criancice, uma crítica que não deixará de ser sintomática do arresto ideológico que lhes talha horizontes. Voltemos então às origens, oportunidade para revisitar a era das revoluções. Teaser para enquadramento:

The older upper class political establishments did not simply disappear. They relied on the mental habits of generations to maintain deference to their rule.
in "A People's History of the World" 2008

.. traduzido à imprensa. Da revolução americana:

In 1776 alone more than 400 pamphlets appeared, as well as scores of newspapers and magazines.
in "A People's History of the World" 2008

Da revolução francesa:

There was a ferment of ideas, encouraged by a proliferation of newspapers - 250 burst into print in the last six months of 1789 alone.
in "A People's History of the World" 2008

Nota ao panfleto "Common Sense" do Tom Paine, written in popular style", "presenting [intellectual ideas] in ways the common person could understand", "into the language of the street and the workshop" 2008 cujo impacto entre um público muito menos letrado-e-ligado seria a inveja de carreira a qualquer cronista de hoje.

Quererão fazer-nos crer que todas essas explosões de actualidades que contribuíram para "one of those points in history when arguments suddenly make people see things differently" saiam exclusivamente da oficina de jornalistas encartados? A informação não tem dono, a sua divulgação não deve ter preço, a profissão de informar e divulgar tem que se reinventar, mais uma vez.


Porém-porém, dois fine points a fazer da resistência ao "pagar para ler notícias ou consumir conteúdos culturais" que Daniel Oliveira alude na primeira peça. Fino um: comprámos religiosamente jornais por anos a fio, fazíamos as vezes do quiosque ambulante para todos à nossa volta – suponham a literatura que vos condensamos neste nosso espaço, à data de proveniência não-digital, calculem os jornais acumulados pelo final da semana, fora os que nunca voltavam depois do "já leste, posso levar?". Entretanto, talvez porque a web se tornava mais interessante, mas sobretudo porque a imprensa se tornava demasiado condescendente, não nos custou (pun!) mudar hábitos de leitura de uma vida inteira quando nos foi possível cruzar informação a uma escala global. A agenda de cada edição e a construção de cada peça penosamente evidentes em intenções, pouco se noticiava e menos se aprendia. Fino dois, cultura: é o que diz na embalagem, referir-se-ão àquela que se compra nas prateleiras de supermercados. Qualquer outra expressão humana que resulte dum queimar de alma que ameaça explodir se não a atirares àgua-vai à rua não te pede o guito em troca. A maior parte das vezes nem pede público, pelo que se calhas a cruzar caminho saberás a diferença.

a-paga