OS POSITIVOS

rascunho de filosofia política em guardanapo

A minha posição é, como a de boa parte da esquerda contemporânea, conservadora: conservar uma conquista que deu muito melhores resultados do que esta balbúrdia falsamente espontânea e uma ordem democrática em crise.
in "O projeto político da desordem" 22 fev 2024

Antes. ACAB. Dito isso,
Um colete de forças constrange as opções “realistas” (aspas) de qualquer putativo governo: políticas que ameacem certo modelo económico são do reino da utopia revolucionária a ser corrigidas pelo mercado — preventivamente, exemplarmente, punitivamente — pelos senhores com o dedo na balança (se necessário, no gatilho). Apesar da infindável literatura reunida, marxismo académico-masturbante, exemplos crassos, realidade objectiva, quotidiano delirante, marchas, greves, crónicas, memes, uma esquerda que se insurge contra a exploração vira-casaca automaticamente quando alguém se insurge contra o regime: não se belisca a democracia!, mesmo se esta está refém da banca ou instrumentalizada por interesses além-estatais ou sequer nacionais, mesmo se os únicos resultados práticos que vangloriam são os das regras dum jogo no qual é falta chutar à baliza. Metáforas então: esta democracia é cada vez menos uma menina moça senhora de si e capaz de muito, e cada vez mais posta a render na esquina, tosse congênita, cigarro na boca, baton no cigarro, rendas rasgadas e saúde insegura, incerta do seu próximo cliente mas certa que não há alternativa. Esta esquerda torna-se então defensora de algo que, para os demais, é evidentemente disfuncional. Uma cegueira que nos recorda a dum PC, para quem a Rússia será sempre a motherland, e não o domínio despótico de oligarquias rapaces e principal financiador da extrema-direita europeia que hoje é. Anacrónicos, de lógica em lógica.

Senhores, os fins não justificam os meios, mas vira-vira, os meios devem possibilitar fins. Se não os alcançam, mudem-se meios. E sobretudo, os meios não são o fim desta História. Talvez porque do contra, habituamos-nos que manifestações são democracia directa. Talvez porque do contra, aprendemos que petições são subterfúgios e as acções directas apanham os bons (somos tendenciosos: nossa tradução, agridoce; para jornalismo isento leiam, err, nada). “Talvez” precisemos de uma esquerda menos bem-comportada, menos reticente de regras se bem-comportado e domesticado se confundem.


Xtra Nota máxima aos Climáximos que participaram no "Debates - Legislativas 2024 Partidos Com Assento Parlamentar | Ep. 12" 24 fev 2024. Duas vezes interrompido, duas vezes ignorados pelos crescidos. Não podíamos desejar melhor rábula cómica no contraste dum mundo a arder vcs políticos indiferentes ao que se passa em fundo. Não julgando a eficácia da acção (contraproducente como anteriores), a sua presença conta à chamada no dia que revisitarmos a cronologia de eventos da extinção da espécie. Estiveram lá, ninguém ligou, faltavam as fardas e pistolas? Salvou-se a Inês: "Podemos discordar da forma, não podemos ignorar o problema. Curiosamente, as forças políticas que estão em condições de formar governo não tiveram uma palavra a dizer sobre o assunto". Quem acrescentasse "e quando descer deste palco vou pintar de vermelho aqueles dois senhores ali" leva o nosso voto.

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