OS POSITIVOS

ah! (xerez e pantufas), a calma antes do caos


As cabeças cortadas no ecrã passarão os próximos dias a efabular das eleições com tal segurança e obviedade que estranhamos porque não nos anunciam os resultados antes das ditas.

Gole. Saboreamos. Percorremos o horizonte sem pressa. Uma neblina cinzenta engole formas indistintas. Lareiras enchem o ar, ateadas numa cadencia quase sincronizada por entre os casebres perdidos pelos penedos. Não há nenhum que não tenha um pobre bicho acorrentado à porta: uma rede de latidos que percorre a serra quando algum estranho se faz à estrada. Silêncio absoluto. Nada, nenhures. Bafejamos demoradamente para fazer uma pequena nuvem à nossa frente e vê-la desaparecer.

Dos professores não importa mais, as queixas desses são como o nascer do sol, até ao dia do eclipse total. Os bombeiros andam a apagar fogos há tanto tempo como os professores a ver papeis a arder. Ainda há helicópteros no ar? Marinha a flutuar? Tribunais a tribunar? Polícia a policiar? Parece que já nem vai aos jogos: deve ser sério - e nunca gostamos mais da polícia do que quando descobrimos que a) a sua não comparência (bom) se traduz em b) impossibilidade de futebol (óptimo!). Se apresentam atestado não há eleições? Docência ensina, senhores. Saúde, nunca foi grande, mas agora com s muito pequenino, lá ao longe, como os médicos e enfermeiros que se foram. Os agricultores passam fome, acaba-se-lhes o diesel. Os reformados queixam-se, acaba-se-lhes o tempo sem chegar a sua vez. Os jornalistas queixam-se, tiveram a sua vez. Se alguma classe social não se queixa em PT será por não ter consciência de si. Tenha uma, e terão chatices (*) Se ninguém se chegar à frente nos cómicos faremos a nossa parte: podemos ser chatos.. Casa, nenhuma, ou todo o teu ordenado para a pagar, ie, não sei o que pensas que fazes, mas trabalhas para a banca, ao contrário: transferes-lhes o $$$ que tens. Falamos dos lucros dessa ou chutamos em frente? Ou das cidades, condomínio de ricos? Circulação para carros elétricos ou residentes (cremos que esses dois grupos são um mesmo), a serventia que venha de arrabaldes por transportes, preferencialmente por baixo da terra, não se quer a criadagem a estragar fotografia. Ou não venha: antigamente ficavam presos à terra do patrão e que mal tem isso? Um precário a soldo a estacionar o seu chaço velho à frente do meu prédio porque lhe convém? Polui-me o bairro para poupar hora e meia do trajecto? Paguem estacionamento (eu estou isento) ou saiam da minha porta. Para ti é autocarro apinhado, comboio sobrelotado, ambos interrompidos – também se queixam – é pé descalço ou vens de bicicleta, e de bicicleta não vens porque dá estatuto a não ser que venhas entregar-me almoço. Estas ruas não são passagem ou espaço público: há que ter cancelas, autorizações, cobrar ou proibir.

Divago. Está frio e penso se devia usar botas. As pantufas são metáfora. Na verdade, também não bebemos xerez, temos outras predileções. Como aborrecer os outros, é-nos missão. Puxamos o casaco por cima dos ombros. Inspiramos. Expiramos. Voltamos para dentro. Primeiro há que haver governo. Então, ao desgoverno.

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