OS POSITIVOS

votas muito?


Perdoem-nos mais esta nossa tirada anti-democrática primária: só interessa ir a votos se há uma correlação de causa-consequência. Promessa quebrada, infelizmente só a extrema-direita o diz de boca cheia — e o que deviam levar à boca para oxigénio estamos conversados —, obrigando muito boa gente que devia estar na linha da frente do apontar da farsa a defender as roupas do imperador para se esquivar à acusação de populismo. Como o jornalismo, mesma premissa: julguem o que está a nu de ler e ouvir. Então,

O governo do país vai a votos desde o 25 de abril. Pior cenário: eleitores que desde ’74 sempre cumpriram o seu dever cívico e nunca por uma vez aqueles em cujo programa se revêm ganharam uma eleição. Consequência, foram atordoados por políticas que lhes minaram direitos, esvaziaram serviços, aprisionaram em ciclos de penúria e corda no pescoço. Importa-lhes insistir num processo que não passa da secretaria? Permitam-me a metáfora do condomínio: o sujeito do último andar não quer as antenas de telecomunicação por cima (barulhos da manutenção, interferências diversas, saúde, yadda), todos os outros abaixo dele querem-nas: esses incómodos não lhes entram em casa e a empresa que faz o usufruto paga-lhes as despesas comuns do prédio e mais alguns pequenos luxos como telemóvel novo todos os anos. Depois de uma vida inteira a bramar das maleitas que o afligem, palmadinha nas costas e palavras amigas, é-lhe repetido que as antenas estão para ficar mas hei, pode votar, isto é uma democracia, não tem que ficar agressivo. Sujeito deixa de participar nas reuniões.

Situação inversa, alguém a quem todas as eleições correram de feição: todas as legislativas escolheu o partido vencedor (quem somos nós para julgar quem alterna Carneiro, Balsemão Soares Cavaco Guterres Barroso Sócrates Coelho Costa, próximo?) Mesmo se pouquíssimos tenham feito esse totobola de cruzinhas — no papel, este eleitor estaria deleitado com o processo democrático — estará satisfeito a jusante das eleições? Talvez se esteja a borrifar para as antenas, e essas continuam lá, mas votou pelo arranjo do portão automático da garagem, eternamente prometido e nunca resolvido. Às vezes parece que a única coisa que funciona neste condomínio é o raio das antenas.

A ilusão (conformismo?) mantém este eleitor na rotina. A desilusão afastou o eleitor anterior. Temos mais respeito pelo que é consequente. Talvez um dia pense "alicates". Entretanto, o grosso do prédio tornou-se propriedade de uma offshore de telecomunicações investida em manter as antenas — os inquilinos são só receita secundária. Mas hei, todos os anos podes votar um administrador para enviar as petições.

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