OS POSITIVOS

doutros tempos

ainda não convencido?

Noutra vez, houve uma conferência de imprensa de Henry Kissinger ali no aeroporto. Fui escalada para lhe fazer duas ou três perguntas. Faço a primeira pergunta e Kissinger ignora-me e passa a palavra a um jornalista norte-americano, que diz: "a minha pergunta é a da jornalista portuguesa a que o senhor não respondeu". Ele passa para um segundo jornalista norte-americano, e leva a mesma resposta. Passa para um terceiro e ele responde-lhe o mesmo. Isto era o que se fazia quando ainda nos chamávamos camaradas uns aos outros.
in "Diana Andringa: 'A imprensa finge ser muito livre, mas não o é'" 18 jan 2024

Continuamos o nosso bash primário à imprensa, temos quotas para manter :) Desta socorremo-nos da antiga presidente do Sindicato de Jornalistas em entrevista no setenta e quatro 18 jan 2023 para que não pensem que é embirração nossa:

Diana Andringa faz um diagnóstico pouco animador do atual estado do jornalismo português. [...] Ao longo do tempo, o produto jornalístico deixou de interessar. Interessam as audiências, o retorno da publicidade e a influência política. Não sejamos inocentes: ninguém compra um jornal que não dá lucro por outra razão que não o poder político que lhe confere.
in "Diana Andringa: 'A imprensa finge ser muito livre, mas não o é'" 18 jan 2024

Segue-se do suicídio da profissão com o nosso mashup agenda / propaganda, vcs podem ler o original para ideias próprias:

Neste momento, a imprensa finge ser muito livre, mas não o é. Há a precariedade, as redações extremamente diminuídas, a rapidez exigida ao jornalista. Um jornalista não é inteiramente livre se não tiver tempo para a reflexão, porque o jornalismo não se faz carregando num botão. Quando te dizem que tens dez minutos para escrever dez mil caracteres, não és livre. Estas velocidades infernais não servem para nada. A precariedade no trabalho é uma ameaça aos direitos humanos. No jornalismo, acaba por ser mais que isso. É uma ameaça às liberdades de imprensa e de expressão. Um jornalista precário está indefeso. Por outro lado, os jornalistas tornaram-se passadores de recados. Desconfiam dos políticos, mas publicam os recados todos que a magistratura e a polícia querem fazer passar sobre os políticos. Os jornalistas aceitam coisas que não deveriam, em vez de as questionar. Têm essa obrigação, mas não o fazem. Têm tanto medo que não podem ser livres. Um jornalista que hesita em publicar algo vê-se ser ultrapassado pelo que não teve nenhum problema em o fazer.

Nesse sentido, a nossa imprensa é pouco livre. O resultado é visível: metemos os jornais ao lado uns dos outros e parece que são iguais. Havia um tempo em que eu dizia que a Lusa escrevia os jornais todos e os editores inventavam títulos diferentes. As notícias são as mesmas. É comum fazer zapping na televisão à hora do noticiário e ouvir a mesma notícia repetida em todos os canais. Isto não me parece uma imprensa muito livre. São agendas pré-determinadas por questões de marketing, de política. Remeteram-se as explicações para uns senhores que nasceram agora, não sei de onde, que não sabem nada mas são chamados de especialistas e analistas. O seu papel é manter e alimentar um pensamento único. Consciente ou inconscientemente, os jornalistas de hoje promovem um tipo de informação que manipula o público. Os noticiários com ecrãs divididos em quadrados, as imagens repetidas, os diversos oráculos com frases sempre a passar têm efeitos psicológicos nas pessoas. Promovem a desconcentração, porque não há tempo para refletir. O telespectador é confrontado com tanta informação que fica desarmado.

Como jornalistas, também temos de pensar, acima de tudo, naquilo que fazemos aos outros. Isso faz parte da ética da profissão. Deixou de se discutir o que é ético. É aí que começa a descredibilização da profissão, e a culpa não é do estagiário. É do editor, é do diretor. Andamos a disparar nos nossos próprios pés e podemos estar a abrir caminho para o fim da democracia.
in "Diana Andringa: 'A imprensa finge ser muito livre, mas não o é'" 18 jan 2024

Do fim da democracia para calendas, vamos às notas de rodapé particulares neste espaço. TV, aquela grande meretriz que costumava ser leitmotiv neste nosso espaço de eras mais analógicas:

Desde que dou aulas que pergunto, no início do ano letivo, quem quer ir para a imprensa, para a rádio e para a televisão. Muitos queriam ir para a televisão. E eu juro que não é perseguição minha, mas eram os que tinham piores resultados nas provas.
in "Diana Andringa: 'A imprensa finge ser muito livre, mas não o é'" 18 jan 2024

E: não cremos no profissional noticioso de carreira. O bom jornalista é essencialmente o bom [ qualquer actividade aqui ] que informa de dentro da sua esfera de conhecimento. Afinal, goes around:

Nunca achei que deveria haver licenciaturas de jornalismo. As pessoas deveriam formar-se em Direito, em História, em Antropologia, em Medicina, e depois num mestrado aprenderiam as técnicas do jornalismo. Fariam jornalismo sabendo alguma coisa. Em vez disso, os jornalistas de hoje acham que sabem tudo sobre tudo — principalmente os de televisão — quando são tremendamente ignorantes sobre uma série de coisas. Isso está a minar a nossa democracia.
in "Diana Andringa: 'A imprensa finge ser muito livre, mas não o é'" 18 jan 2024

Jornalismo contra a democracia ? Deviam abrir os telejornais com essa, talvez seguido do não importa quem votas hoje: quem faz as leis lê jornais. Não é demagogia, senhores. Citamos, "é essencial, e alguns jornalistas já o fazem, colocar estes acontecimentos no contexto histórico". Exercício: desse tracem uma recta ao futuro.

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