OS POSITIVOS

unhas pretas


I

Unhas pretas todos os dias, mãos doridas em mais junções que sabemos ter, sentimo-las maiores, capazes de agarrar sem soltura possível, espremer, esmagar, partir, carregamos estes ossos com o universo, um cansaço de corpo que não nos pesa. Todos os poros pingam, cobertos de alto a baixo de poeiras salgadas, invisíveis até escorrerem cinza-escuras por entre os pés, rodopiando ralo abaixo, apressadas de regressar ao mundo o que lhes tirámos, terra e água separada de carne e sangue. Ficam as nódoas negras sem caso, pancadas dadas como recebidas, cortes na cabeça, braços, pernas, novas feridas entre mais antigas numa pele mais curtida, dorida, de dia para dia para dia. Entregamo-nos à melancolia, somos o zumbido de circuitos que se desligam, uma longa locomotiva que abranda, gigantes de granito salpicados pela paisagem, inacessíveis, indiferentes, eternos. Um transe de breves instantes, um ondular de vontades, uma inércia com fim anunciado. Fechamos a torneira e queremos regressar aos campos, cada metro conquistado uma nova alínea nos termos do futuro armistício. Só o inferno nos impede. Este vem em vagas, outra, a natureza ganha sempre, não a posso vencer, só convencer.

Obrigados à retirada, livros, pois, depois haveremos de desenterrar o computador e registar estas notas.


II

Ignorámos – como sabíamos que o faríamos – as leituras planeadas. Vários, tantos, nem fizeram a viagem. Só o "Era das Revoluções" de EJH acusa algum progresso, parte porque uma 4ª edição de 1992: somos suckers pelos formatos. É o mais desprezível destes que nos entretém, uma revista giveaway da Bertrand, "Somos Livros" 2022 que encontrou o seu caminho da metrópole às terras deste demo semi-esquecido no tablier, tantas vezes ameaçado borda-fora não fosse a sua insignificância a insuficiência necessária ao esforço exigido. Sobreviveu para nos merecer a atenção. Já vos fizemos a apologia de leituras por folhas ásperas envelhecidas,

E o papel (...) amadurou num apalpe seco, crespo... E delícia das delícias, perfeita vítima do acaso, o sol incidia diretamente sobre as páginas reforçando a sequidão das mesmas... improvável de prever e impossível de resistir. Marchou no momento.
in Real Nós: "tu sei la donna della mia vita" 2015

...acrescentamos que descoladas entre si pelo calor do astro-rei são ainda mais apetecíveis ao tacto. Momento em marcha, o prólogo e restante arqueologia por Elísio Borges Maia transportam-nos a um mundo diferente, quando livreiros eram artífices por encomenda – aquele que une e cose as folhas entregues pelo copista, resguardadas por uma capa – antes da imprensa massificada forçá-los da fabricação à venda. Ofício mecânico, sujeito ao corporativismo de ordem, a sua transição à modernidade é complexa, reveladora das páginas que já se viraram desde então. Citamos citado:

No regimento do ofício dos livreiros estipulava-se que 'nenhuma pessoa, assim natural como extrangeira, que o dito ofício de livreiro quizer usar e pôr tenda, o não poderá fazer sem primeiro ser examinado pelos ditos examinadores (...) para que vejam se o tal oficial faz obra conveniente para que mereça ser aprovado'.
in "Somos Livros" 2022

Toda a pessoa assim natural, como estrangeira que mandar vir, ou trouxer de fora partidas de livros de nenhuma maneira os vendão por sy, nem por outrem (...) assim encadernados, como em papel, e só os poderá vender por junto, ou por partidas, e não pello miúdo, pello prejuízo que rezulta de os venderem com muitos erros na encardenação, e faltos de folhas.
in "Somos Livros" 2022

O regimento do ofício dos livreiros obrigará à fiscalização da qualidade das encadernações e correção das suas deficiências, impedirá "mercadores estranhos à corporação, nacionais ou estrangeiros, de vender livros em sua casa", e chocará livreiros ("oficial mecânico") com mercadores ("situando-se numa escala social acima daquele"), cegos ( "detentores do privilégio exclusivo das vendas dos papeis volantes", "autorizados a vender também 'livros pequenos ou usados, ou de valor inferior"), e vendedores de livros ambulantes por espaços públicos, ridicularizados pelos livreiros encartados por venderem livros "mal feitos falhos de folhas que apenas eles, livreiros, sabiam fabricar" (ie, traduzido, ontem com o hoje, "por fazerem negócios sem a despesa das tendas nem terem ofício"). Como padeiros, mestres-pedreiros, demais artífices pós-medievais, o livreiro é um artesão que faz livros, a livraria a sua tenda, o livro uma peça manufacturada. Quão longe do império das superfícies digitais, flat, frias, on e off, desconexas, infinitas.


III

No qual teclamos estas palavras.
Pontas dos dedos, unhas ainda pretas.
Amanhã continuaremos a arranhar a mãe-natureza.