OS POSITIVOS

the milk of human kindness

Nate Neal's "The Sanctuary" 2010

What followed was the kind of personal enlightenment that can only happen when you venture past the boundaries of a cloistered, routine existence and into the wider world.
Jason Lutes na intro ao "Platypus" 2021

Trouxeram-nos um "Platypus – Graphics Storytelling", uma graduation anthology (*)Uma 'tuga entre os muitos trabalhos: Catarina 'Cat' Azevedo 1996 de 2021. Desconheço quem nos fez chegar, disseram porque o nosso interesse em comics é conhecido desses círculos, pese a nossa má vontade ao quadrado. Gestos desinteressados destes podiam-nos redimir a academia, porém não o suficiente para nos arrancar às profundidades do buraco de onde nos borrifamos ao mundo.

Pelo mesmo abaixo atiraram-nos dias depois o "The Sanctuary" de Nate Neal, obra com mais de uma década, talvez por isso a um quarto de preço de capa, sempre uma das boxes a checkar na BD que gostamos de gostar.

Como o prefácio do Jason 'Berlin' Lutes atrás, o inesperado repete-se no tropeçar de dizeres do Dave Sim pelas primeiras páginas, estes no "willingness to bent to the prevailing orthodoxies", empurrar o de cima e segurar quem vem atrás. Depois de uma troca de mimos entre Dave e Gary Groth (o publisher da Fantagraphics Books que materializou o livro: "he and Dave are kind of nemeses" 29 nov 2010),

Now, if you are a typical reader of books published by Fantagraphics (not that theres anything wrong with that) you aren’t going to want to hear or read that. (...) The excellent graphic novel you are about to read originates in the same impulse as my commentaries (...) enunciated in Cerebus volume 15, “Latter Days”, if you are that rare avis, an open-minded Fantagraphics reader.
da intro de Dave Sim in "The Sanctuary" 26 fev 2010

...a profecia que Sim vaticina – ao contrário de outras que bebeu à bíblia – cumpre-se: a leitura agarrou-nos como poucas pós-pandémicos. Em parte porque nos surge de outra era, anterior à idade social-digital, cujos hábitos e culturas nos são estranhas sem o ecrã para interface. Em parte porque assombrará (*) Apesar de um twist pelo final, dispensável, saberão qual... todos aqueles na interseção de Comics, Cultura e Cabrões.

Em recap: conto hipotético sobre o mais desprezível dos membros da tribo, aquele que aparenta nenhuma competência prática à sobrevivência do grupo, e logo o seu artista. Forçado aos registos dos sucessos dos seus pares nas paredes da gruta onde se refugiam, desses emanam as relações de poder desta micro-sociedade tão []umana, porém o nosso herói é o mais sofrido e marginalizado, antes de condenado, perseguido e esquecido à sua morte nos confins da escuridão. Não é, de perto ou longe, uma história agradável ou feliz.

It's a story about art, inspiration and communication at odds with tradition and law - at its heart is the artist struggle to face and make light of the truth, even at the expense of society and his own life (...) set out on a dangerous mission to bring truth to their corrupt tribe with the help of their new discovery: drawings that tell a story.
in "The Sanctuary" 2010

Apesar da sua inutilidade aos demais, os rabiscos do nosso protagonista são ferramentas indispensáveis às narrativas que asseguram a ordem, mas igualmente eficazes na sua subversão.

Só uma linha une estas duas publicações: a casualidade cronológica que as trouxe à estante, mas as inevitáveis interpretações xamânicas à-lá P+ de coincidências no zeitgeist exigem-nos mais. Encontramo-la na evolução entre a génese do primeiro artista sentado à volta da fogueira na sua caverna e o entusiasmo das novas levas de artistas to be pelo uso de todas as tecnologias do seu tempo. O Lutes termina best:

In the end I’m happy to say that those days felt less like me imparting wisdom from a position of authority at the front of the classroom and more like sharing experiences side-by-side (…), I don’t know it any of these human beings learned anything from me, but I know I learned a few things (…): that the future of our beloved medium is in good hands.
Jason Lutes na intro ao "Platypus" 2021