OS POSITIVOS

flippin' civs

Na mesma semana que chafurdámos na ignorância de nenhuma-coisa-comics, o universo plantava pequenas pérolas que nos chegariam em relay. Primeiro, notícias do suspeitar de formatos digitais e o fim do monopólio de todas-as-coisas-print num "Flexágono" 13 out 2021 com obras de vários autores portugueses. Tímido de enunciado, questiona-se a "visão privilegiada da banda desenhada enquanto veiculada pelo formato do livro" e o "apagamento de outras estratégias e existências", "quase como que uma ideia desse seu formato (...) ser desde logo um garante diferenciador e hierárquico em relação a qualquer outro formato ou modo de apresentação", e diz-se que "para compreender o que se passa no nosso país é preciso olhar para pequenas edições, fanzines, para sítios na internet, para o Instagram, e a mistura de todas essas esferas". Atomiza-se:

Essa atomização tem aspectos positivos. Actualizam-se na variedade de estilos, tópicos, assuntos, materialidades, meios de produção, distribuição e circulação e, acima de tudo, diversidade de agentes produtores e de leitores. Poderemos referir-nos a aspectos menos felizes, talvez, como uma maior e inevitável dispersão, uma menor distribuição de atenção, um menor consenso…. mas não é isso, também, no fundo, positivo?
in "Flexágono" 13 out 2021

Apesar da facilidade para o sugerir ao desconsenso não nos incluem ao rol, so fuck them other guys & gals. Embora, pelo subtítulo da dita, "Faces da BD contemporânea portuguesa", dispensados: nunca daremos qualquer face a esse manifesto.

Ainda em formatos e revisões do que cai à rede, "Bottoms Up" de Rodolfo Mariano, cujo autor "socorreu-se das redes sociais para revelar" o seu pedido de remoção da obra a concurso, possuindo "os requisitos necessários para ser admitida na categoria principal, de Melhor Obra de Autor Português (...) não podendo como tal ser considerado com um fanzine".

O autor resolveu não aceitar aquilo que considera ser uma "despromoção". O assunto foi resolvido pela organização/júri dos PBDA com a simples exclusão da obra na categoria em que se encontrava nomeada.
in "«Bottoms Up» excluido dos PBDA!" 17 out 2021

Atómico. Festivais, prémios, livros, polémicas: bingo all around numa só entrada — o zeitgeist fornece sempre. E formatos: prova provada que o formato muda a leitura da BD? Acima, podíamos escrever toda uma tese.

Manifestação segunda, o mesmo universo prossegue ironias de coincidências ao z-to-tha-g publicando em resposta ao nosso lamúrio da BD apolítica arqueologia em contrário com um "When Italy's Communists Made Comics for Children" 14 out 2021 , cujo racional enreda lógicas como "a key part of the party's communications to the masses of Italians were its comics". Raspa mas não rasga, e também aqui socorremo-nos de segmentos de título para distâncias: "for the children". Todo o a bd não é só para crianças é tão século passado que já passamos a idade. Justifica-se à cronologia na igual coincidência de debater formatos: Portugal português 2021, Itália comunista "as early as 1907". Revoluções então.

Communist periodical invited its readers to rebuke and, if necessary, beat up their Fascist contemporaries.

Antes dos comics norte-américas ditarem um género que se confunde ao meio,

Children's periodicals have long been a tool of patriotic propaganda […] which sought to promote the "formation of socialist consciousness" through "propaganda readings." It aimed to lift its readers "out of the indifference, the torpor, the quiet life of the satisfied, to make them passionate about a shining idealism, to make them masters of their energies and use them in struggles for the good of their comrades" […] imposing a solid class consciousness in the proletariat from an early age [and] attempt to carry through a real "countereducation."
in "When Italy's Communists Made Comics for Children" 14 out 2021

The last remaining trace of this "newspaper for workers' and peasants' children" is an undated leaflet [featuring] a series of cartoons with a strongly evocative title: "For the children we want bread, or Mussolini's head." […] The fascist police immediately set to nipping this dangerous instrument of counter-propaganda in the bud.
in "When Italy's Communists Made Comics for Children" 14 out 2021

Demasiado, demasiado cedo. Esses esforços faziam parte de um ---

...testing ground for the educational principles developed by a movement which intended to take the politicization of childhood to its furthest consequences by creating a party children's organization.
in "When Italy's Communists Made Comics for Children" 14 out 2021

Perderam-nos no party.

Enter comics norte-américas '45. Os fascistas desdenhavam o formato, os comunistas sofriam do mesmo dilema. Segue-se mashup, devolvam ao estado da arte.

An extraordinary revolution had taken place in the field of children's magazines, with the advent of the comic strip. While avoided by Fascism, which considered it a dangerous cultural by-product of decadent American civilization, this format […] quickly invaded the pages of all illustrated periodicals for children and became the predominant form of material addressed to them. This fact was itself an embarrassment to the Communist Party, which strongly criticized US mass culture and the social models and cultural prototypes underlying it.

In December 1951 the MP Nilde Iotti — partner of the Communist Party's national secretary Palmiro Togliatti — harshly attacked the comic strip. She painted it not only as a product of American mass culture, but also as a threat to the moral, civic and intellectual formation of the new generations. In her view it fostered "repeated illiteracy" and produced a deterioration of the child's aesthetic senses. "It is claimed that the content of the comic strip, not its form, is what makes it dangerous. […] This statement seems to us not only off the mark, but also superficial. […] Content and form are not separable here. Why do comics prefer to, or even exclusively, tell horrifying stories? […] It is the very mode of storytelling that imposes this, because it demands that the protagonists be continuously — with each new frame — engaged in a violent gesture, for the series to maintain its interest."

Well-known writer Gianni Rodari stated that he basically shared Iotti's negative opinion of the American comic strip, but added: "Iotti, extends this negative judgement to comics as a genre, as a way of telling stories, implicitly excluding the possibility of making comics with different forms, contents, spirit and intentions to the American ones. […] A totally negative theoretical judgement is inaccurate, or at least equivocal, and in my opinion Iotti fell into a misunderstanding by polemicizing over the distinction between the form of the comic strip and its content. This distinction . . . is impossible. But Iotti mistook the "form" for the genre, or the medium, or the tool, or whatever we want to call it, represented by the comic strip."

According to Rodari, if the party wanted to address young Italians, 'it had to take into account the language they are used to, and which has become one of the most important means of communicating with them.' The coeditor insisted that he did not understand why it was considered illegitimate to tell a story with comics, rather than with the voice, the written word, or cinema. For him, comics were simply a new way of telling stories, which could be good or bad, without affecting their narrative and expressive validity.
in "When Italy's Communists Made Comics for Children" 14 out 2021

Cúpulas comunistas com "C" maiúsculo discutiam a relevância dos comics "c" pequeno servidos às massas no século passado. Crianças. Futuro presente, só a custo se encontram vestígios fragmentados entre adultos sem "a" redondo. Já validade dos conteúdos para lá do formato empurramos a calendas, mais à direita destes romanos.