OS POSITIVOS

shame ol' story

"Paying the Land" 2020 de Joe Sacco: do fim de modos de vida e o resto está no título

Saltamos de gregos a romanos. Comparações, wink wink: como as anteriores civilizações da idade do bronze – que também pareceram eternas aos seus – a Roma imperial e os restantes impérios congéneres entram em colapso quase em simultâneo depois de prolongada estagnação e constante tensão entre haves e have nots. Pela similitude de crises que os abalou apontam-lhes causas idênticas, de resto também elas repetidas do passado. De loops então: uma economia baseada na exploração de mão de obra cada vez mais barata e destituída, beneficiando uma elite cada vez mais exclusiva e distante, cuja autoridade é reforçada por leis cada vez mais draconianas para extrair valor de populações cada vez mais empobrecidas.

The ruling class could only continue as they had in the past if ever-greater pressure was applied to the peasantry, replicating across the empire the excessive exploitation which had already ruined the Italian peasants. [...] There were increasing instances [...] of peasants abandoning land which provided them with no livelihood once they had paid rent and taxes. The state increasingly passed legislation binding peasants to the land or to particular landowners as ‘coloni’, effectively serfs. But such legal subjection gave them even less reason to support the empire against ‘barbarian’ incursions.
Chris Harman in "A People's History of the World" 1999

Viraram igualmente a mesma página de outros tempos quando os tempos viraram: todos estes grandes impérios racharam na intersecção dos tumultos sociais desesperados e alterações climáticas, forçando a economia além das suas capacidades. Porque quer uns quer outros repugnavam qualquer inovação tecnológica (elites: ameaçavam o seu poder; os restantes: qualquer excedente seria arrestado), a sociedade como um todo não conseguiu sobreviver às calamidades acumuladas.

The consumption of the rich was more lavish and the superstructure of the state vaster than ever. A point was bound to be reached at which things simply could not go on as before. There was not the material base in production to sustain such vast undertakings.
Chris Harman in "A People's History of the World" 1999

Interrompidos leituras neste ponto, mas curiosos para saber como acabará a História. Para já notamos apenas a repetição de enredo a cada par de milénios mas hey!, quantos mais séculos podem os heróis desta aventura retumbar os mesmos males e crashar civilizações inteiras à conta de tensões crescentes entre ricos e pobres?

(E todos sabemos que alterações climatéricas são só plot para adensar o romance, uma ficção, certamente, irrepetível, seguramente.)

Anyhooos,

Back to real ao nosso presente, folheamos agora o The Atlantic para sentidos do sem-sentido dos tempos. Ao caso, continuamos da tecnologia e mega ricos e extração de valor pela opressão dos cada vez mais apertados. Segue-se mashup de artigo em forma de pergunta: “What on Earth Is Amazon Doing?” 1 abr 2021: (*) E a ironia no "Earth" é toda nossa.

That’s apt, because Amazon might be the best standard-bearer for the concept of an Evil Corporation.

Over the past week, Amazon has mounted an aggressive public-opinion campaign in what appears to be an effort to discredit its warehouse workers in Alabama, who are trying to unionize. Amazon News started maximizing provocation, or, in internet speak, shitposting. The directive to attack aggressively came from Amazon CEO Jeff Bezos himself.

Amazon’s bravado [...] represents a departure from expected online corporate behavior. In a backwards way, and certainly unintentionally, Amazon’s weird behavior is liberating us from the affliction of building affable relationships with corporations. It’s a reminder that although companies have basically become people in our lives, those people might very well be assholes.
in "What on Earth Is Amazon Doing?" 1 abr 2021

E uma caixinha web porque vcs sabem porquê :)

By 2010, everyone was online. Previously, companies could speak only through formal messages on billboards; by mail, radio, or television; or via media coverage of their actions. The web had shifted that control a bit, but websites were still mostly marketing and service portals. Social media and smartphones changed everything. They made corporate speech functionally identical to human speech.

Over the past century, companies have been transformed into private individuals, deserving protection from the state. The internet made corporations feel like people. It also allowed companies to behave like people.
in "What on Earth Is Amazon Doing?" 1 abr 2021

Small print em corporações são olhos do cu: nota à própria Atlantico a quem desejamos o caminho da Atlântida – e de todas as civs anteriores, reais ou imaginadas, presentes quiça futuras se caminhos nunca se emendam... –, que não foi capaz de resistir ao bling dos NFT e tenta a sua sorte com um leilão de duas ilustrações a reflectir um ano de desafios "from The Atlantic's pandemic journalism" 2 abr 2021, um money grab a recordar-nos o que pensar dos media em geral, tão shameless como o de Matt Kindt 1 abr 2021 que poderemos revisitar um outro dia a propósito daqueles que assistem na decadência:

The urban masses were equally incapable of taking the lead in a revolutionary reorganisation of society. They were even less central to production than the small peasants. The most impoverished were dependent on casual labour. Others were artisans in luxury trades, whose livelihoods depended on supplying the needs of the rich. There were many slaves in Rome. But their conditions were often more favourable than those in agriculture, and many could hope to join the high proportion of the capital’s population who were free if they were attentive enough to their owners.
Chris Harman in "A People's History of the World" 1999

Ah! Espirais eternas na ganância dos outros. Podemos fechar com um lacinho que embrulhe tudo bonitinho de uma só vez em ricos e pobres e impérios em decadência e talvez tecnologia e alterações climáticas? Senhores...? Segue-se mais um artigo com título em forma de pergunta para respostas óbvias: Bill Gates, o maior proprietário de terrenos aráveis nos States,

The United States is defined by the excesses of its ruling class. But why do a handful of people own so much land?
in "Bill Gates is the biggest private owner of farmland in the United States. Why?" 5 abr 2021

Why indeed? O homem defende-se com o seu compromisso de combater alterações climáticas globais que lhe conhecemos do seu livro mais recente, mas à luz da história conhecida de muitos outros livros talvez lhe possam encontrar razões mais sentidas, lições aprendidas de tantas vezes repetidas.

♪ we've seen this all before ♪
♪ culture fades with tears and grace ♪
♪ leaving us stunned hollow with shame ♪
♪ we have seen this all, seen this all before ♪

♪ I know it's been thousands of years ♪
♪ and I feel your hurt ♪
♪ and I know it's wrong

♪ and you feel you've been chained ♪
♪ and broken and burned ♪

♪ do what we can, laugh and we cry ♪
♪ and we sleep in your dust because we've seen this all before ♪

( para ouvir em loop naquelas viagens longas - namaste )

dark dark times