OS POSITIVOS

imaginar após o cataclismo

Tanta gente a pensar o fim do mundo e quase ninguém a pensar o fim do capitalismo.
in "Imaginar o pós-capitalismo" 9 abr 2021

Jameson tinha razão. Já do senhor que retorquimos, também lhe achamos razoáveis as conclusões da aflição entre nós sintetizado por três singelos cifrões.

Nomear hoje o capitalismo exige precisão, implica uma classificação vectorial: há o capitalismo digital, o capitalismo de vigilância, o capitalismo atencional, o capitalismo extractivista, o capitalismo estético, o capitalismo de plataforma e, até, o capitalismo genético. E outros, certamente, pois neste domínio tornou-se difícil ser exaustivo.

Aquilo que o anti-capitalismo clássico, agarrado à noção de “classe capitalista” caracterizada como proprietária dos “meios de produção” e detentora de um “capital fixo” nunca quis perceber muito bem foi que o capitalismo se foi alterando radicalmente do interior e passou a ser “outra coisa”, sempre mutante. [...] De tal modo que já não é possível hoje saber do que se está a falar quando se fala em capitalismo.
in "Imaginar o pós-capitalismo" 9 abr 2021

Não vos revelamos autoria ou ligações – é uma cena –, mas a sua providência anónima não vos deve desmotivar da importância da lição de hoje com —

— pelo menos um efeito pedagógico: obriga-nos a desconfiar de antigas e modernas ilusões ligadas a visões da história que já estão caducadas.
in "Imaginar o pós-capitalismo" 9 abr 2021

Imaginemos então outras histórias, comics edition. Seguem-se três possibilidades de caminhos que nos levem a um mundo pós-$$$: Michael DeForge, um gato laranja, e sexo com as propriedades intelectuais dos outros. Três casos sem relação óbvia que por nenhuma razão particularmente urgente exigiriam na sua crítica uma correlação económica com a sociedade actual. Porém essa parece ser a tendência crescente entre os literários internacionais: é-nos quase impossível atirar uma pedra ao ar sem acertar por ismos do capital nos bonecos ao quadrado, uma segurança tão absoluta como, por mais pontaria que façamos, o falharmos em encontrar qualquer nota de nota entre firmas nacionais. Mas dessa falência para outras ocasiões, o zeitgeist fornece e estes três exemplos que vos escolhemos somam-se às crítica comediada no afrontar de forças de produção, respeitando acidentalmente um mesmo princípio: o deliberar alternativas ao presente, escusando-se a explicações.

Começamos do TCJ (*) Que fecha o seu resumo desta semana com uma introdução que não podia vir mais a propósito de tretas caducadas: "New normals continue to slink into view this week, as old normals refuse the call and defiantly throw their weight around some more, and spoilsports in the world of science and socioeconomics ask if things ever were, and ever will be again, "normal" 16 abr 2021, e recuperado de uma crítica que consegue ser ainda mais coincidente em intenções: "Theorist Mark Fisher’s 2009 book Capitalist Realism: Is There No Alternative? coins a phrase to put a name to the sense that distinct limits have been placed on our imaginative horizons, making it impossible to envision an alternative to the capitalist system that currently dominates our world." 16 abr 2021, este o mais longe das nossas preferências pessoais mas igualmente o mais explícito na sua não-evidência:

Michael DeForge’s comics are the alternative to capitalist realism everyone’s been clamoring for. The tonal register of these comics includes humor, tenderness, and joy, and all these things seem earned. Partly because it’s implicit to the reader what all needs to be overcome to get to these places, the “real world” being avoided. The politics being casually expressed are never the point, and they are not meant to satiate the readership’s desire to feel they’re being agreed with. In DeForge's comics, realistic depiction of the world where most people have dogshit politics is bypassed completely, and we as readers get to participate in a world unburdened of the need to explain itself.
in "Heaven No Hell" 24 mar 2021

A ausência de políticas de confrontação e as políticas que dessa resultam aliada a uma realidade alternativa alastram-se ao segundo caso, este em polos opostos de abstração artística e aterrados num formato forçado à uniformização pela própria indústria de que depende, o comic strip: "Heathcliff", "hardly the first surreal comic", por Peter Gallagher, actual autor e sobrinho do criador original.

The suburbia that Heathcliff antagonizes isn’t real and has never been. It certainly is not the America that currently exists where the rich constantly get richer while the poor get constantly poorer, where homelessness rates are similar to the current national death toll of an international pandemic, where long-term prospects for economic advancement are grim, and where a person’s only value is that of a “consumer.” The transgressions of Heathcliff are against a specific sort of 1950-60s public-facing white middle-America suburban experience. Perhaps this is why the comic is so popular on Twitter, where individual comics go viral – the key user demographic of Twitter are millennials, the first generation in generations to have, on average, a lower life expectancy and standard of living than their parents. When your average working-class person has to work multiple jobs just to pay rent in America’s “best cities,” it’s not hard to see the farce built so cleanly into Gallagher’s work.
in "Heathcliff Askew: Neural Nets, Benign Violations, and the Absurdity of the American Dream" 14 abr 2021

Não se julgue que estamos assim tão longe de tendências arsty modernas e pós-modernas. Citam-se “Oblique Strategies” de Brian Eno e Peter Schmidt, a "italianicity" de Barthes transformada em "suburbanicity", colagens Dada e tradições de recombinatory work, a redescoberta de “ornament and decontextualized historical reference in postmodern architecture” para justificar o padrão-pela-abstração:

Heathcliff is committed to nothing. Every new strip wipes the world clean, every new strip builds the world anew.
in "Heathcliff Week: One Panel Chaos" 13 abr 2021

Gallagher’s Heathcliff uses the readymade form of the suburban gag strip, with its repetitive and iterative formulae, and adds randomness, reintroducing surprise where we expect it least.
in "Everybody’s Mad About Heathcliff" 15 abr 2021

E se estamos de ódios de estimação, como não somar ao pequeno dossier em imprensa, comics, academia?

It shouldn’t be surprising that a comic is funny, but it is. This is, I think, largely a response to the growing cultural consensus that syndicated comics just aren’t funny anymore. In a moment where comics criticism has disavowed the biff, bam, pow and also the honest ‘ha ha ha,’ the stale legacy strips make an easy target.
in "Everybody’s Mad About Heathcliff" 15 abr 2021

Like a failing mall, the funny pages showed up to work even as audiences dwindled, and as corporate mergers in newspapers – and comics syndicates – meant the audiences had less and less to see. It was no Lord of the Flies, but things did get pretty weird in that empty mall. Perhaps any comic strip becomes weird if we just run the clock out.
in "Everybody’s Mad About Heathcliff" 15 abr 2021

Realidades alternativas pelo método da inconsistência-consistente, terceiro exemplo e o nosso preferido: Alec Robbins’ "Mr. Boop", uma sensação que fez as rondas anteriores nas redes sociais por alturas de confinamentos passados.

Abstração-padrão, lógicas internas nos mundos representados, um universo que combina o arsty dum DeForge com o legacy de "temporally arrested non-place and non-time" 15 abr 2021 dos strips (e personagens de diversas indústrias):

Alec uses copyrighted characters as symbols to construct an alternate reality to shield himself from an emotional truth [and] amplifies already ridiculous soap opera storyline hooks by bringing in characters from all over media in the expansion of his own absurd universe. Robbins contains himself and his menagerie of cartoon companions, without holding (probably) the rights to any of the characters in Mr. Boop beyond his own likeness. Over time, the reader – and those around Alec – see shifts in tone and style as first revealing the possibility of another reality, and then belying it. It becomes clear that the comics are not reality unto itself, but a veil, concealing a greater emotional reality behind it. The juxtaposition of Robbin’s reality and the reality he lives in the comic is the driving force of Mr. Boop [and] the inconsistencies appear to be a function of the concept. Robbins squashes and stretches reality; some scenes feel like reality despite the inescapable ridiculousness of the whole thing.
in "Lies More Accurate Than Truth: Mr. Boop and the Cartoon Crossover" 8 mar 2021

E aqui acrescentamos ao arquivo em cultura popular, apropriação e internet.

Alec Robbins’ Mr. Boop falls within the rich realm of the cartoon crossover, which has been utilized by executives and copyright holders for decades to generate hype for their properties and reap the resulting profit. Property holders are protective, usually only allowing their charges to exit their own reality and enter that of another for a purpose that will result in profit. [...] In the mid and late 2000s, on forums, blogs, and image boards, now-adult users could gather and discuss media in a new capacity. With the internet, users were able to air criticisms that had perhaps not been accounted for in publications and programs with corporate sponsors. The internet suddenly rendered accessible the work of any artist whose images were uploaded, in contrast to heavily curated official merchandise and tie-ins, and a quick search for a well-known character would easily return thousands of works by thousands of artists, both “official” and “unofficial.” People dedicated themselves to gathering “cringe,” competing to see who could find the most ridiculous, most second-hand embarrassment-inducing image. Soon works emerged from a more ambiguous place, where readers were unsure if they were genuinely made by isolated fanartists or were created with a streak of irony by those familiar with cringe.
in "Lies More Accurate Than Truth: Mr. Boop and the Cartoon Crossover" 8 mar 2021

Ao contrário dos dois anteriores, este último resulta de uma apropriação selvagem sem a conivência dos que detêm os direitos das personagens: saltamos rios de tinta ao tópico e curvamos à vénia na resposta possível quando "eventually, a cease and desist letter from Betty Boop’s copyright holder forces Alec to leave Betty Boop" 8 mar 2021 e as duas realidades chocam.

Hélas, somados e espremidos — nunca lidos — insuficientes ainda para nos convencer ao pós-pós — pós-moderno, pós-capitalista ou pós-apocalíptico (o que rebentar primeiro), ou pós-comix pós-press e pós-web, demasiados para enumerar. Culpa nossa, imaginamos demasiado, desconfiados por menos,

Part of what I think might be challenging and delightful about Heathcliff is the feeling that someone, somewhere, is “getting away with it.” It’s just not clear who’s pulling one over on who – is Peter Gallagher, the cartoonist? Or is it the syndicate getting one over on us poor readers by publishing stuff like this every day?
in "Everybody’s Mad About Heathcliff" 15 abr 2021

Quando soubermos a resposta, saberemos se dobrámos as tormentas.

loop