OS POSITIVOS

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« welcome to the new frontier, the junction of internet culture and financial libertarianism »

in "We Won’t Need No Rocket To Fly Through Space – This Week’s Links" 19 mar 2021

Parte dois de caldeações improváveis no maravilhoso mundo moderno, edição cultural com os NFT (non-fungible tokens) a exemplo, mais uma pista na evolução da sociedade actual com paralelos a adventos históricos e relações de poder. Longe foi a passagem ao sedentarismo e agricultura, da qual à já enferrujada revolução industrial se estenderam demasiados impérios por longos milénios, estes fragmentados em feudalismos de muitos nomes, finalmente finados por burguesias mercantis e derivados. Quem acha que esta história é indiferente à tecnologia de cada era, que vá comer merda. Agora no "pós" (*) Sempre os pós., a modernidade acelera-se e as linhas que tecem influência escrevem-se a zeros e uns.

According to a recent analysis cited by The New York Times, about 7,000 millionaires will emerge from the latest round of Silicon Valley initial public offerings.
in "Trophy Homes and $2.5 Million Tweets: How the Idle Rich Spent Their Pandemic Year" 10 mar 2021

Com ecos de outras pestes podemos agradecer ao virus pandémico deste início de década a recordação que as mudanças tendem a ocorrer em sobressaltos, embora sejamos lentos a percebê-la e se confundam com o passado. Destítuidos de livre circulação e obrigados ao tributo desta nova classe dos américas, uma dízima que demasiados pagam com um swipe do dedo e lhes custam os seus hábitos pessoais, profissionais, sociais, o mundo transforma-se. Independentemente dos NFT serem uma fad que queremos explosiva em linha com outras reinterpretações contemporâneas de bolhas clássicas, devolvem ao mesmo comportamento humano desde sempre. Ambição, avareza... arte. Poderíamos discorrer os próximos vinte minutos em puro fel nesta última, mas saltamos alfabeto e nos Ds apontamos dedo ao “digital”: como tão bem sabemos da promessa vencida de uma web aberta a todos (*) Vinte vinte e um: quantos de vcs ainda têm websites próprios, um espaço vosso onde publicam ao planeta inteiro sem passar por um filtro de conteúdos decidido por terceiros?, o futuro cada vez mais impossível de desligar será dominado pelo lado negro de todas-as-coisas-digitais, mais distopia que utopia. Alguns resistem, outros infectam, a maior parte rola ao facilitismo. Outros ainda tentam tornar o fácil, difícil, para benefício de uns poucos. Caso em ponta: o engenho que dedicamos a conseguir limitar, rarear, custear algo que pode ser duplicado e partilhado por / entre todos, sem custos, infinitamente. Ó, a Humanidade...

Fomos introduzidos à dualidade fungível / não fungível a assistir discussão alheia entre a directora de uma biblioteca e o funcionário que perdera um qualquer livro. O coitado bem que se propunha a pagar do bolso o valor desse para encerrar conversas, mas a sua superior hierárquica não conseguia encontrar paz nessa solução – era uma questão de princípio, explicava: não lhe importava o dinheiro, esse é todo igual, um livro não pode ser substituído com a mesma facilidade. Volvidos anos, enter o digital e complicam-se as conversas. Simplificamos, hoje ocupados da diferença do acesso à informação vs o fetiche da possuir por razões estéticas: sobre uma tecnologia que permite o milagre dos pães infinitos com cópias exactas a custo zero, o NFT propõe-se intencionalmente a gerar a sua escassez. Os cómicos aplaudem...

Thus the collector’s impulse has finally found its way to the virtual realm. More than the art or the object or the virtual thing, possession is the point: the sense that you are buying something that is yours and yours alone.
in "A jpeg for $70m: welcome to the strange world of cryptocurrency art" 17 mar 2021

Small print no "yours alone": o NFT é apenas o apontador para um repositório: 1) nem possuem os direitos sobre a peça que compram, 2) nem é uma peça única, irrepetível ou rara (só o link o é), 3) esse token aponta para um objecto guardado por terceiros que pode ser facilmente substituído por qualquer outro a qualquer altura. Fun!

Aos que a nova tech não roçou demasiado perto para conforto, o pequeno recap das intrawebs que escolhemos arquivar – no final da qual adivinharão as nossas ilações. Crash course entre as duas posições possíveis:

NFTs are a way for artists working in new technologies to make money in a space that has been historically difficult to monetise, (…) the latest in a series of blockchain-backed experiments around the authentication of property and digital art on the internet.
in "A jpeg for $70m: welcome to the strange world of cryptocurrency art" 17 mar 2021

Traduzindo...:

The whole ordeal is a fad for the rich, who are speculating with crypto on things no one needs or perhaps even really wants, possibly as a way to quickly flip the assets for more crypto.
in "A jpeg for $70m: welcome to the strange world of cryptocurrency art" 17 mar 2021

Agora explicado,

NFTs are essentially a multilevel marketing scheme that requires other people to buy in after you at a higher price. They’re title deeds for increasingly useless crap.
in "Trophy Homes and $2.5 Million Tweets: How the Idle Rich Spent Their Pandemic Year" 10 mar 2021

It’s like a “Certificate of Authenticity” that’s in Comic Sans, and misspelt.

When I buy an NFT, what do I get? You’re buying the key to a crypto-token. You’re not buying anything else. The art itself is not in the blockchain — the NFT is just a pointer to a piece of art on a website. Note that it’s only the token that’s non-fungible — the art it points to is on a website, under centralised control, and easily changeable. [...] The purpose of NFTs is to get you to give your money to crypto grifters. The only purpose the artists serve is as aspiring suckers to pump the concept of crypto — and, of course, to buy cryptocurrency to pay for “minting” NFTs.
in "NFTs: crypto grifters try to scam artists, again" 11 mar 2021

E do lugar que cabe ao artista, talvez seja de repetir que o criador da peça leiloada no Christie pelos $69.4m que fez notícia em todas as puff-pieces que correram mundo tem uma participação directa nesse negócio além das percentagens que ganha a cada nova transação.

Beeple’s connection to digital speculation is not incidental.
in "Beeple Has Won. Here’s What We’ve Lost." 20 mar 2021

Metakovan, the mystery Beeple buyer is Vignesh Sundaresan, a crypto entrepreneur. Metakovan is also behind Singapore-based Metapurse, a crypto-based investment firm. Metapurse has taken Beeple’s multiple artworks, or NFTs, along with three virtual museums, and combined everything into a “massive bundle.” Would you like to invest in this wonderful package? You can. All you have to do is stock up on Metapurse’s new B20 token. What’s interesting is that Beeple, the creator of the artwork, is actually a business partner of Metakovan’s. He owns 2% of all the B20 tokens. I’m sure there is no conflict of interest here.
in "Metakovan, the mystery Beeple art buyer, and his NFT/DeFi scheme" 14 mar 2021

Nenhuma tecnologia é neutra, apesar de todas o serem. Ie, depende, e os NFT são o exemplo que a imbecilidade não limita a imaginação. Podemos querer no futuro outros usos para o blockchain (“a format that can be traded, stored or authenticated without needing to turn to a gatekeeper” 12 mar 2021), podemos até supor que um dia possamos usar a energia do Sol para processar os bitcoins e afins sem destruir os recursos fungible do planeta, mas até os mais imaginativos devem admitir que estamos já hoje a cruzar novo patamar de implicações mais vastas.

You can buy just about anything these days — even what you can’t actually own.

NFTs reflect a view of the world in which anything can be monetized, even if its value is entirely specious. [...] You could see where this might be headed: It’s the financialization of everything, with practically anything eligible to be tokenized, chopped up into tranches, converted into securities that intrepid day traders could buy and sell. Your life, rendered as a tradable market commodity.
in "Trophy Homes and $2.5 Million Tweets: How the Idle Rich Spent Their Pandemic Year" 10 mar 2021

With NFTs, we’ve come yet another step closer to fully digitizing our lives. Everything that can be digitized will be digitized. And that’s pretty much all you need to know, since you can pour anything of value into an NFT — even assets linked to the real world like houses and cars — and it will be worth whatever it is worth, which has always been whatever someone is willing to pay to acquire it.
in "Another Big Step Toward Digitizing Our Lives" 20 mar 2021

Tudo é mercadoria e qualquer coisa sobre novos meios de produção...: não há-de ser nada — pun!

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