OS POSITIVOS

« explicar é alienar »

Na arte, o sentido não emerge de convenções ou regras. Pelo contrário, as convenções e as regras emergem do sentido. A arte mantém com o processo de estandardização uma relação intrinsecamente dúbia. A convenção é tolerada apenas como sustentação de outros sentidos mais individualizados: quando assume a dianteira do edifício artístico, o resultado é um clichê. A constante propensão para o clichê, e a tentativa de o evitar a todo o custo, são indícios de uma alta cultura em declínio.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

Fun. E a nossa deixa para tensões entre o consolidar e partir de moldes, tradição e inovação. Roger, capítulo “O olhar estético”, recuperado e remisturado com outros olhos porque vão-nos sempre encontrar especados a espreitar o que outros preferem não ver. Começamos da tradição,

uma tradição artística é um exercício de imaginação

i) Uma tradição artística é um sistema de convenções, alusões, referências cruzadas e expectativas partilhadas em constante evolução. Temas, formas, ornamentos e estilos são, simultaneamente, herdados e inventados, e a herança é parte do que torna possível a invenção. ii) Uma alta cultura implica inevitavelmente um reportório, uma acumulação de obras de arte e enunciados exemplares que formam o terreno comum onde o novo e o surpreendente podem germinar. iii) A obra de arte bem-sucedida apresenta um conteúdo exemplar numa forma exemplar. Deste modo está sempre ao nosso dispor, nunca ultrapassada ou substituída, sempre pronta a revisitar.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

...e contrapomos inovação, o novo, surpreendente, a originalidade tão original que ainda não lhe deram nome:

Os artistas tomam de empréstimo procedimentos, formas e reportórios (...) contudo não poderão ter impacto algum se se limitarem a copiar o que já foi feito. O encontro com a individualidade é o que confere à arte a sua importância extrema: nós, o público, colocamos os nossos interesses de lado para nos abrirmos ao que a outra pessoa é, diz e sente. Não é forçoso que seja novo, mas tem de ser, pelo menos, seu. Uma obra é original na medida em que se origina no seu criador.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

Súmula: Roger encontra na natureza da tradição o seu próprio renovar, uma interpretação particular de factos que por si são-nos pacíficos mas concluiríamos diferente. Do outro pilar partilhamos interpretações que são em grande parte coincidentes em autenticidade. Ambos somados e combinados pelo Scruton, perdem-nos na dança do novo ao cânone:

A ser verdade tudo isto, tornar-se-á clara a importância da tradição, e a do seu complemento, a originalidade. Sem originalidade, a alta cultura morrerá, acabando por ceder a gestos repetidos e rituais copiados. Sem tradição, a originalidade não pode existir: é somente por reportar a uma tradição que a originalidade se torna percetível. A tradição e a originalidade são as duas componentes de um processo único, onde o indivíduo se dá a conhecer pela sua afiliação ao agrupamento histórico.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

Passo atrás, convictos em evitar incorporações e fazemos alusões ao vosso melhor entendimento:

A alusão é concebida para que reparemos nela: convoca explicitamente uma obra a acercar-se de outra. A alusão é necessária porque introduz uma referência sem a esmiuçar, mantendo a tessitura da experiência pura. Por outro lado, a alusão cria um contexto social: saberes comuns, referências comuns e símbolos comuns. Quando capturamos uma alusão, acedemos a uma experiência partilhada e a uma comunidade implícita. As alusões exploram a familiaridade, e, ao mesmo tempo, criam-na, unindo a alta cultura a uma teia de ligações múltiplas. As intenções do autor jogam com as expectativas do leitor, e surge, deste modo, um jogo intrincado e coletivo, mas com implicações bastante sérias, cujo teor é uma experiência partilhada da existência.

Este gesto reflexivo de partilha é essencialmente crítico.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

Wink-wink, hint-hint. Fechamos entrada como a começámos: metáforas, clichês, concordando e discordando, discordando e concordando, tensões & autêntico, entretanto com a bagagem necessária para os sentidos a fazer.

Evita-se tudo o que seja repugnante, mórbido, banal ou sentimental; ou, se não evita, é apenas porque não o detetámos – o que por si só já evidencia um declínio do gosto.

É em épocas de declínio cultural que a crítica se torna mais importante. A crítica é uma última tentativa de tomar parte na tradição cultural, manter a perspetiva interna de uma cultura herdada, e travar a degeneração do sentimento, à medida que o clichê e o sentimentalismo tomam o lugar da expressão sincera. Ao despertar a nossa compaixão, fazendo com que ela se destine a formas ocas, o clichê empobrece a vida emocional daqueles que por ele se atraem. Dai a apertada vigilância com que os críticos modernos tentam traçar a fronteira entre a emoção falsa e genuína. Se são bem-sucedidos ou não, é uma questão à qual voltarei. Talvez a distinção entre o genuíno e o falso seja uma farsa.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

Também voltaremos a esta questão.

implicamos