OS POSITIVOS

passando ao lado

edições limitadas às aspirações do consumidor

Mercadinhos: "publishers not named Marvel or DC are already looking up a steep slope" 24 nov 2020 e caem numa de duas estratégias possíveis: o 1) "to straight up position yourself as a media company that happens to also produce comics", ou 2) "to reach readers and retailers in the [direct market], garnering points for staying true to the medium". Os maiores fazem-se à primeira, no qual os comics são essencialmente matéria base para licenças, séries, filmes, bonecos, propriedade intelectual a espremer. Editoras mais modestas sem esses meios trabalham a segunda opção, uma de fidelização do leitor de BD pela BD, que, ironias, arranca página do manual anterior: doubles down na BD mas com produtos exclusivos, edições de colecionador, extras. Uma craze sem novidades que este ano faz as suas rondas entre nós com maior visibilidade. Recente, a reedição 25 anos depois de "Alice" de Luís Louro "em 3 formas distintas" 6 nov 2020 , autor que já antes regressara às edições com duas variações do "Watchers" 16 out 2018. Pedro Cleto compila outras tantas, retalhamos — pun! — para contexto:

Já não um núcleo duro que compra tudo, antes vários 'núcleos' especializados em géneros. E temos edições cada vez mais cuidadas, de melhor qualidade gráfica, de impressão, de acabamentos. Depois dos integrais, das capas com aplicações e texturas diversas, os últimos meses puseram-nos perante aquilo que me parece ser o ‘passo seguinte’ na edição de BD. Filipe Melo e Juan Cavia pré-venderam 100 exemplares de Balada para Sophie, por 100€ com oferta de uma prancha. As primeiras encomendas de Haverá um amanhã, de Véte, tiveram direito a oferta de uma prancha original do livro. As aventuras de Blake e Mortimer há muito que apresentam uma capa variante exclusiva das lojas FNAC. A Seita fez o mesmo para os dois Lucky Luke fora de colecção que editou em 2020 [com] também um ex-libris numerado e assinado pelo autor, com uma tiragem de 199 exemplares. Com o próximo Shangai Dreams acontecerá o mesmo, sendo a tiragem do ex-libris mais reduzida: apenas 99 exemplares.

Para mim, é este o passo seguinte: transformar uma parte de algumas edições em objectos altamente apetecíveis pelos fãs, primeiro, mas também por aqueles que poderão passar a olhar para a BD, como um (pequeno) investimento a médio prazo.
in "O passo seguinte" 26 nov 2020

Antes de terminar exposição, aquela dimensão que nos importa sempre recordar na relação cultura de consumo: as escolhas apetecíveis dos fãs são sempre, antes, decididos pelas escolhas de outros.

Quem faz as escolhas são os editores e acredito que - em cada caso - optam por aquela que - aos seus olhos, aos olhos de quem arrisca o dinheiro - parece ter mais hipóteses de sucesso.
in "O passo seguinte" 26 nov 2020

Metáforas para outro dia.

Uma craze que ataca igual no pólo que se quer oposto ao mercantil puro e duro mas afectado nas mesmas regras do mercado: artes com A grande assim-assim. Exemplo à Chili com Carne na qual espelham o mesmo entusiasmo por objectos de edição especial / limitada. Fizeram-no no passado, ex: “Colecionador de Tijolos” 26 nov 2020 – duplo pun! — com o seu "mini-zine impresso em risografia e limitado a 90 exemplares que acompanhava a quem adquirisse o seu exemplar na nossa loja em linha" mas limitamos ao mais recente da sua série de "genuínos Romances Gráficos ímpares", "Mishima : Manifesto de Lâminas" 25 nov 2020.

Foram feitas quatro risografias para acompanhar a edição impressas na Desisto. Será oferecida uma por exemplar adquirido directamente à Chili Com Carne. Existem 25 cópias para cada imagem, cada uma assinada e numerada pelo o autor.
in "Um patamar histórico na colecção RUBI" 25 nov 2020

Patamares históricos que nada têm de ímpar, particularmente entre bedéfilos. Os que coleccionam por investimento, pese a desilusão que os espera, são honestos nas suas intenções. Os que correm de gostos, razões estéticas e argumentos intelectualmente mais estimulantes, talvez os mais iludidos e maior a queda. Não somos nós que o dizemos, seguem-se leituras-em-curso cruzadas ao "advento da sociedade de consumidores":

Todos os meandros da vida social são dedicados ao consumo. Este, na sua forma habitual, não é verdadeiramente um fim. O ato de consumo destrói o que é consumido e deixa-nos de mãos vazias: as aspirações do consumidor são ilusões perpetuamente recorrentes, e que se desvanecem no preciso momento em que a avistamos, destruídas pela avidez do nosso apetite.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

Marx chamaria a esse desejo de posse de um pedaço de papel particular, fetichismo. Roger usa imagens mais assombrosas.

A sociedade de consumo é, pois, fantasmagórica, um lugar onde os espectros das satisfações são perseguidos pelos espectros dos verdadeiros desejos.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

OS POSITIVOS, perseguição é nome do meio, insatisfação também. Estamos nisto pelos fins, problematizamos os meios para os conseguir. Esses "verdeiros desejos", porque não autênticos até, fuck me se não o devolvemos à tecnologia outra vez:

O domínio dos meios, que emancipou a humanidade do trabalho pesado, trouxe consigo o mistério dos fins — uma incapacidade de responder convictamente à questão do que sentir e do que fazer.
Roger Scruton in "A Cultura Moderna" 1998

No que fazer e sentir não nos falta convicção. Ou outros vão às compras. Falamos quando voltarem.


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