OS POSITIVOS

pequeno ecrã doméstico

( maior mundo cultural )

a arte morre aos 50

Como seria de esperar numa era de extraordinária revolução tecnocientífica [as artes] eram predominantemente tecnológicas. A tecnologia revolucionou as artes de modo mais óbvio, tornando-as omnipresentes.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p488]

Hobsbawm terminou a sua obra sem poder considerar o advento do telemóvel, talvez o mais importante salto tecnológico de facto deste novo século a afectar radicalmente comportamentos humanos e o próprio funcionamento da sociedade e suas estruturas. A conectividade permanente e a possibilidade de aceder ou divulgar informação, fotografias e vídeos em qualquer momento com um aparelho de bolso parece ter conseguido um impacto mais concreto no dia-a-dia dos habitantes deste planeta que todos os avanços recentes em medicina, carros autónomos, ciências aeroespaciais nano-biológic-ó-cenas-várias. Dos hábitos dos indivíduos às instituições que os tutelam, este é um novo mundo que obrigaria o autor d’ “A Era dos Extremos” a novo capítulo. Mas fez-lhe uma introdução perto da sua conclusão no tópico de Cultura e Tecnologia.

A tecnologia transformou o mundo das artes, embora mais cedo e mais completamente o das artes e diversões populares do que o das «grandes artes», sobretudo as mais tradicionais. Na era das mais extraordinárias transformações da vida humana até hoje registadas [...] qualquer criança pode congelar fotogramas e repetir um som ou trecho visual como antes só se podiam reler trechos textuais.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p489]

Num brevíssimo recap histórico da miniaturização da electrónica de consumo — primeiro com exemplos ao áudio e música, depois televisão e vídeo —, aqui podemos ler a mesma evolução actual substituindo sujeitos à história.

Embora o reportório produzido para o ecrã grande em geral sofresse ao ser miniaturizado, o vídeo tinha a vantagem de oferecer ao espectador uma opção teoricamente quase ilimitada do que ver e quando ver. Com a disseminação dos computadores domésticos, o pequeno ecrã parecia estar na iminência de se tornar o maior elo visual do indivíduo com o mundo externo.

Contudo, a tecnologia não apenas tornou as artes omnipresentes, mas também transformou a sua percepção. Dificilmente será possível recapturar a simples linearidade ou sequencialidade de percepção anteriores aos dias em que a alta tecnologia tornou possível percorrer em alguns segundos toda a gama de [conteúdos].
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p488-489]

Artes populares, a transição de formatos, ecrãs pequenos, percepções alteradas, linearidades sequenciais, as crianças, as imagens e os textos, yadda: vcs sabem onde isto vai, não nos vamos repetir. Mas repetimos a tendência que já tínhamos destacado da última vez que o Eric adiantou considerações culturais por altura dos fascistas: aquilo da arte das massas, e o “impacto da vanguarda”.

“não há absolutos” citado in Real Nós: o lado negro da modernidade

As produções que “o grande público não considerava arte” à priori embrenharam-se de tal forma que ganharam valores estéticos à posteriori.

Não apenas porque as fronteiras entre o que é e o que não é classificável como «arte», «criação» ou artifício se tornaram cada vez mais difusas, ou desapareceram mesmo completamente, ou porque uma escola influente de críticos literários no fin-de-siècle julgou impossível, irrelevante e não democrático decidir se o Macbeth, de Shakespeare, é melhor ou pior que o Batman, mas também porque as forças que determinavam o que acontecia com as artes, ou o que observadores antiquados teriam chamado por esse nome, eram esmagadoramente exógenas.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p487]

Aos exógenos, senhores. Hélas, bd-em-pt: nem cumprir a sua parte do programa conseguem.

Esta revolução tecnológica teve consequências tanto políticas como culturais.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos"

Ie, sobram os exógenos, senhores.

Enquanto os cómicos falham os desígnios históricos que devem à casa seguiremos aos pós-modernos, arte bruta[lizada], elites, tha all shitshow numa próxima ocasião. Artes e tech, pergunta-nos o EH: "mas o que aconteceu com estas?"

mais ecrã menos cultura