OS POSITIVOS

atópico

way back in tha day

Folheado o jornal, recordado instantaneamente porque atirámos estas leituras às costas tantos anos atrás: até uma sentinela por jeová converte mais que qualquer variação de panfletos libertários que nos calhe, pelo menos aqueles tentam — pun intended —, aliciam, inventam, e onde são crédulos só lhes dói. No contrário, a ingenuidade de tanto manifesto magoa-nos, a caridade que nos esperam exaspera-nos.

Destacamos três peças.

A BD de Gonçalo Duarte, “Seara” 2020 — da qual nada dizemos, okupados apenas da sua razão de ser – enésima variação do ultraje moral onde $$$ e cães de fila espremem espaços alternativos que só sobrevivem nos entretantos dos interesses instalados. Incentivamos os ditos espaços, mas entrando neles sabendo que são transitórios, nunca adquiridos. A mesmíssima banda desenhada reescrita caindo o pasmo de mais do mesmo e supondo à priori a exacta confirmação desse expectável seria uma vitória, não uma derrota. Conhecem-nos a escola de pensamento: sabemos que já perdemos, por isso não nos podem vencer. (*) In Real Nós, 2014Se é necessário repetir, repetimos: não os podes ganhar, outros farão esse papel. Quem escolhe atacar de fora segue uma guerra de atrito a desgastar estruturas, give ‘em a run for tha money, e escapar para repetir outro dia. Pressupor que razão moral empresta qualquer viabilidade a qualquer projecto é de quem não se farta de repetir erros na mesma História.

A nossa deixa a virar páginas, e aterrados no “Anarco-indigenismo: o anarquismo do futuro?”. Também este roça-nos demasiado próximo das bases, e é pista suficiente que o alistem com o anarco-comunismo ou o anarco-sindicalismo para adivinharem em que espaços se apertará. Como atrás, confundem o que sobra supondo o que se impõe. Resistem, contando que ninguém se importe. Sabem-nos primitivistas de coração, tecnológicos na razão, urbanos na localização: outras estratégias de engrenar a máquina precisam-se. De resto, um deslumbre sem novidade, repetente com décadas. À amostra:

A única oposição ao sistema mundial capitalista

[Os e as anarquistas europeias esquecem ou descuram] muitas vezes que são os povos originários, sobretudo os do continente americano, que lideram hoje a construção de alternativas à ordem dominante. E isto porque as mais importantes insurgências anticapitalistas actuais são protagonizadas precisamente por comunidades indígenas que lutam, muitas vezes sozinhas, contra os grandes interesses corporativos [e políticos e militares]. (...) Considerando a sua potencial dimensão no contexto actual do anarquismo, e a importância fundamental das lutas que trava, o anarco-indigenismo é o único obstáculo às tentações e soluções neo-liberais, assumindo-se como a verdadeira ameaça à política de desenvolvimento que o capitalismo quer continuar a impor ao mundo.
in “Anarco-indigenismo: o anarquismo do futuro?”. 2020

E retornarmos ao Eric o Vermelho uma vez mais para comparações:

Apesar disso, o Terceiro Mundo tornava-se agora o pilar central da esperança e fé dos que ainda acreditavam na revolução social. Representava a grande maioria dos seres humanos. Parecia um vulcão global prestes a entrar em erupção, um campo sísmico cujos tremores anunciavam os grandes terramotos futuros. Até o analista daquilo a que ele mesmo chamou «o fim da ideologia» no Ocidente capitalista estabilizado e liberal da Era de Ouro admitiu que a era de esperança revolucionária e milenarista ainda não morrera. Tão-pouco era o Terceiro Mundo importante apenas para os velhos revolucionários da tradição de Outubro, ou para os românticos, que fugiam da mediocridade vulgar, se bem que próspera, dos anos 50. Toda a esquerda, incluindo os humanitários liberais e sociais-democratas moderados, precisava de algo mais que uma legislação de segurança social e salários reais em ascensão. O Terceiro Mundo podia preservar os seus ideais; e os partidos pertencentes à grande tradição do Iluminismo precisam de ideais, para além de políticas práticas. Não podem sobreviver sem eles. (...) No fim do século xx, esses ideais levaram os liberais europeus a apoiar ou manter revolucionários e revoluções do Terceiro Mundo. (...) Em suma, a imagem de guerrilheiros de pele escura numa vegetação tropical era uma parte essencial, talvez a principal inspiração, da radicalização do Primeiro Mundo dos anos 60. O «terceiro-mundismo», a crença de que o mundo seria emancipado pela libertação da sua «periferia» empobrecida e agrária, explorada e forçada à dependência pelos «países-núcleo» do que uma crescente literatura chamava «sistema mundial», tomou conta de grande parte dos teóricos da esquerda do Primeiro Mundo. [Como sugeriam os teóricos do «sistema mundial»], a inversão desse processo histórico no século XX oferecia aos imponentes revolucionários do Primeiro Mundo uma solução para a sua impotência.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p426 e p433]

Quando mais impotentes mais o exótico parece ajudar a endurecer vontades. Pesem desenvolvimentos dos sessenta ao presente com ideias sobre o futuro e encontram-nos na turminha dos que lá vão pelas ferramentas que encontram à mão, e nessa encontramos demasiadas vezes um telemóvel e afins. É o que é. Traduzido, somos indígenas (dos nossos) locais. Segway à terceira peça.

Último, por nenhuma desconsideração particular e seguindo sequência de apresentação — excepto entre os que começam do fim —, Marcos Farrajota, "Centro Anarquista de Português de Artes Modestas" jun 2020, cartoon a recordar a falecida MMMNNNRRRG. Às duas primeiras peças atrás atravessa transversal a mesma sina: sobreviverão enquanto-e-onde ninguém neles reparar e evitarem irritar os demais. A mnrg sucumbiu à razão oposta: poucos irritou, menos nela repararam.

Cumprimos deveres, tentamos próxima década, seguimos com os nossos exóticos porque... impotentes ante essas vontades.