OS POSITIVOS

« o lado negro da modernidade »

O sistema democrático não funciona se não há um consenso básico entre a maioria dos cidadãos sobre a aceitabilidade do seu Estado e sistema social, ou pelo menos uma disposição geral de negociar acordos consensuais. Isso, por sua vez, é muito facilitado pela prosperidade.
in Eric "o Vermelho" [p141] (*) Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos". Vamos marcar as páginas porque sim - talvez tenhamos de lá voltar.

Interrompemos interrupções para notas com leituras cruzadas que aqui fechamos.

"p.f."

Nazis. Com os gorilas a encher peito, recordamos que até o fascismo tem o seu quê de apelativo às massas, e a melhor forma do esvaziar é notar-lhe as tendências. Entre um Chega a gracinhas de ameaça por putativos – pun! – militantes desse, crises económicas e ideológicas no horizonte, quando os américas se viram ao TiKoKTeKo e se fazem tentativas sérias de restrição aos monopólios da big tech, encontramos paralelos a outras eras modernas para a idade que vale a pena recuperar.

Estas crises foram exacerbadas por uma crise ideológica. À direita (...) esta traduziu-se numa ideia que a modernidade era desejável mas perigosa, que o liberalismo era corrupto ou desregrado, que o socialismo significava o caos, que o secularismo ameaçava as certezas morais – e portanto, por tudo isto, que a civilização precisava de ser salva antes que a modernização pudesse avançar mais. Assim surgiu uma visão da direita mais autoritária da modernidade, que punha ênfase num nacionalismo populista a partir de cima (...), na ordem e na hierarquia. Esses valores começaram a circular de forma generalizada, especialmente entre jovens moralistas – juventude da classe média nos liceus, universidade e academias militares, assim como nas igrejas oficiais.
Michael Man in "Fascistas" [p399]

"Podemos não gostar de nenhuma das suas (...) soluções" mas os grunhos tinham um plano numa época de incertezas –

Eles propunham soluções para as quatro crises – económica, militar (*) Sec.XXI: "sanitária"?, política e ideológica – da modernidade do início do século XX. Apresentavam soluções credíveis para as lutas de classe e crises económicas do capitalismo moderno.
Michael Man in "Fascistas" [p409]

sem razão ou coração

– e até, originalmente, uma verve revolucionária que lhe conseguiu simpatias entre gentes que tudo tinham para serem simpáticos, minus os suspeitos do costume.

Os movimentos fascistas apresentaram elementos dos movimentos revolucionários (*) "Contudo, o cavalo do fascismo revolucionário nem partiu nem correu.", na medida em que continham pessoas que queriam uma transformação fundamental da sociedade, frequentemente com um lado notoriamente anticapitalista e antioligárquico.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p133]

E, nesse tópico, recordar como a inconstância das massas é constante. Sabemos como o trumpas virou o Michigan ou quem mais saltou no brexit: aqueles que ficaram para trás, já ultrapassados por finais do século passado:

No fim do século XX, a desintegração dos movimentos proletários trabalhistas e socialistas clássicos libertou o chauvinismo e racismo instintivos de muitos trabalhadores manuais. Até então, embora longe de serem imunes a tais sentimentos, eles hesitavam em manifestá-los em público, por lealdade a partidos apaixonadamente hostis a tal intolerância.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p127]

E dessas contradições também o fascismo nos permite outra importante lição de história. O século que passou foi todo ele consequência da guerra total contra os sistemas totalitários, principalmente na sua ignomínia maior, putas-nazis. Sem qualquer exagero, uma luta de vida e de morte entre sociedades liberais e democratas vs um cancro maligno intentado às mais extremas barbaridades contra a humanidade. E, no entanto, em muitas outras partes do mundo, não. Roda a garrafa, e afinal olha quem é o cabrão maior:

Contudo, para a maior parte da Àsia, da África e do mundo islâmico, o fascismo (...) não era e nunca se tornou o principal, e muito menos o único, inimigo. Este era o "imperialismo" ou "colonialismo", e as potências imperialistas eram, na sua maioria, as democracias liberais: Grã-Bretanha, França, Países Baixos, Bélgica e EUA.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p174]

"a luta anti-imperial e a luta antifascista tendiam, portanto, a puxar para polos opostos"

Spoiler: o antifascismo e o anti-imperialismo convergiram na promessa da transformação social do pós-guerra, já como correu findadas as hostilidades todo um outro livro em contrários. O nosso ponto hoje: não há absolutos. Não há certos, sobejam certezas. Não há autoridade, mas diversidade. Não há elites, mas multidões. Não se destaca o extraordinário, infesta o ordinário. Mesmo ponto recorrendo às artes para da metáfora:

O impacte da vanguarda no cinema comercial sugere já que o "modernismo" começava a deixar a sua marca na vida diária. Fê-lo obliquamente, com produções que o grande público não considerava "arte", e que consequentemente não tinham de ser julgadas por um critério de valores estético à priori: primeiramente na publicidade, no desenho industrial, na arte gráfica comercial e em objectos genuínos.
Eric Hobsbawm in "A Era dos Extremos" [p186-187]

É como se embrenha no dia-a-dia que importa, senhores. E meios de comunicação de massa, industrial/comercial preeminentemente visuais e "genuínos" parecem ajudar (*).


*) Minus os critérios estéticos.