OS POSITIVOS

« no man is an island »

Roubamos título a uma das famosas linhas da 17ª devoção do "Devotions upon Emergent Occasions" 1624 de John Donne – tão famosa que relega o seu autor para o canto dos john doe's, mais imaginarão a dita como ditado popular anónimo ou ditame new age, menos a suspeitarão de prosa seiscentista em delírio enfermo. Igualmente famosas, as linhas que fecham:

And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee.
John Donne in "Devotions upon Emergent Occasions" 1624

A anterior recorda-nos que estamos todos ligados neste mundo, com algum raspanete à mistura mas igual dose de optimismo se assim o escolherem: redenção é possível. A última desliga a luz e fecha as portas atrás. Dramático. Com maior sermão, ainda assim um aviso à vida que queres, mesmo se pela contemplação donde essa acaba. Finalmente, não tão famosa como as anteriores, esconde-se entre elas a terceira (“♪ 3 is a magic number ♪”) máxima a servir-nos de base hoje:

Any man's death diminishes me,
because I am involved in mankind.
John Donne in "Devotions upon Emergent Occasions" 1624

Ocasião à comiseração, pandemias & religião, com os nossos sinceros pedidos de desculpa por qualquer coisinha: temos segway ao último install das nossas penitências públicas – para este ano pelo menos, somos um poço de vícios e travessuras, dêem-nos ecrã e esse livro também se escreverá.

Esta entrada talvez a mais difícil: aquela que pedimos desculpa às gentes que evitamos, enxotamos, hostilizamos. Sabemos que não há eloquência para amenizar o desagrado provocado, assim despachamos rápido: mah bad!

Poucos terão sido mais alvo do nosso mal-dizer escarnado que aqueles que deambulam por todas-as-coisas-cómicas, particularmente os que tratam das miudezas alternativas que a mais ninguém importa. Se os heróis-em-collants não nos conseguem um bocejo – damos-lhe tanta atenção como aos marcianos –, vejam-nos precipitar fogueiras e chamar os bravos à guerra, dançar freneticamente ao som dos seus tambores, atirar pedras e brandir os nossos paus, se algum autor ou publicação que tenha tudo para gostarmos é avistado demasiado perto da nossa costa e falhe em fundear expectativas, possivelmente impossíveis. Não somos seres sociais, admitimos, civilizados, tão pouco. A cultura chega-nos com as marés, e como o protagonista daquela história (*)"Alone" 2008 de Christophe Chabouté que viveu toda a sua vida num farol a imaginar os objectos que lê no dicionário que abre à sorte, também inventamos propósitos aos artefactos que nos chegam, diferentes dos intencionados pelos seus executores (*)“Executores”, como em: “aqueles que matam” as peças. ah ah! e dessa discrepância o azedume. Se somos muito aggro, é porque somos bué-da-emo. Queremos-vos o melhor, mesmo se insistimos em fazer-vos a visita guiada do pior.


Last-not-least, no tópico de comportamentos anti-sociais, este poderá ser uma boa acasião para explicar porque não somos grandes em companhias e podemos sobreviver — prosperar — em confinamento sem saltar um heartbeat. "Nenhum homem é uma ilha" diz o outro, mas nesta ilha somos muitos.

right?