OS POSITIVOS

bom trabalho

art lesson 101: this will be dinner

À entrada que se segue neste nosso diário complicado pelo fim do mundo como o conhecemos não será indiferente que vos fale um ex-docente universitário que demorou 16 anos a convencer-se que tinha que haver mais na vida... e a quem, ó ironias, imaginado-se longe dessas realidades recebe na semana passada um “vou-te realocar à equipa de apoio elearning. Vais ficar c responsabilidade produção materiais.” A nossa deixa portanto.

No decurso da pandemia do Vírus Corona decidi voltar a dinamizar este blog.

Foi necessária uma pandemia, mas hey, “who cares about tha why?” Outros há que também voltaram atrás nos seus bravados do abandono ao digital e com mais ou menos fanfarra estão iguais ao de sempre: postar online & suprimir comentários nos ditos. Anyhooos, mudando marcos para os bons, Marcos Mendes no Diário Rasgado regressa com o texto que partilhamos.

Se por um lado o chamado e-learning oferece algumas vantagens evidentes neste contexto de pandemia, por outro lado anuncia o fim da universidade. De facto para que servem os edifícios com salas de aula, anfiteatros, pessoal admnistrativo, propinas e tudo mais, quando a educação transita para a web? Isto é algo que nunca vi reflectido nas reuniões sobre ensino à distância, nas universidades em que lecciono.
in "Bom trabalho" 20 mar 2020

A Universidade e o e-learning

Cada vez mais submetidas ao falso consenso dos burocratas, maravilhados com a possibilidade de cortar despesas e apostar no out-sourcing dos seus docentes (reduzidos à categoria de activos, ou mercadorias do mundo empresarial), as universidades são hoje o maior obstáculo à livre circulação de ideias. Assim se explica esta passividade.

Mas eu na qualidade de docente precário que sempre fui, (como a generalidade dos meus colegas abaixo dos 50 anos), sou tão leal às instituições como elas são comigo. Não vejo sentido em restringir o acesso dos conteúdos digitais que produzo aos alunos inscritos nas minhas disciplinas. O meu conhecimento e a minha práctica enquanto artista e docente jamais estarão restritos por senhas de acesso, ou a plataformas digitais específicas. A minha escolha de difusão deve ser tão circunstancial como descomprometida, sob pena de me fechar numa redoma de contactos electrónicos, limitada por terceiros.

Esta crítica ao e-learning na forma como ele é entendido pela academia não pretende menorizar a importância da acessibilidade online de diferentes conteúdos científicos, pelo contrário. Acredito e bato-me por essa acessibilidade, aposto no seu incremento, mas não me peçam para a tornar exclusiva a assinantes, paga a prestações (ou a propinas neste caso). Se assim for, a docência passa a ser um modelo de negócio, e as universidades serão rapidamente substituídas por agências publicitárias, que melhor servem os interesses do docente-empreendedor.
in "Bom trabalho" 20 mar 2020

Rant ao docente-empreendedor acaba ali, propostas começam aqui, com exemplo ilustrado de exercício feito em aula.

Por fim cabe-me fazer a apologia do ensino humanizado, que promove relações directas entre pessoas, no aqui e agora de uma sala de aula. A banda desenhada que acompanha este texto foi feita a pensar nisso. Sou artista e professor de desenho. A minha práctica assenta acima de tudo na capacidade empática e as imagens que se produzem em aula apenas por defeito sobrevivem no mundo virtual. Por mais vídeos didácticos que vejamos sobre desenho, pintura ou banda desenhada, aprenderemos sempre melhor com um professor ao nosso lado, intervindo no decurso dos exercícios, desenhando no nosso desenho, colocando questões à medida que elas surgem e não à posteriori, depois do exercício estar terminado. Como diz o meu amigo, artista e professor Nuno Sousa, “o desenho é performativo” e o seu ensino ainda mais...
in "Bom trabalho" 20 mar 2020

Reconhecemos: nas nossas despedidas dissemos algo parecido.

Algum humor ressaltará volta e meia.

Acreditamos que o ensino é mais eficaz quando não é uma experiência aborrecida para discente e docente.

E se publicamos aqui powerpoints temos que fazer o mesmo aviso à navegação que fazemos nas aulas. 1) Estes exemplos são do arranque do ano e introdução à matéria: se gostas e queres mais não faltes às mesmas para o seu desenvolvimento 2) os powerpoints são apenas tópicos para manter os eyeballs dos teens à frente no quadro e longe do telemóvel e facebook. A aula está no que o professor diz, nas referências que faz, no diálogo com o aluno e nas implementações práticas da matéria sobre os projectos, não no que está a decorar a tela do projector enquanto falo.
in Real Nós nov 2016

Fun fact: quando saímos destas acusámos crises planetárias de nos obrigarem sempre a voltar às aulas. Setembro 2001, economia 2008, contra os nossos receios sobrevivemos à eleição do Trumpas 2016 por isso hell!: não será o fim da civilização moderna que nos trará de volta!

belo trabalho