OS POSITIVOS

safe trip, bro/as!

gimmie that, take this, rocknroll

E de unsavory places seguimos trip às conexões canadenses, on tha safe side:

Sai este fim-de-semana no TCAF um dossier especial "Portugal" com BDs inéditas de vários artistas.
in "TRIP #10 portugal spleen special" 9 maio 2019

Entre outros, "a saber: Gonçalo Duarte, Francisco Sousa Lobo, Cátia Serrão, Mariana Pita, Tiago Baptista, Hétamoé, Daniel Lima, Bruno Borges e Xavier Almeida" — seguidos de mais dossiers como outra "international section of new comics art" que se estende do Irão à Austrália ou um terceiro focus "on new Quebec comics with local artists" antes de concluir com uma French section de ensaios e entrevista featuring "french comics maverick Jean-Christophe Menu conducted by Jimmy Beaulieu" (*) in "TRIP No 10" 5 maio 2019.

Porque vos importa? Porque no supramencionado blogzine tiveram uma feliz concepção de serviço publico ao partilhar o texto da co-coordenadora do dossier Sara Figueiredo Costa no qual, ao contrário de ocasiões anteriores que lhe apontámos algum optimismo excessivo nos escritos a colectâneas para turista ler, SFC surpreende pela — cof cof, pun intented — positiva: num passe raramente cruzado aos cómicos nacionais, a sua intro está pejada de um teor político e social que simplesmente não podemos não destacar aqui. Da "expansão marítima, o fado, o futebol", colónias e escravatura, "os mesmos temas de sempre, pisados e repisados para melhor se adaptarem a uma narrativa onde somos sempre heróis", às eternas desilusões: passe-palavra!

A ideia de uma unidade nacional continua a alimentar ilusões.

OS POSITIVOS: não unitários. E aquilo dos rótulos em alimentação. SFC: o nosso obrigado.

Temos uma meteorologia invejada, muitos turistas, companhias low-cost, morangos no Inverno e toda a espécie de melhorias tecnológicas inimagináveis há uma ou duas décadas. Depois da Revolução dos Cravos, a 25 Abril de 1974, passámos a ter democracia, coisa que por vezes parecemos esquecer. Com a democracia vieram as condições sanitárias que faltavam em muitos lugares, a literacia, o acesso à saúde e à educação, os direitos que a ditadura negou durante décadas. Ainda assim, não estamos livres de problemas, tragédias e acidentes, como as centenas de mortos nos incêndios de Verão, a disfuncionalidade do sistema nacional de saúde, o racismo estrutural numa sociedade onde continuamos a achar que há pessoas que não merecem viver aqui, o facto de termos canais televisivos que podem dedicar quase uma hora às notícias do futebol e apenas um ou dois minutos à guerra na Síria, por exemplo. Talvez devêssemos pensar mais na nossa vida, e no modo como a vivemos em comunidade, em vez de nos dedicarmos a caçar unicórnios... E de que unicórnios falamos? Entre morangos no Inverno e juízes machistas a quem não parece mal que uma mulher adúltera seja vítima de violência doméstica, temos de tudo. É capaz de ser este o nosso spleen, cheio de sonhos de grandeza nas Eurovisões e nas Copas do Mundo e cheio de gente expulsa da casa onde sempre morou para alimentar a máquina infernal da especulação imobiliária.
in "TRIP #10 portugal spleen special" 9 maio 2019

Os barcos onde navegamos hoje são instáveis. E navegamos todos, os que nunca pisaram um convés, os que andam entre Portugal e o estrangeiro em rotas aéreas low-cost para ganhar a vida, mas também os que tentam chegar à Europa arriscando a vida para fugir da guerra, porque essa ideia de uma nação com as suas fronteiras há muito que se esboroou, para o bem e para o mal. Vivemos aqui, alguns somos daqui desde sempre, outros passámos a ser, porque é aqui que estamos. E aqui é em Portugal, mas não deixa de ser nesse não-lugar criado pela internet, pela globalização, pelo capitalismo, e também pela vontade de conhecer os outros, pela necessidade de circular, pela ânsia de abrir mundos sem ser à força. Temos bom tempo e temos canções, temos corrupção e dificuldades económicas, temos turistas e muitas interrogações.
in "TRIP #10 portugal spleen special" 9 maio 2019

Já da BD per se, bem, não podemos esperar revoluções à primeira, segunda, terceira, perdemos conta...

Quando começámos a pensar numa antologia de autores de banda desenhada portugueses, preferimos alterar o ângulo do olhar. Ver outras coisas, pensar de outra forma, questionar mais do que enaltecer. E procurar gente que quisesse assumir essa liberdade de olhar. Esta não é, por isso, uma antologia institucional, preocupada com a suposta representatividade dos autores incluídos ao nível do estilo, do reconhecimento ou da frequência com que publicam relativamente à produção portuguesa de banda desenhada. Ainda que aqui se incluam autores e autoras que seguramente integrariam uma antologia como essa, o que pretendemos, acima de tudo, foi reunir um conjunto de autores contemporâneos de banda desenhada que respondessem a esta ideia de um certo ar do tempo.
in "TRIP #10 portugal spleen special" 9 maio 2019

E esse ar é cada vez mais irrespirável — onde as metáforas se aguentem... A totalidade da coisa podem lerem no post original 9 maio 2019, um resumo competente da BD pt passado-ao-presente que referenciaremos futuramente até que outro o actualize. (*) Oh, I dunno, algo que inclua comix et digitalis, dizem que é uma cena agora... Parece que MF participa igualmente desse dossier, mas o serviço público não chegou para mais, talvez outro dia?

a viagem continua