OS POSITIVOS

há quem pense

« para além dos prazeres efémeros »

Começa hoje o XV Festival de Beja e (alguns de) vocês não precisam do downer habitual que os P+ são. Aos outros, o vosso guilty pleasure para o fim da noite, alternativa ao par de livros que compraste e não vais ler e começas a interrogar-te do sentido da vida e se esse passa pela BD - e quem não segue as teses pode parar de ler aqui.

Do que dates from the 1940s and on into the ’50s, e do passado ao futuro: coincidências, encontrar um Bertrand (Russell) já fora de circulação acabados de findar um Charles (Taylor). De 1951, mas podia tê-lo escrito ontem:

despertem, senhores...

Da justa compreensão do próprio interesse um pequeno passo a autenticidade, mas sem enunciar podemos colher outras pistas enviesadas – ainda que tenham de semicerrar os olhos, se fosse fácil não teria piada. Dos i) dilemas do homem moderno e ii) sua causa / consequência na evolução tecnológica. E iii) aquilo dos três.

“Três espécies de conflito”

É próprio da natureza humana estar em conflito com qualquer coisa.

  • 1º entre o homem e a natureza;
  • 2º entre o homem e os seus semelhantes;
  • 3º entre o homem e ele próprio;

OS POSITIVOS: tratamos todos os conflitos por tu.
Do início do livro a introdução necessária - completem agricultura – produção mecânica – produção digital:

Nos fins do século XVIII o homem principiou uma nova era, que provocou na sua vida mudanças tão fundamentais como o advento da agricultura; refiro-me, bem entendido, à produção mecânica e à aplicação da ciência na indústria. Desde a sua invenção, revelou-se corno uma força revolucionária verdadeiramente espantosa. Ela agiu somente nas relações do homem com a natureza, mas ao revolucionar essas relações, destruiu o velho equilíbrio que existia nas relações do homem com outros homens e consigo próprio. As revoluções que ela exige, nestes dois domínios, estão ainda por definir, e essa incerteza é em grande parte responsável pelas actuais perturbações do mundo.
Bertrand Russell in "A Última Oportunidade do Homem" 1951

E como demonstramos vezes sem conta pelos cómicos, enquanto espécie começamos sempre equipados com a mentalidade da época que nos é anterior, ainda que alguns não desdenhem escapar-lhe.

Porém, muitas pessoas, a maior parte, não adquiriram ainda outra ética nem mesmo talvez tenham rejeitado teoricamente o sistema antigo. Mas o certo é que tal sistema perdeu sobre elas a sua autoridade. Na realidade, não procuram respeitar as normas antigas.

E como aos cómicos, queremos convencê-los que melhor é possível.

Eu gostaria de convencer os homens para quem a moral tradicional é letra morta e que, no entanto, sentem a necessidade de um objectivo sério na vida para além dos prazeres efémeros, que há uma forma de pensar e de sentir, nada difícil de adquirir a quem não tenha recebido uma educação oposta.
Bertrand Russell in "A Última Oportunidade do Homem" 1951

E regressados à autenticidade - hey, avisámos no início...

Há muitos homens e mulheres que se imaginam emancipados das algemas da moral antiga, mas que, na realidade, só o estão nas camadas superiores do seu espírito. Nenhum género de vida pode triunfar enquanto for apenas mera convicção intelectual. Tem de ser profundamente sentido, tornar-se crença íntima e dominar mesmo os próprios sonhos.

Por tais razões, eu desejaria oferecer ao mundo alguma coisa que dificilmente pode merecer o nome de ética, pelo menos na antiga acepção do termo, mas que, apesar disso, salvasse os homens da dúvida, dos remorsos e da condenação dos outros - uma filosofia que encorajasse todos os impulsos criadores e generosos.
Bertrand Russell in "A Última Oportunidade do Homem" 1951

Ainda se lembram do título do livro do senhor anterior? Anywhoos, não somos nós que o dizemos, apenas registamos que esta publicação saltou há poucos dias de uma prateleira para as nossas mãos quase por acidente. O take away:

A vida virtuosa, tal como a concebo, é uma vida feliz. Não quero dizer com isto que quem for virtuoso será feliz, mas sim que quem for feliz será virtuoso. O homem feliz pode viver a vida obedecendo aos seus impulsos, tal como uma criança, porque a felicidade torna os seus impulsos fecundos e não destrutivos.
Bertrand Russell in "A Última Oportunidade do Homem" 1951

Continuaremos, fecundamente destrutivos, os nossos impulsos de criança feliz.

há quem pense demais