OS POSITIVOS

BD com C grande?

problematizando sem António Guerreiro

"back with the stories others don't, won't or can't write!"

Summer time, silly times, precisamos de substância: procuremos problematizar.

E a relação bd / cultura é problemática como poucas outras. Ou extremamente simples de enunciar, dependendo a quem perguntam, desembaraço que não lhe abonará favores – à bd e ao simples. Na ressaca de várias semanas sem António Guerreiro – agora que o Público já não o é e trocam-se leitores por subscritores – não resistimos a imaginá-lo discutir questões menores: banda desenhada escreve-se com "cê" grande ou pequeno? Desconhecemos desse conhecido jornalista & ensaísta qualquer relação aos quadradinhos (*) -

*) "Tal como presumem, acerca de banda desenhada não me vem nada à mente. s/ atribuição

- comics, bandes-dessinées, gibi, fumetti, tebeos, yadda-y-y, desconexo que lhe torna qualquer nota de nota mais interessante aos que desperdiçaram dedicaram as suas carreiras em missão de enobrecimento dos cómicos e a quem podemos felicitar o bocejo geral de ninguém hoje levantar cabeça com curiosidade para espreitar os que erguem (também esses sem o mesmo brio e sentido de desafio de outrora) a bandeira do habitual credo d"a banda desenhada não é só para crianças". E, no entanto, certamente não é ainda para os crescidos, parece-nos. Façamos nossas as suposições destes académicos cultó-populares que vão palmilhando currículo nessas órbitas: como pesa a banda desenhada entre quem se move com à-vontade nas atmosferas culturais mais rarefeitas?

Hélas sem respostas para vos dar mas vcs conhecem-nos: precipitemos às conclusões. Let´s put our silly hats on, shall we? Voltemos pois, uma vez mais, à bd vs cultura (and anarchy) com o habitual disclaimer: OS POSITIVOS, não se confundem com o que de melhor já foi pensado e dito. Dito isso, pensamos que...


I


Aos olhos dos poucos que lhe seguem rasto nessa variante, a banda desenhada tem crescido em respeito na academia e universos informados por esses domínios, tipicamente nas duas orientações previstas: a) arte, na especialidade, b) cultura, no geral, com aquele pequeno "senão" de ainda não conseguirem precisar definição aceite a todos para "banda desenhada" – mas essa atiramos para c) academês, universal.

Fora-de-campi já não são assim tão raras as menções alcançadas que lhe granjeiam uma certa dimensão artística ou, pelo menos, emprestam ao ofício um certo verniz intelectual que – importante: dentro de um determinado intervalo implícito de cumplicidade e tolerância promíscua em miscigenação de valores (ie, no "faz de conta") – a equipara a artes maiores. Maiores os horizontes, é-nos ainda exercício difícil separar esta arte da sua dimensão mais generalista: cultura, a contar de baixo. Popular, a bd não exige a mesma virtuosidade que se quer acima do entretenimento a consumo. Quando tomba exclusivamente à peça artística, têm–se excluído da primeira, quando firmemente identificada nessa ninguém a alista na segunda, uma dualidade que lhe tolhe desígnios entre a alta cultura.

Com um pequeno benefício da dúvida quando lhe chamam graphic novel: estará o empecilho num nome? Necessariamente no embrulho: quer nos temas quer nas técnicas dá-se uso ao que de melhor se exige nas restantes artes. Algo nesses usos assim combinados atrapalha o que com eles se consegue alcançar, excepto se mudarmos o livro de secção.

Popular como o cinema, do qual mais se aproxima em semelhanças comparáveis, nunca parece conseguir justificar o mesmo gravitas que esse alcança. Podemos encontrar um painel a debate com comics e cinema, outro com cinema e pintura, nunca comics – cinema – pintura. Se, por alguma razão a excepção à regra se dá, o alinhamento comics – cinema – pintura implicitamente excluirá a literatura, música, arquitetura, afins, uma exclusão que mais facilmente se depreende em sentido inverso: qualquer painel que conte afins, arquitetura, música, literatura, pintura e cinema liminarmente não sobe ao pódio comics. Devemo-lo à origem do meio (sátira subversiva e leitura rasteira) ou à originalidade dos meios (texto / imagem combinados), ao seu formato (publicação efêmera), forma (sequencial que se quer linear mas que à página e, pior, ao spread, admite que não e assim o trata), finalidade ($$$) ou fins (mastiga e deita fora)? – e quem disconcorda desta definição de BD deve retornar ao c) academês.

Abrastraindo-nos ao momento, a última peça noticiada 14 maio 2019 entre nós vai para um "Abstraction et bande dessinée" de 888 páginas - algum simbolismo? - no qual participam "os portugueses Cátia Serrão, Diniz Conefrey (BDs) e Pedro Moura (ensaio)". Mais do que o número de páginas, fazemos reinterpretações na discrepância que pesa em bd e Cultura ao título corrigido – assim como de alguma imperatividade abstracionista ao seu funcionamento sem o qual podiam encurtar descrição inicial: "Ceci n’est pas un livre sur la bande dessinée abstraite."

vá-vá! nós também erramos e o goddam autocorrret faz o resto a mudar sentidos, godbless
¯\_(ツ)_/¯

A sinopse no sítio oficial, mas se já nasceste depois do francês cair em desuso seguem-se destaques nossos:

Combining from the outset [what] might seem heterogeneous: comics with distinctly different aesthetics, texts using clearly distinct perspectives (...) in such a way that the two terms are inflected by additional operative distinctions. Ideally, Comics and Abstraction seeks to offer a meeting place between learned and popular culture; art history and comic strip research; literature, poetry, drawing and writing; major art and minor art; highbrow, lowbrow, nobrow, etc.
in "Abstraction et bande dessinée" 2019

É naquele "etc" que nos podem encontrar e antes de continuar com "additional operative distinctions" aos cómicos uma nota à Uma Bedeteca Anónima: a revelar-se mais interessante que muitas outras leituras online. Mais pertinentes em média mesmo se bite-sized – de morder, mas poucas vezes: traduzam antes no bit digital ou substituam por twitter-sized eventualmente... – , além de um ou outro rebuçado ocasional como as omissões de MF em LGBTI+:

O Farrajota pensa que é muito esperto mas também falha! Como todos nós, vá!
in "«se há uma coisa que não posso suportar, dizia Victor Hugo quando era testemunha de qualquer coisa especialmente estúpida ou má, é pensar que tudo isto amanhã há-de ser história»" 15 maio 2019

Vá, fica para a história que nitidamente toda a gent eerra.


II


Cultura. Poderia A-to-tha-G elucidar-nos? (*)

*) "E sobre Cultura, seja com C grande ou c pequeno, quase nada." 'nother random cite s/ atribuição

Quase tão citado neste espaço como o Jaques Barzun’s "Da Alvorada à Decadência", de certo modo tomou–lhe testemunho entre nós quando também essa viagem chegou ao seu fim – cabendo-lhe mais em decadência do que alvorada, mas acusamos os tempos, não o cronista (e, coincidências!, até os inscrevemos a ambos numa mesma entrada). Crítico dos media numa verve que nos colhe favores e com uma crónica semanal intitulada "Acção Paralela" a congeminar militâncias alternativas que se estendem da cultura ao ambiente a outros temas a que somos sensíveis –

Os jovens começam a ter uma consciência da finitude do mundo a que foi poupada a geração festiva dos Fat Pigs
in "Sê jovem e cala–te" 26 abr 2019

– uma consulta rápida aos seus textos (cingimo–nos ao início do ano e início das restrições para efeitos de amostra) devolve–nos um emaranhado referências que semanalmente nos sinalizava início de festa. Do seu modus operandis notamos à vossa atenção o name droppin’ que combina em associações impossíveis de prever assuntos da semana com escritores, críticos, filósofos, realizadores, autores diversos, economistas, universitários, artistas, teóricos, o fotógrafo de serviço:

AG in Público jan a abr 2019

Na "A História como desporto de competição" 4 jan 2019, a propósito de Rui Tavares, o filósofo Odo Marquard, Reinhart Koselleck, o poeta romântico Adelbert von Chamisso. N'"A impossível liberdade de expressão" 11 jan 2019 uma longa e inflamada discussão sobre indivíduo sinistro que também não merecerá nome entre nós, com Stanley Fish cronista do NYT, e John Stuart Mill. "A ilusão das elites" 18 jan 2019, Marcelo e as ditas, o sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto. N' "A literatura mundial em auto–extinção" 25 jan 2018 Michel Houellebecq, Goethe, Eckermann, Marx, Emily Apter professora, Franco Moretti professor, Eric Auerbach grande romanista alemão. "O pensamento ao negro" 1 fev 2019, de racistas a raças de paneleiro e discursos anti–racistas muitas vezes cheios de puritanismo abstracto, Genet, Guy Hocquenghem, fundador, Alain de Benoist, Bernard–Henri Lévy e André Gluksmann. "A televisão e as questões de moral" 8 fev 2019 e um programa de pactos quebrados na SIC, Xerazade, personagem, o escritor americano Don DeLillo, cineasta Gillo Pontecorvo, realizador francês Jacques Rivette, Godard, outro. N"O novo analfabetismo" 15 fev 2019, hackers em treinos offshores, Vilém Flusser, visionário. "A escola em competição desportiva" 22 fev 2019, mais desporto despropositado, rankings escolares e Nietzsche, homem novo e livre que escreveu livros. In "Livros pouco livres" 1 mar 2019, "A Capital" por Robert Menasse, um dos grandes autores austríacos contemporâneos. "O que fazer dos pobres?" 8 mar 2019, pinga amarga e a classe média, John Locke. N"A cidade e a metrópole" 15 mar 2019 faltam casas e a polis grega, Rem Kolhaas, famoso arquitecto holandês. "Um género de ideologia" 22 mar 2019, géneros de géneros, queer theory, Eve Kosofsky Sedgwich, Judith Butler, Rosi Braidotti, a figura tradicional e emblemática do "maricas" da aldeia e um deputado do PSD. O "Artista-escritor e vice-versa" 29 mar 2019 é Pedro Proença e um pequeno livro de Pedro Eiras, Greenberg, purista visual, Lessing, William J. T. Mitchell, teórico. "Marcelo e o dom carismático" 5 abr 2019, o dito de Sousa expressado por Ângela Silva com fotos de Tiago Miranda, mitos, Roland Barthes, Mitterrand fotografia célebre, Macron patética figura, Max Weber...

Chegados aqui fecham–se os acessos mas espreitámos debaixo das saias do Público na sua peça à Votre Dame porque França e Cultura são assim-óóó, e citam–se Joseph Beuys, Anselm Kiefer, Enzo Cucchi e Jannis Kounellis, director Jean–Christophe Ammann, Victor Hugo, Baudelaire, Balzac, Proust...

Ora.

Com um cânone que arrola figuras tão díspares como Rodolphe Töpffer, Winsor McCay, Jack Kirby, Alan Moore, Robert Crumbs, Dave Sim, Daniel Clowes, Bryan Lee O'Malley, Carl Barks, Chris Ware, Lorenzo Mattotti, Charles M. Schulz, Osamu Tezuka, Brandon Graham, Joe Sacco, Kate Beaton, Matt Kindt, Chester Brown, Los Bros Hernandez, Max ou Max Andersson, Gary Panter, Moebius, Lynda Barry, Seth, Harvey Pekar, Charles Burns, Craig Thompson, Kim Deitch, Jason Lutes, Hergé, Eddie Campbell, David B., Jim Woodring, Paul Chadwick, Lewis Trondheim, Tardi, Peter Bagge, Emil Ferris, Harvey Kurtzman, Goseki Kojima + Kazuo Koike, Ed Piskor, George Herriman, Bill Watterson, Michael DeForge, Julie Doucet, Ben Katchor, Adrian Tomine, Joshua W. Cotter, David Mazzucchelli, Nicolas de Crécy, Stephen Collins, Jeff Smith, Martin Rowson, Art Young, Benjamim Marra, Charles Schulz, Hewlett & Martin, Joe Dale, Tony Millionaire, Guy Delisle, Stan Sakai, Terry Moore, Gilbert Shelton, Ant Sang, Derf, entre incontáveis outros (i), o inevitável Art Spiegelman ao qual se somará, quiça invariavelmente, Nick Drnaso via a sua nomeação ao Man Booker Awards, alguma vez AG associará impossivelmente um destes autores entre as suas crónicas de fim-da-semana?

Gostaríamos de ler tal texto (ii) mas arriscamos que não, sem grande risco. Arte, cultura, banda desenhada. À grande, cê grande, bê e dê pequeno...?

Não o sabemos: faltaram-nos letras (iii) para conseguirmos o A-to-tha-G.


i) Por nenhuma ordem em particular mas podemos ter carregado em preferências pessoais sobre outras mais óbvias. Noutra oportunidade poderemos exemplificar a multiplicidade de disparidades canónicas por idades de leitura, época do boneco, escola de estilos, formatos, géneros, editoras, até geografias e outros - há de tudo para todos, se a lista não te agrada substitui por um all star underground, work for hire da DC, só franco-belga da década que mais te agrada, sul-americanos exclusicamente preto-e-branco, webcomic pós-tumblr e/ou quatro ou cinco gatos-pingados que só as suas mãezinhas e um editor da Chilli (xtra) conhecem.

ii) Mas than again, gostaríamos de voltar a entrar no hábito de lhe ler crónicas, ponto. Os. Três ao todo... Mas teimosos de hábitos, deixámos do recomendar aos miúdos e cumprimos com exemplo enquanto estiver atrás de uma paywall.

iii) "Três, ao todo".

xtra) Início de fds: whaaat?

mundos que mudam