OS POSITIVOS

votre dame

Apetece continuar de ontem: "systems look immutable until they suddenly disintegrate", provado nas longas filas de carros parados estrada fora à espera de uma gasolina que não está lá (contámos algumas no caminho…). Mas na procura de combustível para nos queimar, Notre Dame é melhor aposta.

The fire at Notre-Dame happened on the day that the country’s troubled president was supposed to explain how he intended to address the demands of the “Yellow Vest” movement. An anguished, restless nation has struggled to cope with the monthslong uprising and with the frayed social safety net that spurred the protests. Generations that had come to rely on this social safety net, as a matter of national pride and identity, see it going up in smoke. The symbolism was hard to miss.
in "A France in Turmoil Weeps for a Symbol of Paris’s Enduring Identity" 15 abr 2019

Um pesar que podemos partilhar na sua variante cultural & histórica onde resulta algum engenho humano: os vitrais, o órgão, os sinos, a arquitetura, as gárgulas, yadda. E com os seus interiores em transição acelerada da prática em local de uso à prateleira em exposição no museu (Louvre), esta reapropriação cultural particular em curso segue o caminho que se desejaria.

Dito isso, e a pacificar preventivamente alguma objeção recordamos que as modas mudam. Se agora (com bónus à autenticidade / aura) -

In many corners of social media, the atmosphere was funereal. Even people who could see the fire with their own eyes viewed it through their phones. They were “trying to capture in a few pixels what had stood for centuries”.
in "The world reflects as Notre-Dame burns" 16 abr 2019

- antes eram os próprios parisienses a tenta pegar fogo àquela treta:

During the Revolution, insurgents ransacked the cathedral, plundering treasures and decapitating statues of Old Testament figures on the building’s facade, which they mistook for portraits of French kings.
in "A France in Turmoil Weeps for a Symbol of Paris’s Enduring Identity" 15 abr 2019

Entre os seus tesouros estão as relíquias: um pedaço de cruz, um prego e uma coroa de espinhos que atribuem a vcs-sabem-quem, uma túnica de rei cruzado que trouxe a coroa a título de garantia para um empréstimo: todo um outro género de engenhos tristemente humanos. Não nos queremos chatear com o pároco e congregação mas se a escolha cai entre uma estrada nova a substituir o caminho de cabras que atravessa a aldeia ou um refresh à capela lá no monte, a nossa opção é fácil e não se lamentem demais: nada estará cá para sempre e essa decadência inevitável implícita faz parte do encanto – é mesmo um incentivo a cuidar do que há enquanto há para continuar a haver, porque depois, não há.

A preservar, obviamente, mas a velocidade com que se anuncia o $$$ e dão-se notícias de milionários que se voluntariam à causa parece-nos raiar a indecência quando há quem ali nas redondezas não tem onde cair morto (*).

*) Pun intented porque por baixo algures há catacumbas, tipo, basta cair... funny?

Mesmo entre os pobres (de espírito) não faltará quem prefira passar fome e frio para ter uma bela catedral gótica na paisagem, é um direito que lhe assiste: penar trilho de cabras acima só torna a glória da capelinha lá em cima mais celestial. Pacífico, no campo das ideias ninguém deve ser obrigado a nada ou ao seu contrário, mas, aquilo d'OS POSITIVOS: a infectar as ditas e a juntar lenha na refunda para festejos à razão.

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