OS POSITIVOS

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Concluindo do Electra #4, teses e anti, notas finais para "O populismo no regime da 'mediarquia'" 2019 por Yves Citton.


I

Artista ao serviço social

As mediações tornaram-se de ubíquas, endémicas e constitutivas do nosso próprio ser. Fazer de si e de cada um(a) um(a) mediartivista, eis porventura a melhor maneira de superar as ciladas simétricas do populismo e da denúncia desdenhosa do populismo — e eis certamente uma outra maneira de formular o apelo à invenção de um povo que falta.

É o que faz o trabalho artístico, cuja essência consiste em fazer recair a atenção sobre a mediação, mais do que sobre o conteúdo mediado.

A política autenticamente democrática não pode fazer-se, daqui em diante, a não ser por meios artísticos - isto é, colocando as questões de mediação no centro das suas análises e das suas práticas. O mesmo é dizer que, nos tempos que correm, a política não pode ser senão mediopolítica e mediactivista, ou, melhor ainda, mediartivista: luta contra a mediarquia, no seio da mediarquia, para sair por cima. Cada um(a) é exortado(a) a tornar-se artista, ou seja, a tornar-se sensível às propriedades das mediações que o inserem nas suas redes de sociabilidade.


II

De popular-a-quias.

Inúmeros editoriais, análises e comentários lamentam a ascensão do "populismo". No entanto, várias premissas da denúncia do "populismo" podem ser enganadoras. Muito embora as acusações tenham por alvo os políticos, elas pressupõem que "o povo" não só é ingénuo (e, implicitamente, estúpido), como está "errado", ao deixar-se atrair por falsas promessas. Com tais suposições, as elites políticas revelam o seu desprezo de classe para com a igual inteligência de todas as pessoas. Preferem não ver as razões legítimas que podem ter as pessoas exploradas para enviarem ao poder instituído, no nosso regime de desigualdades absurdas e injustiças cada vez mais comuns, uma mensagem clara de frustração (e de ameaça). O mais importante, porém, é que as acusações e os lamentos habituais levam a que as nossas análises incidam sobre o conteúdo e a forma dos discursos rotulados de "populistas", quando na verdade é possível identificar o problema principal num outro lugar — a saber, na própria intra-estrutura da comunicação que estrutura as nossas sociedades intensamente comunicantes. O populismo é um fenómeno muito mais recente, que depende não tanto de um determinado regime político (a democracia), mas sim do poder de um determinado tipo de comunicação de massas (que propomos identificar com o termo de "mediarquia").

Os populismos têm tudo que ver com os dispositivos mediáticos que estruturam e regulam a produção e a circulação das imagens, das narrativas e dos discursos. O dispositivo populista torna-nos estúpidos, ao provocar o curto-circuito das tentativas da nossa inteligência inventiva e condenando-nos ao ventriloquismo dos clichés que nos atravessam.

Na realidade, o que realmente toma parte no poder político não são nem "as pessoas" nem "o povo", mas essas entidades sociais muito recentes à escala da humanidade que são "os públicos". Os públicos não existem desde sempre, pois não são constituídos senão pela emergência de certos media. É pois mais adequado caracterizar o nosso regime político pela dominação dos media (mediarquia) do que pelo poder do povo (democracia), uma vez que as respostas que damos às questões que nos colocamos se encontram fortemente estruturadas e condicionadas pelos estímulos e pelos feitiços em que nos submergem os já referidos media. Vivemos em mediarquia a partir do momento em que os nossos sentimentos se formam mais através de afecções sensíveis que nos chegam dos media do que por meio das experiências "imediatas" que temos da realidade material. As mediarquias devem ser abordadas simultaneamente em termos de infra-estruturas, na medida em que se encontram estruturadas por redes tecnológicas de mecanismos que são operados nos limites de restrições económicas; e em termos de super-estruturas, na medida em que fornecem os vectores de propagação de certas ideologias, imaginários, valores, no âmbito de algumas instituições políticas e judiciais; bem como nos termos de uma internalização psicológica, na medida em que fornecem as próprias categorias através das quais as nossas atenções percepcionam, classificam, compreendem e ordenam os nossos mundos. É por isso que devemos referir-nos a elas como intra-estruturas.  Os populismos prosperam na medida em que parasitam as dinâmicas mediárquicas que se regozijam em denunciar, ao mesmo tempo que demonstram saber jogar de forma magistral com as suas propriedades. Uma grande parte da força (inquietante) de que desfrutam os discursos populistas "de direita" consiste no facto de que têm toda a razão em denunciar as hipocrisias, os embustes, as distorções, os disfuncionamentos inerentes às dinâmicas actuais das nossas esferas mediáticas. A outra parte (ainda mais ameaçadora) da sua força resulta do facto de que — à semelhança daqueles que são fantasmagoricamente designados como "terroristas" – sabem perfeitamente explorar essas dinâmicas mediárquicas para as desviarem em seu proveito.


III

Dispositivos

É a partir do interior do regime mediárquico que será necessário levar a cabo a transformação da mediarquia. É através do trabalho criativo dos mediactivistas e dos mediartivistas, assim como através dos movimentos associativos e das solidariedades quotidianas, que os dispositivos ainda inéditos de recomposição das sensibilidades, dos afectos e das práticas contribuirá para inventar um povo que falta. De Laclau a Negri, dos zadistas aos aceleracionistas, dos hackerspaces aos centros de arte, dos hoax-boatos à sociedade-pólen, as nossas inteligências colectivas esbarram hoje precisamente na questão dos dispositivos e das mediações próprias para fazer advir um povo que falta. A única maneira de conter realmente os efeitos nocivos dos populismos (bem como de neutralizar os efeitos funestos do pretenso "terrorismo") consiste em modificar o ecossistema mediático que actualmente permite aos seus dispositivos prosperar. Esqueçamos a querela do populismo para em vez disso nos concentrarmos na invenção de dispositivos: o recurso a um dispositivo populista justifica-se na medida em que ajuda a sair do círculo vicioso em que somos aprisionados pela actual simbiose entre dispositivos populistas ("de direita") e regimes mediárquicos.

de mordomias

crises imaginárias