OS POSITIVOS

O erro de António Guerreiro

Esqueceu-se de nós, a sociedade incivilizada - há quem chame utópica.

Continuando de tech takes it way, interrompemos os cómicos para voltar à press cada vez mais pressionados. Pelas suas boas intenções começa mal: pedem-nos que rezemos pelo jornalismo. Roga ao público errado (pun intended!) preces que só poderíamos entreter postumamente e nunca se houvesse hipótese de lhe evitar a enfermidade. Graças a deus, ateus convictos. O seu texto merece o retalho em acelerado para registo na continuidade do anterior de J-Pacheco-P.


António Guerreiro, "Rezar pelo jornalismo" 3 jan 2019

Iniciando do "enfraquecimento do jornalismo", "explicado por factores que decorrem da nova paisagem mediática e dos constrangimentos económicos", contrapõe jornalismo moderno (como em "com origem na época das Luzes", esse moderno) intentado a "contribuir para a socialização da cultura e estar ao serviço da formação de uma opinião pública racional", ao infotainment actual – "jornalismo como entretenimento", "inócuo" e "irresponsável" – e uma outra aglutinação promíscua e hifenizada, o "político-mediático" de "cumplicidade profissional e uma alternância de papéis entre os jornalistas e os políticos".

Dessa alternância, "a classe profissional dos jornalistas perdeu poder e autonomia, foi proletarizada, reduzida a uma massa que trabalha para uma ‘indústria de conteúdos’, que é o ramo da actividade produtiva a que os media de massa se conformaram acriticamente." A nossa deixa ao takeaway que mais destaque merece repetição neste espaço.

Não se trata nunca de procurar caminhos novos e de proceder a novas focalizações, o que é preciso sempre é fazer o que os outros fazem ou, se possível, antecipar o que já se sabe que os outros vão fazer. Esta regra é seguida com especial rigor nas áreas culturais, onde o jornalismo se acomodou à lógica das "audiências" e do "consumo cultural" que se confirmam e se alimentam a si próprios. Um círculo vicioso está assim criado, de modo a que tudo funcione para garantir que só se mostra o que já foi visto e só se produz o que já antes foi consumido.

OS POSITIVOS: sem rigor, por áreas culturais a viciar garantias, focalizamos no que os outros vão fazer desacomodados das lógicas em audiências, para reproduzir o que já foi visto de modo impróprio a consumo. E de consumos para o fim, as nossas intenções são boas. Nem que tenhamos de ser mauzinhos primeiro: parêntesis para recuperar memória do jornal i no lançamento da revista.

A Fundação EDP lança uma revista de crítica da cultura que se propõe ocupar o vazio deixado pelo jornalismo, contrariar a imediatez e a frivolidade, atacando em várias frentes os problemas de uma época que tudo tem feito para se distrair da presente ameaça de extinção. O jornalista, crítico e ensaísta António Guerreiro, ganha aqui uma invejável margem para se ocupar do vazio que a imprensa generalista tem deixado. Guerreiro frisou que, não sendo uma revista universitária, nem académica, também não é magazinesca e procurará uma actualidade que não é a dos jornais. Como Guerreiro explicitou, a “grande época” de que o dossier trata é a nossa, e a ideia é desdobrar o presente e pensá-lo em termos políticos, sociais, ecológicos, etc.

O demolidor diagnóstico foi servido a uma sala cheia de jornalistas de cultura, que o recebeu impávida e serena. Até o ar na sala encolhia os ombros.

As questões levantadas pelos jornalistas presentes na sala mais não fizeram do que confirmar o diagnóstico. E se houve a preocupação em saber qual vai ser a tiragem da revista, a periodicidade, se a capa do primeiro número se irá manter inalterada... já não houve margem para a menor provocação. Vai longe o tempo dos jornalistas façanhudos, os desmancha-prazeres: o tipo comido pela caspa, e que, àquela hora (depois do almoço), tivesse já o espírito pelos joelhos numa poça de álcool, capaz de perguntar ao fato que falou em nome da administração da EDP como é que a mais lucrativa empresa portuguesa combina o ter pago em 2017 apenas 0,7 dos seus lucros de 1,52 mil milhões de euros (apenas 10,3 milhões, portanto) com a bondosa Fundação que, enquanto mecenas cultural, e até nos projectos de inclusão social, abre mão de migalhas se comparado com a isenção de que goza a empresa-mãe, num nível de tributação inferior ao da maioria das famílias portuguesas. Sob o risco de se confundir com a hipocrisia da moral dominante, não estaria a revista obrigada a um esforço de auto-crítica?

Diogo Vaz Pinto in "Electra. Uma revista que quer pôr a broca no sorriso demente desta época" 15 mar 2018

Autocrítica. Hum, muito mais dados a expiar os nossos pecados, e os dos outros porque somos solidários em partilhar da nossa mágoa.

Tornou[-se] urgente fazer aquilo que os media mais resistem a fazer, a autocrítica, e declarar que a profissão correu mal, uma conclusão que encontra hoje razões suficientes para ser anunciada. Os media parecem acreditar que se protegem silenciando os males de que sofrem e omitindo os erros que cometem. Fazem-no umas vezes por arrogância e outras por temerem perder o capital de que mais necessitam: a confiança. De acordo com esta tendência para o fechamento à exposição pública dos seus erros e fraquezas, a regra quase sempre seguida consiste em exaltar demagogicamente os sucessos e esconder com cuidado os problemas e os falhanços.

E pela segunda vez em dois dias recupera-se Karl Kraus no Público para comparar imprensa e putas. Godbless.

Uma autocrítica maior que esperamos encontrar neste dossier: terá sido o jornalismo (como romanceado) um subproduto de uma época (passada) e de uma era tecnológica (ultrapassada) condenado a desaparecer com o fim do monopólio da produção e distribuição de notícias? Se nos próximos cinquenta anos a humanidade está condenada a interligar-se individualmente a uma escala massiva nunca antes conhecida, nesse novo tecido social permanentemente ligado reconheceremos ainda como jornalistas aqueles que escolhemos para nos interpretar o mundo? Importante!: um fosso imenso nos separa da consulta da informação às conclusões da dita, e evitámos a designação "rede social", informação credível não! é sinónimo destas. Mas... notícias também já não são um exclusivo de jornais, cada vez mais agregadores reactivos em segunda mão ou almanaque de crónicas domingueiras. Nunca antes estivemos tão sedentos de notícias, nunca antes existiu tamanho aparato técnico que as suporte, nunca antes fracassaram tão monumentalmente os media.

Continuando da "obesidade da 'opinião' e do 'comentário' " e do jornalismo editorialista que "anula a função crítica do jornalismo e funciona segundo a lógica do entretenimento: promove a encenação de polémicas e debates que funcionam em circuito fechado", "nesses momentos, impera um espírito de rebanho", onde "o jornalismo torna-se então uma caricatura, uma engrenagem autotélica que funciona para se alimentar a si própria" e "cria-se assim a ilusão de que este jornalismo cria um espaço público alargado, próprio de uma sociedade transparente, quando na verdade a reduz na sua amplitude e no seu alcance".

Nesses "media de vocação jornalística" (a nuance não é desperdiçada…) aponta-se à -

Ascensão de uma oligarquia gestionária que tornou impossível separar direcções editoriais de administrações financeiras, de tal modo que os departamentos de recursos humanos das empresas de comunicação social tornaram-se adjuvantes pragmáticos das estratégias administrativas justificado pelos constrangimentos económicos e executado em nome da sobrevivência das empresas.

- money money money, razão porque –

Perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos. O triunfo de um pragmatismo estrito em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista e a cumplicidade com a indústria do entretenimento) retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.

A nossa última deixa portanto.

AG falha quando nos diz que "está assim criado um ambiente cheio de tensões: hoje, o mundo dos media é um mundo de desigualdades exacerbadas e de lutas de classes. De um lado, está a oligarquia editorialista, do outro, estão os jornalistas". Não equacionou um terceiro elemento às tensões e three is a magic number – aqueles que se posicionam fora dos media mas o invadem nas suas incursões, uns por acidente, outros que esperam para dançar sobre a sepultura do jornalismo no aftermath da profissão. Os sintomas de que se queixam não são os de um sistema quebrado a precisar de arranjo, mas obsoleto - se lhes falta imaginação a alternativas não quer dizer que vá durar para sempre.

Seguindo de analogias ao título da peça, a liturgia mais próxima que nos cabe nessa sociedade será o de "sin-eater": reabilitaremos este jornalismo só depois de morto, e ajudaremos a matá-lo antes. Next please.

A sin-eater is a person who consumes a ritual meal in order to magically take on the sins of a person or household. Sin-eaters, as a consequence, carried the sins of all people whose sins they had eaten.
in Wikipedia

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