OS POSITIVOS

boas e falsas: as más notícias

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another brick in tha wall?

Compelidos a errar entre causas perdidas, este fds na companhia do Electra #4 fev 2019.

"Primeira página" e primeira prosa nessa intenção por José Manuel dos Santos e António Soares - e ainda frescos do Politics and the English Language por George Orwell: "falar deles é afirmar que, neste mundo de relâmpagos sem luz e trovões sem treva, ainda há lugar para aquilo que" sabemos desejar a oportunidade de sentir falta. "Última hora: o jornalismo, os media e outros poderes", breve enunciado a somar ao texto de outro senhor que nos justifica a curiosidade inicial. "Rezar pelo jornalismo", António Guerreiro: o outro senhor, já comentado. Carla Baptista, "Das boas notícias às notícias falsas": as más notícias.

Iniciando e acabando do mesmo episódio à laia da fábula em formato já tão batido que nos exaspera, expõe a meio uma equiparação entre notícias falsas e estado da arte digital que transborda aos sócios habituais. Das fakes recorda-nos "prevalência" à história, antigas "como o próprio jornalismo", notando que "a maioria dos estudos empíricos realizados sobre notícias falsas não permitem distinguir com clareza quais são os efeitos à sua exposição. O consumo de notícias falsas parece compaginar-se com o de notícias geradas por meios tradicionais, não estando comprovado que diminua em função dos níveis de literacia", ie: "as reais motivações que estimulam as pessoas a consultar fontes de notícias falsas" "não pode[m] compreender-se sem a concomitante erosão do campo cultural". É a cultura, estúpidos, e aqui escolhemos começar a nossa pequena intervenção.

"crenças enraizadas na estrutura emocional"

Do enunciado, "uma panóplia de boas soluções tecnológicas e societais" que dão "resposta fragmentada a um problema transbordante" onde se contrapõe à "concentração da propriedade dos media e a sua instrumentalização" a "diversidade e o pluralismo", salva-se primeiro passo do qual faz notar que "a transferência para o digital significou mais do que uma mudança de plataforma. A produção, circulação e apropriação de notícias ocorre em contextos radicalmente diferentes", cujas "possibilidades de participação foram aumentadas, não só em quantidade, mas também em qualidade, e surgiram activismos digitais com capacidade de mobilização".

Hélas a autora desconfia de mobilizações por activismos digitais, que contradiríamos de fundamentos e argumentos se coletes amarelos presentemente a marcar ausências cada fim-de-semana não nos poupassem o francês. A própria abrevia-nos contraditório:

Todas as interações são significativas. Gestos mínimos, cumplicidades silenciosas, escolhas caprichosas, comentários irados, constituem vestígios suficientes de existência de intervenção.

Vestígios que demasiado apressadamente descarta na sua intenção porque suficientes para incendiar os rastilhos de algumas revoluções. Mas é das ovelhas ao meio que aqui tratam:

Os meios digitais permitem a dispersão de vozes e pontos de vista, contribuindo para a criação de esferas públicas disruptivas. Os públicos, outrora agrupados em centros de autoridade, alguns dos quais seriam a televisão, a rádio ou o jornal, estão fragmentados. A internet não organiza a discussão no sentido de permitir comunicar através das diferenças. A existência de informação abundante tende a gerar uma maior confusão pela adição infinita de argumentos discordantes. O processo comunicativo gerado por uma situação particular nunca tem fim. Outro efeito é a polarização, pela adesão automatizada, a opiniões previamente concordantes.

Opinados, discussão infinita, pouco compromisso, ideias pré-concebidas - em suma: comunicação entre humanos para saudosos de meios de comunicação onde essa era decidida a jusante e notificada aos debaixo, qual "jornal ideal" que punha "a nação inteira a falar consigo mesma". No pólo oposto,

O leitor digital moderno pratica a assemblage de histórias e comentários sem a intencionalidade que transformou esse gesto criador numa corrente artística.

Surely not...: CB arroga-se a decidir pela arte dos outros? Take it away, maestro! Entre excertos que nada dizem –

O processo comunicativo fundador da esfera pública sempre foi um ideal teórico sofrido, em tensão entre as dificuldades de uma pulsão desejante e a luta para antecipar as condições aproximativas que permitissem concretizar a situação comunicativa ideal.

- confunde as rimas da história e abarcam-nos com os deploráveis et al de assanhados sem causa. A mesma miopia, a mesma objeção: o presente deslocou-se às nossas margens, agora no seu centro devemos desocupá-lo porque outros tropeçam ao equívoco? Tomem-nos pelas alminhas que definham away em redes sociais de télélé na mão a alimentar novas estirpes em capitalismo, mas públicos esclarecidos e atentos atenderam a várias iterações para alcançar a abrangência de canais de comunicação desta magnitude capazes de repercutir-se na (des)ordem social. Dos inertes reactivos nada acrescentamos, já da premência em nomeá-los ("populismos" anyone?) para outro dia. Os seus críticos expendem esforços sobre a ausência de fundações sólidas para montar barraca, uma preocupação espantosa entre nómadas sociais em permanente deslocação cujo único traço duradouro é o renegar essas amarras. Deste engano segunda falácia. Assim (des)identificados, políticas identitárias são-nos estranhas, não procuramos reconhecimento: já teremos partido quando os detrás chegarem.

Mas antes de irmos, uma pelo jornalismo.


- porque "o jornalismo é um mundo cheio de contradições, perturbado nos seus formatos narrativos pela erosão dos filtros editoriais".

Redes sociais, entrar ou assinar... este estúdio P não é de P+

O problema que vivemos hoje é o desaparecimento do espaço público enquanto horizonte organizador dos processos de negociação entre cidadãos que constroem sentido para as coisas que acontecem e às quais é necessário dar uma resposta.

Desconfiados que esse seja o verdadeiro problema, sugerimos antes a consequência. Recordamo-nos de uma imprensa demasiado ocupada com outras prioridades estranhas à razão pública, e segue-se assemblage artística em radicais quando o "zeitgeist is really shifting" - pelo zeitgeist:

There has been a dominant narrative that has remained quite unchallenged in the media. That narrative has had a free ride in the press and culture, until now.  The super-rich don’t just spend on priceless works of art, but also use that money to buy the public voice, buy the media, buy impunity from justice, buy the policy process. Wealth at the top is being used to take away your voice, your rights, the policies that would work for you. I find that this shocks people – they start by thinking that the rich are just enjoying their money, snorting cocaine - they are using that money to disempower ordinary people. How did the billionaires pull this off? How is it that they conquered the realm of ideas so successfully and what do you think we need to do to win the battle of ideas in the coming years? I think in many ways the forces of plutocracy and of conservatism have been better than progressives at understanding the importance of cultivating ideas. And a big part of ideas is language.
in "Fightback against the billionaires: the radicals taking on the global elite" 7 fev 2019

A verve radical de Baptista quiçá não chega a tanto mas admite perto:

Os aspectos institucionais são cada vez mais centrais na determinação dos conteúdos jornalísticos, com esvaziamento da autonomia do campo. Tal evolução explica a pacificação de relações sentidas como antagonistas, designadamente entre jornalistas, assessores de comunicação ou publicitários.

Neste espaço celebramos o reanimar dessas hostilidades. Valorizar o jornalismo? Basta acrescentar valor. E seria a primeria vez que nos acusam de optimismo -

Who shapes, who directs and who moves that public will? Writers, journalists, activists, artists. It has been such a grim time for journalism, in part, because of plutocrats and the monopolistic world they have built. But I come to this conversation so optimistic. I feel like what we are witnessing is a profound cultural turning point in relation to these issues, caused by activists, artists and writers who are changing what the public wants by telling honest stories.
in "Fightback against the billionaires: the radicals taking on the global elite" 7 fev 2019

- não estivessemos convencidos do seu contrário.

Ideas are seen as somehow acceptable to discuss at a certain creative time, and the real political challenge is to move the window. The people behind such a shift are never politicians or mainstream writers, they are the radicals – those who are often seen as naive or bizarre, people who make you uncomfortable and angry.
in "Fightback against the billionaires: the radicals taking on the global elite" 7 fev 2019

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