OS POSITIVOS

Hardt and Negri

Parte 3 de 3 no parafrasear editado de Jeremy Gilbert, "Anticapitalism and Cuture - Radical Theory and Popular Politics" 2008. O disclaimer necessário:

The discussion here should not by any means be regarded as an adequate summary of the totality of these writers’ works, excellent introductions to all of which are in print, and of course, there is never any substitute for reading philosophical texts for oneself.

Os pontos fortes e fracos de H+N tocam todos os conceitos chave de Jeremy G: poder, criatividade, complexidade e hegemonia. i) Onde imperam - cof-cof: na sua investigação da complexidade das formas pós-modernas de soberania, na sua demonstração enfática que poder e criatividade são inseparáveis. ii) Onde desesperam: no risco de se reduzir a complexidade da política contemporânea num dualismo maniqueísta que impeça qualquer compreensão da mecânica da hegemonia que mantém o Império em diferentes sítios.

De nomenclaturas às intenções: qualquer movimento ou qualquer perspectiva analítica que queira traçar uma trajetória a partir da hegemonia do neoliberalismo deve encontrar maneiras de identificar o antagonismo comum que as mais diferentes frentes de luta compartilham hoje. Aquilo que se coloca no caminho de tantas demandas democráticas merece um nome: e o Império é um nome tão bom quanto qualquer outro. Ainda de nomes, que melhor para a possibilidade que este antagonismo comum possa ser realizável em projetos políticos para a democratização global do que a multidão. A principal contribuição do trabalho de Hardt e Negri para o pensamento radical contemporâneo é a coragem com que procura "nomear o inimigo", ir além da simplicidade de apenas identificar as corporações como o inimigo e, simultaneamente, identificando os que resistem ao neoliberalismo como a multidão, recuperando a observação marxista que a criatividade é irredutivelmente coletiva nos seres humanos e das máquinas que produzem o mundo que habitamos.

Hardt e Negri enquanto recurso válido: fornecem um mapa diagramático dos atuais sistemas de poder, no mínimo uma enumeração exaustiva dos actores globais e complexos antagonismos que se interligam. As suas análises permanecem cruciais da perspectiva da dissociação gradual da Nova Esquerda e dos estudos culturais dominantes de quaisquer projetos políticos reais: o momento do Império é o momento do capitalismo clintoniano, exatamente o momento em que as tradições e esperanças da Nova Esquerda são politicamente neutralizadas. A tarefa de mapear o novo terreno a partir desse momento, num espírito de solidariedade explícita com o movimento anticapitalista o empreendimento que assumem, com uma descrição do tipo de capitalismo internacional que Clinton e Blair pretendiam implementar nos anos 90: uma forma nova e agressiva de capitalismo sem fronteiras liderada por uma indústria de software e o boom da internet, infundido com os valores californianos do liberalismo social e da criatividade hedonista, comprometidos com intervenções multilaterais em defesa de suas agendas - um capitalismo que tinha no entanto muito pouco a oferecer aos industriais e aos barões do petróleo do sul e do meio-oeste americanos ou às populações não metropolitanas dos EUA excluídas do novo cosmopolitismo, com as consequências que hoje conhecemos.

Empire

Império 2000: a natureza do poder político entra em transformação radical no novo mundo das comunicações em rede e dos fluxos globais de pessoas, dinheiro e ideias. Não há mais um verdadeiro centro para o poder mundial: o capitalismo avançado depende de um conjunto fluido e multifacetado de relações entre instituições económicas e políticas - império como uma rede descentralizada, espécie de rizoma maligno.

Exemplo ilustrado de (des)centros de poder: historicamente os grandes impérios - Roma, o Império Britânico - não operaram como regimes autoritários verdadeiramente centralizados, mas cresciam de acordo com uma lógica de expansão sem fim que frequentemente delegava o poder real numa rede complexa de relações institucionais distribuídas.

Desta sua caracterização decorre em paralelo o argumento de que um estado de guerra global se tornou o novo modo ordinário de fazer política: hint hint aos dias que se seguirão a Trumpas.

Multitude

O argumento básico em multitude:

Singularities

O conceito acarreta um campo da coletividade que é composto de singularidades: pontos únicos de interseção e auto-invenção em potencial que não podem ser incluídos em qualquer totalidade simples nem reduzidos ao status de indivíduos. Essa singularidade nada tem a ver com nossa natureza individual, é uma função da posição única que cada um ocupa numa rede infinita de relações.

Laclau e Mouffe tendem a enfatizar a relatividade e a parcialidade de todas as identidades sociais, e sua dependência na rede de relações mutáveis onde todas as identidades são apanhadas, perpetuamente instáveis. Em contrapartida, Hardt e Negri enfatizam o poder criativo de grupos e indivíduos para constituir suas próprias identidades coletivas e realidades materiais, das quais vêm a verdadeira democracia como a expressão máxima.

Criatividade Crítica

Now, while the strength of this vision is its sheer inspiring poetry, its weakness is its failure to consider the relational, negotiable nature of political identities.

Na perspectiva de Deleuze e Guattari, a ênfase de Hardt e Negri na criatividade leva-os a teorizar erroneamente a dimensão de poder que se manifesta na capacidade das instituições repressoras para estratificar, codificar, bloquear, restringir: o império como forma de capital inteiramente parasitária da multidão rizomática que não se apoia doravante nos poderes de estratificação e territorialização que asseguram a hegemonia em determinados contextos. Essa pode ser uma tendência do capitalismo, mas é não é de todo claro que é a única possível a ocorrer na actualidade.

Hardt e Negri são incapazes de dizer qualquer coisa de significativo na formulação de estratégias políticas. As suas alegações de que o Império não tem centro e que qualquer ataque a qualquer parte dele é consequentemente também um ataque ao seu centro implica que não há necessidade de escolher entre, por exemplo, produzir subversões (propagandas parodiadas ou desfiguradas de mensagens corporativas), engajando-se na política eleitoral nacional ou empreendendo sindicalismo militante, porque são todos operações iguais no ataque ao sistema de poder. Além de fechar os olhos e desejar muito (*), nunca fica claro como Hardt e Negri imaginam que o caráter profético de seu trabalho irá se manifestar em alguma nova realidade política.

* A ironia é de JG, não nossa.

Cultura popular

As suas teorias aludem a um facto: o capitalismo neoliberal pode parecer, no presente, hegemonicamente inatacável em grande parte do globo, mas o desejo de formas de vida coletivas e singulares que esse não tolera subsiste: existe um potencial para uma mudança positiva. Se os estudos culturais podem fazer qualquer coisa com essas ideias, será na identificação de ocorrências em que tal potencial pode ser atualizado, e dos obstáculos reais para sua realização em contextos específicos. Hardt e Negri oferecem uma linha de investigação interessante através do antigo debate de populistas culturais e seus críticos:

  • Os populistas estão certos em enfatizar a agência potencial da multidão que produz a cultura popular, mesmo quando a consome.
  • Mas se uma celebração dessa criatividade popular perde de vista sua dimensão inerentemente coletiva e se torna uma mera celebração da soberania do consumidor individualizada, então essa entrou em cumplicidade com a ideologia neoliberal.

cumplicidade a consumo