OS POSITIVOS

Pacheco Pereira e outras linguagens

poop jokes como détournement

"the ominously ridiculous commedia dell’arte figure of the boastful buffoon"

Ocupados de comparações a prepotências passadas os nossos media confundem a seriedade do momento actual com a solenidade a emprestar ao trolha que se abateu sobre o mundo. Excepcionalmente perigoso e bem sucedido, esse deve ser levado a sério expondo-o ao ridículo.

Seguimos a deixa de José Pacheco Pereira na passividade - nós: "cumplicidade" – dos políticos e media – nós: acrescem os comediantes de serviço - e do que faz falta (!) em "Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas" 14 jul 2018

O que faz falta é que alguém diante de Trump e em directo lhe responda de forma clara e inequívoca, que se levante e lhe diga algumas verdades, já que não conseguirá dizer muitas, porque será calado e escoltado para fora da sala. Que faça aquilo que os anarquistas chamavam "a propaganda pelo exemplo", uma das coisas mais poderosas quando se pode fazer diante de milhões de pessoas que estão a ver ou vão ver, como seja dizer esta simples frase: "O senhor Presidente, sua Excelência, Sir, sua Majestade, sua Eminência, Grande Negociador, etc., por que razão o senhor mente tão sistematicamente, por que razão é um mentiroso?"
in Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas" 14 jul 2018

Antes de tratarmos de anarquistas e estratégias de détournement, igual destaque para a frase que se segue ao excerto anterior. J-Pacheco-P correctamente recorda a não tentar o diálogo: Trumpas é um troll experiente, qualquer comunicação uma conversa de surdos que o boastful buffoon guinará em adiantamento da sua causa.

Não lhe perguntem sobre políticas, que ele aí vai dizer o que quer, dependendo de quem está ao lado e, no dia seguinte, muda tudo na solidão do Twitter ou vice-versa.
in Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas" 14 jul 2018

Mesmo dia outro jornal de referência a terminarmos a introdução de hoje: de linguagem, no "The death of truth: how we gave up on facts and ended up with Trump" 14 jul 2018

Nós: particularmente interessados no discurso dos media.

Language is to humans, the writer James Carroll once observed, what water is to fish: "We swim in language. We think in language. We live in language." This is why Orwell wrote that "political chaos is connected with the decay of language", divorcing words from meaning and opening up a chasm between a leader’s real and declared aims. This is why the US and the world feel so disoriented by the stream of lies issued by the Trump White House and the president’s use of language to disseminate distrust and discord. And this is why authoritarian regimes throughout history have co‑opted everyday language in an effort to control how people communicate
in "The death of truth: how we gave up on facts and ended up with Trump" 14 jul 2018

Com esses dois apontamentos reordenamos peças recentes - o zeitgeist sempre! - que de outra forma passariam sem nexo de maior para responder às inquietações de JPP: 2018 borbulha rasteirinho pequenos indícios que nos esperançam a "animar a malta". Case in point, o regresso de Sacha Cohen: por si não acusamos entusiasmo de maior, mas pelo método que o populariza. Não que o soubéssemos pelos jornais de referência e esse é parte substâncial do problema. Dizem-nos:

Cohen returns to the American mainstream to find that it has grown too dangerous for him. The woods are burning, and he gives us poop jokes?

In a fractious and chaotic nation beset by families torn asunder, militarized forces suppressing protests, and lives lost he sets the bar extremely high for himself. When he manages to clear it, the results are dazzling but anything less feels like a waste of time.
in "Who is America? Sacha Baron Cohen's new show aims high but goes low" 15 jul 2018

Isto do The Guardian, a alocar nos "tradicional media": estamos admirados que desconsiderem poop jokes? Não, apenas que demorem em compreender quanto a realidade entretanto mudou, especialmente irónico se na peça o notam:

Cohen is returning to a form he popularized during a time marked by a different set of notions about how comedy best functions, and a different viewership to receive it.
in "Who is America? Sacha Baron Cohen's new show aims high but goes low" 15 jul 2018

Cohen regressa com mais do mesmo e o panorama mediático já não é o mesmo: o autor do texto não se aperceberá que é essa intersecção que coloca Cohen em sintonia com os novos tempos - ainda que, novamente, do seu teclado se formam as palavras:

this is urgent work for an urgent moment

The public get[s] the chance to watch [these slimy characters] go up against someone who didn’t have professional scruples getting in the way of [their] hate.
in "Who is America? Sacha Baron Cohen's new show aims high but goes low" 15 jul 2018

Desconhecemos o que pensa Pacheco Pereira das táticas de Cohen mas este responde às suas preces. Mais do que políticos ou jornalistas, os que urgentemente devem interromper o discurso de Trumpas é quem lhe faça par nesta cómica tragédia: qualquer gravidade maior só lhe empresta um respeito que lhe serve os propósitos - quebre-se a hipnose.

Elaboremos, palavra ao Buzzfeed, "new media" & "web savvy" para contradição às leituras possíveis do regresso de Ali G.:

Baron Cohen’s brand of comedy wields a (...) kind of recklessness. Sacha Baron Cohen - a consummate troll himself - is a perfect foil to the current political climate of grift and trolling.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

Segmentos de humor que no passado pecavam pelo constrangimento de engraçadas mas notoriamente armadilhadas, intencionadas ao resultado conseguido - ie, falsas - os tonites shows transmitiram-nas anos a fim e nunca foram geniais, apenas um exemplo flagrante da capacidade de manipulação que cabe à edição. E que, repentinamente, se torna o contraponto (*) necessário.

The lesson: The old media is not prepared for the new trolls.

The mainstream media as an institution has notoriously struggled to cover the message board misogynists, meme makers, partisan shock jocks, and the online ecosystem that’s fueled the furthest extremes of American political discourse since the 2016 election.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

*) Da quota-parte da sua responsabilidade à origem de uma cultura memiana revanchista para outro dia...

Enter Sacha e o seu (velho) style of subversive comedy:

Despite the awkwardness and ethical ambiguity, there’s a grim catharsis at play while watching Baron Cohen bait a gun rights advocate into making an infomercial to sell firearms to toddlers.

The week began with a quick trailer that showed former vice president Dick Cheney signing a "waterboarding kit" and ended with a series of news reports and furious statements from politicians like Roy Moore, Sarah Palin, and Sheriff Joe Arpaio admitting they’d been duped by Baron Cohen’s "evil," "exploitive" and "truly sick" interview tactics. In a matter of days, Baron Cohen didn’t just break into an impenetrable news cycle, he upended it, disorienting an untold number of bullshit artists, lawmakers, and anyone too quick to accept an interview request. The trolls, it seems, were not prepared for Baron Cohen.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

E voltamos novamente ao arrebate que justifica JPereira:

Over the last two years, the press has played into the hands of insurgent political groups like the pro-Trump media and the alt-right’s trolling efforts. In 2017, 60 Minutes and the New York Times were bested by a pro-Trump Twitter personality. NBC News and Megyn Kelly allowed Alex Jones and Infowars to steamroll them in what became a weeklong embarrassing troll that ended with Kelly getting scooped on her own interview. Around the holidays, the New York Times published a sympathetic profile of a neo-Nazi. None of this is new; 2016 was arguably worse. Kremlin-linked troll accounts on Twitter duped 3,000 global news outlets into thinking they were real Americans, embedding their tweets into more than 11,000 news articles in the months before the 2016 election.

Throughout each flub, the legacy media largely adhered to the traditional rules of newsgathering, many of which assume a (mostly) good faith effort on both the part of the interviewer and interviewees. But this tactic proves disastrous against entities like the alt-right, pro-Trump media, and many of the lawmakers who’ve joined Trump in his chants of "fake news," who delight in subverting traditional media in any way possible.

As the last two years have shown, the #MAGA style of politics is less an ideology than it is about breaking the system through an insurgent style of media hacking and alternate-reality creation.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

Pacheco queixa-se de políticos e jornalistas como comparsas desta tragédia, nós acrescentamos na lista de enablers os comediantes da noite.

Comedians like Stephen Colbert, Seth Meyers, and even Samantha Bee have largely reframed their comedy as a form of resistance to Trump and Trumpism, but do so while adhering to the traditional rules of late-night television.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

Contrário ao sugerido - e intencionado pelos próprios - os late shows normalizam as atrocidades do Trumpas com humor e gargalhadas antes da caminha. Exemplo: Colbert, o rosto da resistência, na mesma peça que denuncia o encarceramento de menores retirados dos seus pais transforma-os em props de comédia.

São três minutos: ver. O resumo de executivo começa aos 2:22 se estás com pressa.

Esta comédia mantem o status quo e propositadamente ou não evita quebrá-lo contra o assalto que os acossa: recordemos o pedido de desculpas de Samantha Bee. A hipocrisia: "não podemos ser como eles" mesmo se para manter a razão moral cedem em todo o resto invertendo a sua lógica - se no fim de fábula não se vence a adversidade enfrentada, importará a moral da história? Procuremos então descer um nível em sátira e humor: a que temos perdeu a sua verve. Politicamente Cohen é-nos estranho mas os seus meios estão na ordem do dia:

Baron Cohen is giddy to break the system and all the conventions and civility that come with it. He wholly rejects the "they go low, we go high" ethos, opting instead to wrestle in the mud with his subjects.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

E - voltamos a JPereira novamente - se politicamente motivado ilustra-nos como um bom troll em novos tempos retorce a velha máxima para two wrongs do make it right.

Like any good troll, Baron Cohen knows how to checkmate his subject so that he or she looks foolish regardless of the outcome. Admit you’ve been duped and you’re gullible and ashamed; protest and you’re a poor sport or a hypocrite. Either way, Baron Cohen wins.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

It’s a cynical view that — much like the show — isn’t very comfortable to sit with for very long. But that sinking feeling is very much the point. Baron Cohen is a worthy adversary for the most disingenuous in our politics and culture. He pits bad faith against bad faith and the result is something that seems like the truth — but it isn’t easy to watch. And somehow, that feels fitting for our current moment.
in "The MAGA Trolls Meet Their Match In Sacha Baron Cohen And "Who Is America?" 16 jul 2018

Nada disto é novo: a novidade está na sua necessidade readquirida. Terminamos de cómicos, late shows, trolls com um coração de ouro que politicamente se aproximam mais das nossas sensibilidades (*), o senhor que a esquerda bem pensante estabelecida já no passado tentou (e conseguiu) enterrar mediaticamente: Michael Moore.

*) OS POSITIVOS e Michael Moore: teria que largar os burgers.

Também ele estará de volta este ano com novo filme em setembro, e esta entrevista com Colbert é um exemplo do fosso entre o old estabelecido e os que optam por "wrestle in the mud with his subjects".

Note-se o comediante reticente em aceitar um "we" comum contra Trumpo ou sua impaciência profissionalmente comedida em terminar conversas para o fim do segmento. Ou, em sentido inverso ao primeiro video, como Moore não faz de menores em gaiolas um punchline ao monólogo.

Post scriptum:
A terminar Russel sobre Locke, este excerto quer-se esgueirar neste post por uma afinidade de ligações que se fazem. Citamos:

É sempre sensível e pronto em sacrificar a lógica de preferência a ser paradoxal. Enuncia princípios gerais que, como o leitor vê facilmente, poderiam levar a consequências singulares; mas sempre que elas aparecem, desvia-se suavemente. Para o lógico isso é irritante; para o homem prático é prova de são juízo.
Bertrand Russel in História da Filosofia Ocidental

!) JPJ e do que faz falta.

♪ O que faz falta é avisar a malta
♪ O que faz falta é animar a malta
♪ O que faz falta é acordar a malta
♪ O que faz falta é empurrar a malta
♪ O que faz falta é agitar a malta
♪ O que faz falta é libertar a malta
♪ O que faz falta é avisar a malta
♪ O que faz falta dar poder à malta

puro