OS POSITIVOS

level up

Seguindo da web primordial à imprensa impressa, "dois projectos bem distintos entre si", -

...mas cada um a seu modo vem trazer novos modos de pensar a distribuição da sequência das imagens enquanto princípio organizativo, ou pior, essencial, da banda desenhada.

Coincidências, do zeitgeist mediático que atravessamos e das suas inferências à cultura popular, o primeiro álbum de hip-hop vence um Pulitzer, uma "distinção [que] celebra ‘a banda-sonora da cultura jovem de hoje’", "the first non-classical or jazz winner", "capturing the complexity of modern African-American life". De complexidades modernas e celebração de culturas jovens estendemos comparações a um outro vencedor que passará mais despercebido na edição deste ano, mas igualmente relevante na escala de arrebatamentos culturais em comunicação de massas e cómicos: também pela primeira vez na história dos Pulitzer o prémio em editorial cartoon é atribuído a um "ongoing comics strip": "Welcome to the New World".


Op-Art.

Só mesmo o "Maus", o supra-sumo da BD para adultos de Art Spiegelman se aproximou de uma menção em "nonfiction graphic novel" circa 1992, tendo de se contentar com uma "special citation" em fim de lista. Enredados de jornais e comics tropeçamos na terceira notícia do mesmo dia digna de reflexão, a propósito da edição portuguesa do "livro do ano!!!", o "magnífico objecto-jornal O Reino", "uma acção feita de paixão, risco e coragem", ao qual "foi preciso uma editora de poesia para editar um livro de BD completamente fora do baralho e dos poucos autores que apareceram neste milénio a quebrar regras". Levados pelo entusiasmo de regras quebradas e BDs fora do baralho seguimos ligações onde dois livros pelos mesmos autores são recordados.

Livro, escultura, pop-up

Un cadeau é um livro cuja forma ransforma por completo o acto físico da leitura. O livro tem um número de páginas determinado, 32, mas elas estão todas coladas umas às outras. A única forma de "folhear" o livro é ir abrindo ou escavando cada página pelos picotados que estão preparados.
in "Un cadeau/Le royaume. Ruppert et Mulot (L'Association)" 7 ago 2015

Tudo isto vai contribuindo para as camadas e complexidades do objecto

Le royaume parece (ou é mesmo) um objecto convencional: um jornal que, aberto, tem um formato A1. Cada spread apresenta-se sub-dividido em composições (...) explorando essas relações em potencialidades narrativas não-normativas. O spread central do jornal é impresso duas vezes, para permitir ao leitor, sem que destrua as páginas fabrique uma espécie de cone que, colocado na cabeça, permite ver o vórtice de passagem virtual entre um lado e o outro. A última página também convida a que se proceda a uma técnica bem complicada de dobragens, para aceder ainda a um outro plano espacial. Ou seja, Le royaume permite uma forma de participação (similar, mas não equivalente, àqueles brinquedos que Chris Ware providencia nos seus livros de maneira a expandir o universo diegético da sua obra) que tridimensionaliza a narrativa, e a eleva a outros mecanismos textuais.
in "Un cadeau/Le royaume. Ruppert et Mulot (L'Association)" 7 ago 2015

Voltámos aos franceses e a "jogos da Oubapo", não são só os webcomics a reinventar meios e técnicas, as fronteiras culturais de ontem são os subúrbios de hoje, e "este será apenas um pequeno recado" que os atravessa:

Não deixa de ser curioso que, para encontrarmos atenções particulares ao que ocorre na cena contemporânea mais afecta à experimentação, à verdadeira invenção da linguagem, e não apenas a sua clássica confirmação, não se possa contar propriamente com as plataformas mais comuns, mas sim de sectores inesperados.
in "O reino. Ruppert & Mulot (Douda Correria)" 17 abril 2018

Curioso indeed que estas e outras cenas contemporâneas de experimentação e invenção de linguagens acontecem em sectores inesperados e plataformas incomuns. A cultura revolta-se, duplo sentido :)

Voltamos ao começo, Kendrick Lamar, "a double platinum-selling hip-hop album by an artist who packs out arena venues", e o Pulitzer:


A capa do seu álbum anterior bastava para merecer o Pulitzer

He’s proved that it is possible to make a huge mainstream impact with music that never panders to the lowest common denominator and never underestimates its audience’s intelligence.

But there is also wariness about an opening of the prize to music that has achieved blockbuster commercial success. This is now officially one fewer guaranteed platform for noncommercial work, which scrapes by on grants, fellowships, commissions and, yes, awards.

O eterno debate. As elites apropriam-se da cultura de massas, ou estas invadem espaços que antes lhe eram negados...? Inclinados à segunda opção.

You could argue long into the night about whether or not the approval of an institution like the Pulitzer prize is antithetical to the messages contained in Damn, but an award that’s frequently courted accusations of rarefied, snooty irrelevance could hardly have picked a more relevant and impactful album to give its approval to.

Dúvidas houvessem, retirado da vox populi em comentários nas peças citadas:

The Pulitzer Prize for Music needs Kendrick Lamar more than Kendrick Lamar needs a Pulitzer.

Bem-vindo a um novo mundo do contra, com cultura.

Também citados: "O Pulitzer de Kendrick Lamar é Poetic Justice" 17 abril 2018 "The New York Times won a Pulitzer for a nonfiction graphic novel about Syrian refugees" 16 abril 2018 "O livro do ano" 17 abril 2018 "After 60 years, Kendrick Lamar has brilliantly brought pop to the Pulitzer" 17 abril 2018 "Kendrick Lamar Shakes Up the Pulitzer Game: Let’s Discuss" 17 abril 2018

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