OS POSITIVOS

Abwaesser

"The Internet has long needed a sewer."


I


Na mais elementar possibilidade da BD em digital encontramos a mera digitalização de um original em papel servido em PDF ou outro formato estanque, um decalque directo da página impressa que a torna acessível numa miríade de diferentes dispositivos além da implicância física do livro que a viu nascer.

Essa transmutação é simplesmente formal e ignora os constrangimentos dos diferentes aparelhos que o acedem, podendo ou não comprometer na leitura a intenção primária do seu autor. Indiscutivelmente uma perda que não deve ser desvalorizada: se o sentido da obra ou as suas nuances interiores são obliteradas num exercício que lhe é estranho não devemos atentar contra a natureza do seu meio.

Mas são casos extremos dos quais não podemos generalizar uma interdição genérica à sua desmaterialização pela acessibilidade em múltiplos ecrãs: a leitura resultante poderá não ser plena de confortos, mas é pelo menos é uma possibilidade de acesso, razão pela qual cada BD impressa deveria permitir sempre a sua consulta (*) digital.

*) Não dissemos leitura.

Em estágios intermédios, soluções como a comiXology mantém de base o pressuposto da página impressa mas já permitem uma adaptação da sua leitura mediante o aparelho em que essa ocorre: um primeiro reconhecimento das particularidades do novo meio. Apps semelhantes oferecem outras features dedicadas.

De notar que em ambos os casos - PDF, CBR, etc, ou os comiXology deste mundo - a tendência denota que estes terão cada vez menos por objecto a página impressa, mantendo apenas a herança desse formato. Uma quantidade crescente de banda desenhada é produzida directamente em digital, inclusive a que se destina à impressão, tornando-se essa a primeira transferência de formato exigida ao processo, e não a sua digitalização em sentido inverso.

Avançando em direcção uma maior abstração da página impressa por reinos digitais deparamos-nos com a necessidade de outros termos à sua descrição, e introduzem-se conceitos como, entre outros, motion comics, uma variante de comics que integra uma manipulação temporal/espacial aproximável a tendências cinematográficas, ou interactive comics, de relações mais próximas à da lógica dos videojogos (*), ou, sobretudo, webcomics.

*) "Video", "jogos": na origem da palavra outra fusão de meios que denota a necessidade de especificar a sua ascendência tecnológica? Equiparemos: porque separamos comics de digital comics? Mesma razão: um novo meio?

Os webcomics estão ainda na sua infância, o termo engloba práticas tão díspares que compreende os anteriores digitalizar de pranchas impressas e a ascendência do formato papel a suportes digitais que lhe são alheios em técnica mas submissos em hábitos, chegando no extremo oposto às soluções nativas exclusivamente válidas para ecrãs. Pelo meio, variam os formatos que compreendem pequenas peças à-lá press cartoon e longos novelos gráficos, paginações delimitadas por A4 imaginários ou longos scrolls verticais e horizontais, progressões temporais lineares à-lá powerpoint ou narrativas exploratórias, gif animados, animações imersivas, cinematografias áudio gamificadas... Não faremos um retrato exaustivo de todas as variantes porque dependem do aparato e adopção de novas tecnologias que hoje se revolvem em competição extrema, todos os dias novas soluções se arriscam, e o único denominador possível parece ser a sua distribuição: digital, online.


II


Hoje ocupamo-nos de uma variante que colhe a nossa simpatia. Nativa do digital, utiliza apenas a língua franca da web -por oposição a qualquer aparato proprietário- para produzir bandas desenhadas que o são: um feito importante nas duas frentes declaradas. Não só se reconhecem enquanto banda desenhada - o lastro de vitimas da adopção forçada de tecnologia atesta à dificuldade de manter a BD reconhecível enquanto BD -, como o fazem com o papel e lápis da web. O resultado apenas pode ser lido nesta, mas numa época que a World Wide Web se torna cada vez mais a Facebook Google Web, é refrescante que espíritos independentes consigam surpreender com sugestões em espaço próprio, plataformas abertas, e, particularmente, sugerir as potencialidades do meio.

Apresentamos Abwaesser.

Importante: ilustramos os exemplos mas não substituem de todo a sua leitura. Para cada história sigam a ligação: um simples click que fará uma enorme diferença.

abwaesser.net 2016-2018

"Abwaesser is an outlet by one Michael Kühni - it explores the sphere of digital comics and illustration"

abwaesser.ch 2010

"Abwaesser is an attempt to tell short stories and reflections adapted to the medium of the Internet"

Na sua versão mais recente explora a esfera dos comics digitais e ilustração com recurso a linguagens web, na sua primeira encarnação socorre-se do Flash (*), parte da caixa de ferramentas a usar então em prol da web, não contra ela.

*) A feliz coincidência da comparação que nos é dada será explorada de forma mais proveitosa numa próxima ocasião, por hoje queremos apenas que notem onde as bandas desenhadas reactualizadas se aproximam e se afastam.

Na sua encarnação actual podem encontrar os (web)comics reconhecíveis nos moldes habituais one off, slideshow next e long scroll. So far so what. Mas por detrás destes as soluções implementadas são refrescantemente inovadoras.

Iniciando comparações por mecânicas familiares, ateste-se o parallax scrolling em "Deploy (Der Anschlag)" com um long scroll vertical em montagem nossa:

Em cima: a nossa captura de ecrãs, tens que fazer scroll. Em baixo: a mecânica original. Play, please.

O valor acrescentado não é acessório.

Outro exemplo: "Stoff".


"I read the lines that I wrote in the train"

Uma BD enriquecida com animações discretas que lhe reforçam o ambiente. O twist: não se tratam dos tradicionais gifs animados mas de transformações programáticas de CSS e Javascript mascaradas dentro da área do painel.

Encontramos o mesmo luxo em "Abstimmen Gehen": aparentemente – efectivamente - uma sucessão de imagens que geram a impressão de animação, mas novamente escusa-se ao simples gif animado e escolhe o caminho mais longo de as executar individualmente uma-a-uma controlando a sua visibilidade pelas suas propriedades HTML/CSS/JS. Estes dois exemplos dão o tom: a exploração das possibilidades do meio está no cerne dos exercícios propostos.

Consideremos o fascínio que exerce o"Frühlingsspaziergang", ainda Flash mas contido em pirotecnia diversa e passível de ser reproduzido em linguagens web mais recentes.

all dieser schnee | der hier noch liegt | dabei wird schon frühling | schon wieder

Outra sugestão de leitura, esta com consequências gravosas à já vasta literatura académica e teórica da relação espaço-tempo tão específica à BD é arriscada em "Patient" Esta narrativa poderia ser explorada em papel alternando de modo criterioso a cadência de imagens e permitindo ao seu leitor algum grau de liberdade para decidir o ritmo dessa sucessão. Apresentamos uma montagem nossa para a mesma história, page-wise.

"Patient" re-imaginado em pranchas.

Neste exemplo usámos três páginas. Online, o original resolve-o numa só página com um efeito de descoberta / surpresa / revelação superior que escapa ao spoiler no canto do olho típico da leitura em papel, permitindo igualmente ao leitor encontrar a sua própria cadência para o ritmo que mais lhe favorece a história. Isto, é, admirável.

Mais problemática à relação espaço-temporal própria da BD será a mecânica do "Coming of Age" e o seu predecessor Flash "Entwicklungsroman", ou ainda o "Heidi"

Além da disposição tradicional de painéis o autor esconde por detrás de cada uma nova vinheta que influencia o sentido da narrativa uma vez expostos, podendo eles serem revelados e novamente escondidos ou permanecer revelados, ao ritmo e pela sequência que o seu leitor desejar.

Novamente, as possibilidades são imensas: a prancha deixa de ser plana e acrescenta-se um novo eixo espacial e temporal à narrativa.

Último exemplo, terminamos com uma visita de estudo: "Visiting the Aquarium". Como atrás, dependerá da imaginação do seu criador o tipo de história que consegue criar através da revelação progressiva de imagens ao longo do espaço disponível: a própria definição de BD.

A terminar regressamos ao simples. 1) Se a manipulação dos comics em digital ainda assusta os nossos artistas, pelo menos deveriam ser capazes de trabalhar a sua apresentação, e novamente sugerimos o exemplo dado, agora em "Gujarat" : neste alternam-se pranchas com esboços em fundo, criando uma atmosfera muito mais imersiva à sua leitura. É-vos assim tão complicado manter uma presença online que passe por intencional e pensada? 2) Least, not least, acrescentando insulto à injúria :) julgamos que precisam de saber que com todas estas inovações web, o autor não descura da BD em papel, e tem mesmo um zine impresso pelo qual podes pagar... ou ler online no seu sítio. Fica a sugestão.


OMG: online, on paper, on PDF?! wild!

III


Note-se: simplicidade goes a long way. O carrossel tipo powerpoint que mencionamos no início talvez seja a outra tendência explicitamente web que vale a pena aprofundar. Next.

flutuam-se palavras