OS POSITIVOS

teen channeling

Continuamos a interromper a programação habitual para alargar a abrangência das considerações que nos ocupam nestes últimos tempos: n'OS POSITIVOS tratamos de cultura pop com desenhos em banda, desta abrimos a excepção para tratar de animados desenhos - esperamos que a troca vos seja pacífica. Voltaremos à programação habitual mas esta nota de rodapé exige mais um post à parte para apresentamos o case-in-point: quando voltarmos aos punks vais compreender o porquê do desvio. So let's channel those kids, shall we?

A título de exemplo abordámos ontem a evolução de género na animação em fins da década de sessenta. Façamos agora um pequeno update ao ano passado. O script inicial é do inicio do episódio #113 série 3 dos Teen Titans Go, "The Fourth Wall" 20 outubro 2015. Antes, apresentamos-te um excerto do episódio 116 série 3 do The Amazing World of Gumball, 9 julho 2015. Talvez assim descritos lhes consigamos emprestar alguma solenidade, mas caso desconheças os objectos em causa, confirmamos o que provavelmente já suspeitas: sim, são desenhos animados para crianças - não é o South Park.

Oy! - espera.

Porque,

- esse é todo o propósito da observação que fazemos. Repetimos: são desenhos animados, do Cartoon Network, para o seu público-alvo tradicional que compreende -entre outras demografias- o infanto-juvenil pre-teen. Não são desenhos animados excepcionais, se por excepcionais esperas que se destaquem da norma. Pelo contrário, e, novamente, justamente, motivo pelo qual publicamos esta nota, são pretty much o standard no canal. Não nos foi necessário nenhum esforço descomunal para os desenterrar, outros exemplos haverá – escolhemos estes em particular porque, além da intenção maior, também roçam os nossos interesses pessoais e até as nossas competências profissionais e académicas. Fim de preâmbulo, repetição para reforço: estes casos não são particularidades, são o new normal.

Segue-se o primeiro. O episódio chama-se "The Money".

"new normal"? "the money"? oh-u-guys

Visualmente o Gumball está já muito longe de ser uma animação tradicional, só na combinação de técnicas e estilos estamos perante uma linguagem extremamente elaborada para o seu público-alvo. Que estes não têm qualquer dificuldade em processar. E!

- e igualmente relevante ao caso é o seu conteúdo.

The Amazing World of Gumball. Animator's delight no 7'41.

Segue-se uma transcrição abreviada do mesmo, não substitui sua visualização: vê a porra do  vídeo.

Cena: não têm um tostão em seu nome e precisam de guito. Acção:

...e é tudo downhill dai em diante:

...down-downhill numa sequência que é uma delicia para quem faz animação. Minuto 7'40.

Pelo meio um gag muito bem conseguido a offshores, uma lição prática em product placement (minuto 6'50) e outros. Público-alvo: miúdos.

A sofisticação do que aqui se passou escapa a vários adultos que conhecemos. Exemplo dois, de volta aos Teen Titans Go. Neste episódio eles quebram a quarta parede, um conceito ainda igualmente difícil para muita boa gente. E não se limitam a falar com o espectador, eles desconstroem a sua realidade on-tha-go num exercício não muito diferente do realizado no primeiro vídeo –told ya tha watch tha damn thing!-, em termos de estória-e!-estética. Foi apenas uma coincidência escolhermos dois episódios de duas séries diferentes a abordar os mesmos temas: em ambos, a imposição externa de uma conformidade –tipicamente por razões $$- vs. a individualidade de cada um. Com muitas outras considerações à mistura. Foi também por coincidência que ambos os episódios fazem humor à própria animação, e esse é simultaneamente um hink pessoal da nossa parte, mas também uma porta de entrada às dúvidas existenciais que as personagem podem dai extrapolar. Mais. Num e noutro, a complexidade dos conceitos que implicam sobre a realidade e o seu simulacro disparam em todas as direções, do plano ideológico materialista ao espiritual-existencialista. Sociedade, indivíduo, ética, e uma salutar curiosidade em saber o que está “por detrás” de tudo acrescido de uma demonstração evidente que várias alternativas coexistem, dependendo apenas das acções e decisões tomadas.

Partimos do pressuposto que séries animadas da TV por cabo infantil não é o expoente máximo de animação que já alguma vez viste. Esse não é o ponto. O ponto é que este é agora o entry level das gerações mais novas. Se tu que és hardcore to tha bone e mau como as cobras e cresceste numa dieta de Hanna-Barbera’s, espera até estes miúdos revoltarem-se contra o mundo.

Vamos dar-lhes uma mãozinha, sim?

- pai, já posso ir ver tv?
- não, ainda 'tás de castigo - e arruma este quarto... o que estás a ler?
- as tuas bds
- vai ver tv, já

Esta é extra, uma for tha Man.

  • STARFIRE: Why would the Beast Boy find employment here? It is the bland and the boring.
  • RAVEN: Like moths to a flame, adults are drawn to soul crushing office buildings.
  • STARFIRE: Ugh! How can a few teenagers fight such a mature and fiscally responsible foe?
  • ROBIN: By doing what teens do best! [POP MUSIC PLAYING]

Fuck it. Se ainda tens a paciência para isso, já que estamos aqui e antes de voltamos aos webcomics, vamos a uma terceira nota de rodapé: quando os desenhos animados são ainda mais explícitos na mensagem, e a mensagem é muito, muito má. Up next.

a indução dos inocentes